Religião

13/06/2019 | domtotal.com

A fé desempenhou um papel complexo na batalha pelo direito das mulheres de votar

As convicções religiosas obrigaram muitos a fazer campanha em nome do sufrágio das mulheres - e muitos a lutar duramente contra isso.

Mulheres carregam uma urna em desfile de sufrágio feminino em Nova York, 27 de outubro de 1917.
Mulheres carregam uma urna em desfile de sufrágio feminino em Nova York, 27 de outubro de 1917. (Library of Congress/ George Grantham Bain Collection)

Por Elizabeth Eisenstadt Evans*

Em 4 de junho os EUA celebraram os 100 anos desde que seu Congresso aprovou a 19ª Emenda à Constituição, garantindo às mulheres o direito de votar.

Em meio a uma guerra mundial cataclísmica, a emenda não foi ratificada até 1920.

Muitas das mulheres que haviam pressionado por isso (a emenda foi introduzida pela primeira vez no Congresso em 1878), incluindo Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, estavam mortas nesse então.

A fé desempenhou um papel fundamental na luta pelo sufrágio feminino. As convicções religiosas obrigaram muitos a fazer campanha em nome do direito ao voto das mulheres - e muitos a lutar duramente contra isso.

"A religião aparece pouco a pouco e de muitas maneiras diferentes", segundo a jornalista Elaine Weiss, autora de The woman's hour: The great fight to win the vote.

A batalha pelo direito do voto, segundo Weiss e outros especialistas, reuniu mulheres em um espectro de práticas religiosas, desde os “Quakers” até as mulheres ativas no movimento de santidade que viram a reforma social como um meio de testemunhar sua busca pela consagração.

Muitos defensores do sufrágio feminino, incluindo ativistas como Lucretia Mott, emergiram do movimento abolicionista. Elas viram o sufrágio como uma questão de justiça divina, assim como de direitos humanos, disse Weiss.

Outras mulheres viam o direito de votar não apenas como uma questão política e social, mas também como uma questão moral – da mesma forma que as pessoas que se opunham.

"O movimento para ganhar votos acolheu muitos clérigos de ambos os lados, e usaram argumentos bíblicos para reforçar seu lado", disse Weiss, que observou que muitas denominações, incluindo metodistas, presbiterianos e católicos, estavam divididos sobre a questão do sufrágio.

O sufrágio das mulheres também foi uma questão controversa para o clero judeu.

O rabino reformista Stephen Wise viajou pelo país dando palestras em apoio ao direito das mulheres de votar, de acordo com Weiss. Wise, que na época era rabino na Sinagoga Livre de Nova York, foi membro fundador da Liga dos Homens pelo Sufrágio Feminino e até gravou um disco em 78 para promover a questão.

"Ele tinha uma enorme rivalidade com um rabino [Joseph Silverman] de Temple Emanu-El, uma grande sinagoga em Manhattan", aponta Weiss. "Eles brigavam do púlpito sobre isso há anos, cada um dando seu próprio toque religioso".

Um dos ícones do movimento sufragista foi Anna Howard Shaw, médica e pastora que se tornou presidente da Associação Nacional Americana de Sufrágio Feminino e a liderou de 1904 a 1915 (morreu em 1919, antes que a emenda fosse ratificada).

Erin Sears, uma aluna do segundo ano da Candler School of Theology e participante da Igreja Metodista Unida, disse que estudou Shaw enquanto estava na faculdade. Mas disse que nem sempre estava ciente de que a fé desempenhou um papel na luta pelo direito de voto.

"É muito importante que as mulheres saibam que outras mulheres acompanhavam por anos e anos sua luta para serem tratadas de forma justa. Como uma mulher que procura justiça, é muito encorajante e inspirador estar na linha das mulheres que colocam sua fé em ação", disse Sears. "É um testemunho de que a fé vai além dos templos e que estamos espalhadas pelo mundo".

Outras defensoras foram atraídas para a batalha pelo sufrágio feminino como parte do movimento de temperança - movimento social contra o consumo de bebidas alcoólicas - liderado pela educadora e reformadora social evangélica Frances Willard.

