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16/06/2019 | domtotal.com

Tempos esquizofrênicos

Enquanto isso, o povo se alimentava de falsos sonhos de conforto e bem-estar.

Intelectuais e pessoas supostamente cultas, sabe-se lá por que razões, assumiram a defesa intransigente dos líderes da esquerda
Intelectuais e pessoas supostamente cultas, sabe-se lá por que razões, assumiram a defesa intransigente dos líderes da esquerda (Divulgação)

Por Evaldo D' Assumpção*

Depois de 81 anos de vida, já passei por muitas experiências, vivi situações bastante tumultuadas. Em 1960, buscando fotos especiais, quase despenquei na Garganta do Diabo, em Foz do Iguaçu, sendo salvo por uma folhagem em que me agarrei, até que me puxassem para a borda mais segura; em 1980, recebi ameaça do Esquadrão da Morte, por ter publicado artigo contra sua atuação, quando era vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese de BH; consegui o brevê de piloto aviador civil; fui médico do Pronto Socorro de Belo Horizonte por 32 anos, onde vivi as mais trágicas situações, inclusive removendo trabalhadores presos sob lajes de concreto, após o desabamento do Pavilhão da Gameleira, em 1971. A lista é longa e, em várias situações, vivi dilemas éticos e psicológicos mas, felizmente – e também com a ajuda do Alto – saí incólume de todas elas.

Minha referência a essa experiência de vida, coloco-a porque me encontro, atualmente, numa situação bem difícil, estando com dificuldades para compreender o que se passa e o que as pessoas pretendem em nosso Brasil. Sintetizando: vivemos por 13 anos sob o comando do Partido dos Trabalhadores (PT) que adotou inúmeras medidas populares, conseguindo uma ampla adesão na população menos favorecida economicamente. Esperava-se que o Brasil se tornaria uma República socialista, eliminaria as desigualdades de classes, reduziria a pobreza, o analfabetismo e o desemprego, a níveis quase insignificantes. Mas essa utopia quimérica se desfez com a eclosão de diversos processos denunciando estratosféricas ações de corrupção, rombos incalculáveis nas empresas estatais, tudo pela ação de um verdadeiro tsunami chamada Operação Lava Jato. 

Seguiram-se cassações, prisões, identificação de enormes fortunas ocultas nos mais bizarros esconderijos, em bancos estrangeiros, em imóveis utilizados para a lavagem de dinheiro sujo. Com a cassação da presidente Dilma, assumiu o vice-presidente Temer, que também teve sua vida devassada e inúmeras irregularidades constatadas. São numerosos os processos em andamento contra diversos políticos, alguns inclusive já encarcerados. E no meio dessa balburdia político-econômica-policial, também o Judiciário foi envolvido, seja individualmente seja institucionalmente, numa queda de braço absurda tipo prende-solta-prende, causando descomunal alegria aos profissionais de Direito, que nunca antes neste país faturaram tanto quanto em consequência desse terremoto grau 10 de Richter.

Vieram as eleições e foi eleito o candidato menos provável, contrariando os institutos de pesquisa, as cartomantes e astrólogos, e muitos órgãos da mídia. Escapando de pretensa consolidação do socialismo-comunista, o país foi pescado por uma onda de direita nunca vista no Brasil. Entre os derrotados, a surpresa e o desespero foram totais, pois entre as primeiras medidas tomadas, estava o reforço da Operação Lava Jato, com mais investigações, mais réus, mais cadeias ocupadas. 

Tanto no processo eleitoral em dois turnos, como e especialmente depois da posse, as notícias falsas – fake news – se multiplicaram que nem coelhos no cio. E hoje, até invasão de celulares de ministros, policia, sabe lá de quem mais, tornou-se o prato do dia. Muitas empresas de mídia, habituadas a receber fortunas em publicidades ou a outros títulos, viram suas rendas despencarem verticalmente. O medo das falências onde haviam fraudes, cresceu como um elefante na cristaleira. 

E aí chegamos ao que chamo de tempos esquizofrênicos. Intelectuais e pessoas supostamente cultas, sabe-se lá por que razões, assumiram a defesa intransigente dos líderes da esquerda, investindo com todas as forças contra o novo governo. Ação incompreensível, uma vez que as falcatruas, os desfalques, a corrupção iam sendo comprovadas – obviamente com algumas limitações, pois de dinheiro desviado ou roubado não se dá recibo, não se faz promissórias. Mas, de resto, tudo saltava aos olhos de quem os tinha para enxergar. 

Pessoas supostamente honestas e cultas, investiram pesadamente contra o novo governo, juntando forças com setores da mídia cujo único objetivo é detoná-lo, pressionando a liberação do ex-presidente Lula, sabidamente o chefe de toda a organização que por pouco não faliu a nação. Juntos, mesmo antes do novo governo ser empossado, acusavam-no de ser o responsável por todas as mazelas nacionais (que curiosamente vinham sendo acumuladas ao logo de décadas...). Também é para muitos incompreensível, que setores da própria Igreja Católica, que como justa bandeira tem a defesa dos excluídos, cerrarem fileiras com os que querem a volta das falidas formas de governo que engambelava os pobres dando-lhes migalhas, enquanto os capi nadavam em dinheiro e benesses. 

Enquanto isso, o povo se alimentava de falsos sonhos de conforto e bem-estar. De nada adianta mostrar aos defensores do regime anterior, as escolas caindo aos pedaços, as casas populares com mais trincas do que paredes, a falta de água para o nordeste, o saneamento básico totalmente inexistente, tudo isso depois de 13 anos no poder. Que adianta mostrar as obras superfaturadas de estádios – alguns inacabados – e pontes que levam nada a coisa alguma, trens-bala prometidos, quando o povo não tem sequer ônibus para ir trabalhar? Por outro lado, tudo de bom que o novo governo está fazendo, a mídia não mostra, ou o faz somente pelas metades e com críticas.

Vendo esse quadro digno de Van Gogh, onde a esquizofrenia se manifesta nessas atitudes incoerentes, fico completamente perdido, questionando-me se ando vendo e ouvindo coisas que não existem, ou os outros é que não querem ver nem escutar, o que está saltando aos olhos.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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