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14/06/2019 | domtotal.com

Velar o velho

Tempo vivido, tempo sobrevivido, tempo vívido, lembrando que ainda há tempo antes do fim de jogo.

Espanto cotidiano em meio à rotação de sístoles e diástoles em ciclos de batidas renovadas do músculo afetivo infenso à retração.
Espanto cotidiano em meio à rotação de sístoles e diástoles em ciclos de batidas renovadas do músculo afetivo infenso à retração. (Pixabay)

Por Eleonora Santa Rosa*

Todo mundo ficando velho, eu também. Inescapável óbvia constatação, ao olhar para o lado e ver amigos e não amigos em claro flagrante movimento de mutação, na constante surpresa do efeito diário da subtração. Nostalgia, início de ronda em direção ao passado que tenta estancar o assombro da passagem sem tergiversação.

Imperceptível interior atemporal em contraste com a inexorável mudança dos anos de exterior manifestação. Troca de pele, pelagem, desgaste do tempo. Mutação de ponta a cabeça, rugas em dobras resultantes de rusgas pelo dobrado oficio de desencapar fios enroscados a fio. Curvatura em progresso em desafino com a vontade ereta do fazer, do sentir, do viver.

Ciclo natural da vida em progressão ao pó. Recusa à patética burla da plastificação estéril, impotente às marcas da finalização. Vitória de Pirro contra o espelho atrevido que não apaga o tempo decorrido.

Tempo vivido, tempo sobrevivido, tempo vívido, lembrando que ainda há tempo antes do fim de jogo, do término temporal imprevisto, mas de antecipado resultado final.

Espanto cotidiano em meio à rotação de sístoles e diástoles em ciclos de batidas renovadas do músculo afetivo infenso à retração.

Como bálsamo, a poesia, o magnífico verso cristalino eivado de esperança na renovação. Semente de brota límpida, luminosa, de bela delicadeza, de eleição de afeto sem tempo de perduração, “dos meus cabelos a asa (arco) os anos (íris) (castanhos) embranquecerão: o coração não".

Sina de velha vida nova em constante transformação.


1) O título desse artigo foi extraído do poema O Belo e o Velho, de livro homônimo de Affonso Ávila.

2) A citação do verso do poema referido no trecho final do artigo foi extraído de Opúsculo Goetheano (2), do livro Educação dos Cinco Sentidos de Haroldo de Campos.

*jornalista

EMGE

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