Em 1879, quando a metodista Willard se tornou presidente da União das Mulheres de Temperança Cristã, ela começou a alinhar a virtude doméstica com a mudança social, de acordo com a historiadora do Calvin College, Kristin Du Mez.

Para as mulheres afetadas pelo alcoolismo de seus maridos, incapazes de proteger seus próprios filhos, votar tornou-se um meio de adquirir poder político e fazer o bem ao mesmo tempo.

"Willard estrategicamente atrai cada vez mais mulheres para o ativismo pelos direitos das mulheres, de forma cautelosa e processual", disse Du Mez. "As esposas e mães precisavam votar. É um dever da boa mulher cristã votar. As pessoas precisam votar para proteger suas famílias".

No final do século XIX, disse Du Mez, o sufrágio tornou-se uma causa respeitável na qual as mulheres cristãs poderiam estar engajadas.

Ao mesmo tempo, aqueles que se opuseram à campanha de votação ampliaram sua própria retórica de fé, disse Weiss.

Eles "usam a religião como um porrete para bater no movimento sufragista", disse Weiss. "Se as mulheres votarem, a saúde moral da nação estará em perigo", apontavam os opositores.

Usando argumentos baseados em textos bíblicos e acusando as sufragistas de serem imorais, os opositores disseram que a subserviência de Eva a Adão no Gênesis foi divinamente ordenada, disse Du Mez.

As mulheres afro-americanas como Frances Ellen Watkins Harper, Mary Church Terrell e Harriet Forten Purvis também estavam profundamente envolvidas no sufrágio feminino, mas não eram tão conhecidas.

"Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton acreditavam que às mulheres brancas deveria ser dado o voto antes que aos homens negros", disse a presbítera episcopal Kelly Brown Douglas, reitora da Episcopal Divinity School da Union Theological Seminary. "Chegou a essa questão de raça, de mulheres brancas sentindo que tinham uma prerrogativa e privilégio sobre os negros."

Weiss confirma. "A 19ª Emenda teve uma abordagem um pouco daltônica", disse, acrescentando que as principais sufragistas sentiam que precisavam se aproximar dos racistas brancos para ganhar seus votos. "A maneira como foi implementada não seguiu esse caminho".

Como o abolicionismo, a campanha para conquistar homens e mulheres negros, o voto sempre foi enraizado na comunidade de fé negra, disse Douglas, e foi definido na busca pela justiça racial, rejeitando a narrativa cristã de brancos escravagistas.

Por outro lado, ela acrescentou, o papel das igrejas americanas brancas, incluindo sua própria denominação, tem sido mais complicado: algumas vezes defendendo a justiça racial e às vezes os privilégios estruturais que vêm com o fato de ser branco na América.

O que pode ser colhido desse momento histórico?

Este aniversário, Douglas sugeriu, pode se tornar um catalisador para refletir sobre o registro histórico e agir para remediar os erros raciais que ainda afligem a América de hoje.

"Acho que o arrependimento é sempre devido", disse ela. "As igrejas têm que dizer a verdade sobre sua própria história e fazer a pergunta, 'quem somos como Igreja e quem somos nós na luta pela justiça social e racial?'".

Embora muita coisa tenha mudado desde a morte de Willard no final do século 19, as feministas cristãs como ela, que atraíram mulheres americanas "comuns" para um movimento social em expansão e as empoderaram, podem fornecer inspiração para aqueles que querem criar alianças entre feministas de fé e seculares, sugeriu.

"Como podemos ter melhores conversas, grandes coalizões e mulheres de fé?"

Uma agenda que exclua mulheres de fé provavelmente será menos bem-sucedida, disse.

"Acho que Frances Willard ficaria arrasada com a divisão entre a maior parte do cristianismo americano e o feminismo cristão. Isso causaria uma grande dor nela", disse Du Mez. "Eu me pergunto se a nossa estrutura polarizada agora não está escondendo uma esfera mais silenciosa que vale a pena segurar".

Mas Weiss, que é membro do movimento conservador judeu, disse que está apreensiva sobre o pensamento de trazer Deus para o reino público.

"Moralidade sim, religião não", disse ela. "Como pessoa de fé, não acredito que a religião tenha lugar na esfera pública."


National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara

EMGE

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