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13/06/2019 | domtotal.com

O mundo nostálgico das missivas


Por Afonso Barroso*

Numa das minhas visitas à infância, deparei com um coleguinha da roça, menino bobinho, bobinho, que falava coisas engraçadas e meio desconexas. Certo dia, quando olhava para uma fileira de andorinhas pousadas no fio telegráfico, ele comentou: “Ah zandorinha, na hora que as carta passar nesse arame cês cai tudo cá embaixo!”

Fios telegráficos, para quem não sabe, eram usados pelos Correios para emissão de mensagens por meio do código Morse. Cruzavam o Brasil inteiro e chegavam aos pontos mais remotos, incluindo a vila de São José do Jacuri, onde eu nascera e vivia. O telégrafo era um dos raros meios de comunicação da época. Outro meio eram as cartas, que me vêm à mente ao lembrar o aviso do meu coleguinha de infância às andorinhas pousadas no fio. Cartas não chegavam pelos cabos do telégrafo, evidentemente, como pensava o menino simplório, mas pelos primitivos meios de transporte. No caso do Jacuri, eram animais de carga que chegavam com os malotes de correspondências a serem entregues de casa em casa pelos estafetas – ou carteiros.

Caiu em desuso o costume de escrever cartas, coisa que hoje dá saudade em quem viveu aqueles tempos. Era comum ler coisas como “escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para dar notícias minhas e falar da imensa saudade que me invade o coração por estar tão longe de vocês aí”.

Era gostoso receber cartas, o que exigia um ritual cuidadoso. Lia-se o sobrescrito, abria-se o envelope, ora lentamente, ora apressadamente e com ansiedade, dependendo de quem fosse o remetente.

O destinatário sentava-se ou até se deitava para saborear o conteúdo. As linhas podiam até ser mal traçadas, mas as palavras, essas eram sempre um alento e uma alegria, quando boas as notícias. Notícias ruins faziam chorar, mas que diabo, eram recebidas como necessárias.

Além das linhas e palavras, cartas eram cheias de bons sentimentos e sincera amizade, como as que trocaram, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade e Alceu Amoroso Lima. Gonçalves Dias também se correspondia com Machado de Assis, e nesses casos, mais do que simples missivas, eram verdadeiras peças literárias com assinatura registrada no envelope.

São conhecidos os cartões postais escritos por Monteiro Lobato à sua noiva Marisa Lajolo, a quem chamava de Purezinha. Pequenas obras-primas de rapaz enamorado.

Clarice Lispector também se correspondia frequentemente com Fernando Sabino e Manoel Bandeira, cartas lindamente ilustradas com as nuanças do bem escrever.

Era prática comum a troca de cartas entre amigos, pais e filhos distantes e jovens enamorados num tempo em que telefone não fazia falta, até porque no interior bravo não existia telefone, a não ser nas agências dos Correios, de funcionamento precário.

Cartas eram também documentos históricos, como a que escreveu Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal para relatar a viagem das naus e o descobrimento de uma terra que antes era brasilis e hoje é só busílis.

Guardo até hoje a carta que recebi do meu pai quando completei 21 anos. Lá do Jacuri, ele aproveitou a data para decretar, por carta, minha independência financeira. Dizia a missiva que àquela altura eu me tornara maior de idade, me desejava boa sorte, me abençoava e anunciava que não mais receberia mesadas e me virasse. A sorte é que eu já me virava como empregado de banco, onde ganhara o emprego porque tinha a chamada “redação própria”.

Desde então meu ofício é fazer uso da minha redação própria. Se o faço bem ou mal, é você quem decide, meu caro leitor e minha amantíssima leitora.

Cartas, porém, não mais.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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