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14/06/2019 | domtotal.com

Deixa eu esquecer de hoje até amanhã

Ney Matogrosso, hoje em BH: 'Eu não sou de turma. Eu sou o bloco do eu sozinho'.

Ney Matogrosso estreia nesta sexta, em BH, o espetáculo 'Bloco na rua'.
Ney Matogrosso estreia nesta sexta, em BH, o espetáculo 'Bloco na rua'. (Marcelo Faustini/Divulgação)

Por Marco Lacerda*

Vejo as melhores cabeças da minha geração destroçadas pelo desencanto. Paralisia da vontade. Depressão. Impotência. Como os sonhos da modernidade degeneraram, em todo o planeta, nessa vertigem sem remédio? Parece que a vida cansou de viver. Mães, onde estão vocês? Onde quer que estejam, venham enxugar as lágrimas de sangue que escorrem dos olhos dos seus filhos.

De repente aparece você, desafiando mais uma vez os sinais dos tempos, e bota o seu Bloco na rua, com a liberdade que adquiriu, que lhe pertence e que você não negociaria nem sob tortura.  Aquele mesmo hippie dos anos 1960, hoje com bens e dinheiro, mas livre como sempre, até o último suspiro. O que você faz pode parecer excesso em outra pessoa, mas não em você, que parece contar com o aval de Deus para se expressar.

É longa a estrada que percorremos juntos, mesmo quando separados. Entre nós sempre foi assim: amizade e amor. Lembro, com ajuda da saudade, o dia em que nos conhecemos em 1973, depois da estreia do grupo Secos & Molhados no Teatro Itália, em São Paulo, para uma plateia de meia dúzia de gatos pingados. Daquela noite minguada ao retumbante estrelato nacional foi um pulo.

E você sempre no epicentro do furacão, fascinando, seduzindo, sequestrando a imaginação e a fantasia das plateias com aquele olhar e aquele gestual perturbadores, e uma ousadia nunca antes vista na música brasileira. O rosto sempre escondido atrás de uma maquiagem de teatro kabuki que tornava impossível reconhecê-lo de cara limpa, o que lhe permitia caminhar pelas ruas livre do assédio e da idolatria dos fãs.

Na época, eu dava meus primeiros passos no jornalismo paulista como repórter do Jornal da Tarde. Escalado para entrevistá-lo, gravamos horas de conversa sobre tudo. Um dia – lembra? – subindo a Rua Augusta, entretidos no nosso bate-papo, fomos interrompidos por uma garota que se jogou nos seus braços implorando por um autógrafo. Ela o tinha reconhecido pelos dentes. Dentes inconfundíveis de quem cresceu comendo fruta crua nas matas do Pantanal do Mato Grosso.

Noutra ocasião, caminhando, altas horas, pela Avenida Ipiranga – você não levava documentos naquela noite – fomos detidos por policiais e levados de camburão para um lugar ermo, sem saber se estávamos sendo seduzidos ou a caminho de alguma sessão privada de tortura. Era o auge dos anos de chumbo da ditadura militar. O episódio só durou até um dos meganhas reconhecê-lo e todos se derreterem em gentilezas e pedidos de desculpas. Fomos dispensados, não sem antes você ser submetido a uma inesperada sessão de autógrafos.

Outro confronto com a repressão policial em plena ditadura. Durante um show no Teatro 13 de Maio você deu um safanão num agente de segurança fardado que subiu ao palco para interromper o trabalho de um fotógrafo para o qual você dançava e posava com a desenvoltura habitual. Não muito depois, numa turnê pelo Nordeste do país, você foi o convidado de honra de um playboy para uma festança num tríplex à beira-mar, à qual compareceu a fina flor do café society nacional. No terceiro andar da morada de luxo presenciamos uma cena prosaica: o anfitrião derramando colheradas de cocaína no nariz do mais famoso estilista brasileiro da época. O playboy em questão, mais tarde, tornaria-se presidente da República.

O Brasil ingênuo daquele tempo transformou-se num antro de insolvência moral orquestrada do topo da pirâmide por homens e mulheres que elegemos para nos representar, mas traem descaradamente os compromissos e promessas assumidos. Em entrevista recente você disse: “Fui rejeitado tanto pela esquerda quanto pela direita. Me vi sozinho e falei: Foda-se o mundo, vou tocar meu barco sem o apoio de ninguém. Eu não sou de turma. Eu sou o bloco do eu sozinho”. É isso aí. Bota esse Bloco na rua. E deixa eu esquecer de hoje até amanhã.

BLOCO NA RUA
Show de Ney Matogrosso e banda.
Nesta sexta (14) e sábado (15), às 21h, domingo (16), às 19h. No Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, BH, (31) 3236-7400. Ingressos: Plateias 1 e 2 esgotados, Plateia superior: R$ 140, na bilheteria do Palácio das Artes ou pelo www.ingressorapido.com.br

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total

EMGE

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