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12/06/2019 | domtotal.com

Mentiras sinceras interessam

Naquela tarde, riam de si mesmos, da ingenuidade das mentiras.

As sardinhas foram servidas e ocuparam a atenção de todos à mesa.
As sardinhas foram servidas e ocuparam a atenção de todos à mesa. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

Com mais de 70 anos bem vividos, Astolfo e Bicudo almoçavam com as famílias na Taverna do Baltazar. Era fim de mês, dia de sardinha assada na brasa e o cheiro e a fumaça ocupavam toda a calçada da Rua Oriente. Dona Tereza cumprimentava os fregueses, mas chegava à grelha montada no canto para verificar se a funcionária honrava os preceitos lusitanos da casa.

Astolfo e Bicudo se lembravam do tempo em que davam aula no ensino básico. Um de artes e o outro de teatro. Os dois competiam entre si para ver quem mentia mais aos alunos. Mesmo exageradas, eram mentiras saudáveis. Os casos inventados sobre assombrações despertavam a atenção das crianças, fato que os levava a estender as mirabolantes elucubrações além do término da aula.

Naquela tarde, riam de si mesmos, da ingenuidade das mentiras, até que Bicudo se tornou sério, tomou um gole de cerveja e, com uma gravidade destoante, disse:

- É, houve um tempo em que a verdade e a mentira eram simples brincadeira. Depois, você se lembra, quando nos tornamos professores de faculdade, a mentira foi usada contra nós. Sei bem o que sofreu quando aquele aluno moveu uma ação contra você por causa da nota de uma prova.

- Foi inacreditável tudo aquilo. Uma grande farsa. E ele era apenas um picareta, faltava às aulas e quis usar o colegiado contra mim. Você sabe bem da história, né?.

- Claro, há mentiras e mentiras. Não estou falando de sua ética. A questão é a atitude dele baseada em uma farsa, disse o teatrólogo, interessado numa abordagem shakespeariana do tema, já imaginando uma possível adaptação sobre lady Macbeth.

As sardinhas foram servidas e ocuparam a atenção de todos à mesa. O silêncio foi interrompido quando Astolfo comentou, tirando um ictíico espinho da boca, que há alguns dias, deparou-se com uma frase interessante de Aristóteles sobre a mentira.

Resolveram consultar o oráculo do tempo presente – conhecido pela letra G, disse Astolfo. O que motivou uma piada sobre o ponto G por parte de Bicudo, provocando risos gerais e fazendo o sobrinho Luiz quase engasgar com um pedaço de sardinha. Os celulares dispararam em ritmo algorítmico e logo começaram a ler em voz alta a colação de frases de notórios sábios e pensadores de todas as épocas, gente que sabia mentir com jurisprudência, evidentemente.

Bicudo encontrou a frase aristotélica no celular e a pronunciou com ênfase que fazia deixaria Ronaldo Brandão orgulhoso: “Que vantagem têm os mentirosos? A de não serem acreditados quando dizem a verdade”. Em seguida, leu outra da coleção internética: “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”, atribuída a Winston Churchill, se é que dá para confiar em liberais – falou, soltando uma mefista gargalhada.

Astolfo riu também, todos riram. Ajustando os óculos, o velho compadre de mentiras sinceras achou outra frase no oráculo, atribuída a Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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