Brasil Política

18/06/2019 | domtotal.com

O Jornalismo feito nas sombras

Um país em crise à mercê de hackers protegidos pela impunidade.

Greenwald, Moro e Snowden: escândalo sob investigação.
Greenwald, Moro e Snowden: escândalo sob investigação. (Reuters)

Por Marco Lacerda*

“Hackers são programadores extremamente habilidoso, que se dedicam a conhecer e modificar os aspectos mais internos de dispositivos, programas e redes de computadores. Suas motivações são variadas: curiosidade, vaidade, patriotismo e, principalmente, atividades criminosas” – Wikipedia.

Hackers existem, entre outras razões, para servir profissionais da imprensa que se escondem atrás da ideia caduca de que jornalistas não precisam revelar suas fontes. Embora sendo um profissional bem preparado, o jornalista Glenn Greenwald, 52 anos, conquistou fama internacional e muito dinheiro graças ao trabalho clandestino de hackers. Em 2013, em parceria com analista de sistemas Edward Snowden, 35 anos, ele tornou pública a existência dos programas secretos de vigilância global dos Estados Unidos, praticados pela Agência de Segurança Nacional (NSA) – tudo denunciado por Snowden, um herói que o mundo odeia amar.

Snowden inventou Greenwald. Com uma reportagem sobre as espionagens da NSA, publicada pelo jornal inglês The Guardian, o jornalista americano ganhou o Prêmio Pulitzer de jornalismo em 2014 e, no Brasil, foi agraciado com o Prêmio Esso de Reportagem, por artigos publicados no jornal O Globo sobre o sistema de vigilância virtual dos Estados Unidos, que invadiu a vida privada de vários líderes mundiais, inclusive a da então presidente Dilma Rousseff.

O trabalho de Greenwald sobre os vazamentos de Snowden foram tema de Citizenfour, que ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 2014. Greenwald apareceu no palco com a diretora Laura Poitras e a namorada de Snowden, Lindsay Mills, na noite de entrega das estatuetas. No filme Snowden, de Oliver Stone, 2016, Greenwald foi interpretado pelo ator Zachary Quinto.

Esgotadas, no Primeiro Mundo, as possibilidades de comercializar jornalismo clandestino, baseado em informações hackeadas, Glenn Greenwald retornou ao Brasil, onde é casado com o deputado federal David Miranda (Psol), suplente do também psolista Jean Wyllys, que só assumiu a cadeira depois que Wyllys decidiu deixar o país alegando ameaças de morte.

Aqui, o jornalista abriu uma sucursal do site The Intercept, cujo primeiro “grande feito” foi divulgar, em maio, conversas entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, obtidas graças à invasão criminosa – sempre através de hackers de procedência desconhecida – dos celulares de ambos.

Embora as invasões tenham as digitais do oportunismo de Greenwald, há uma diferença abissal entre os vazamentos de informações da espionagem global praticada pela NSA e os referentes à Operação Lava Jato. No primeiro caso, Greenwald não protagonizou nada. Edward Snowden o procurou e entregou pessoalmente documentos que expuseram os delírios imperialistas norte-americanos. O gesto idealista, que deveria ser visto como uma corajosa iniciativa pelo bem da humanidade, custou-lhe o exílio na Rússia, de onde nunca mais poderá voltar ao seu país, sob pena de ser condenado à prisão perpétua. Greenwald, por sua vez, faturou grana e fama.

No caso dos vazamentos ocorridos há pouco no Brasil, não houve nenhum idealismo ou busca do bem-comum, apenas a intenção clara de atacar o ministro Sérgio Moro e desmontar a Operação Lava Jato, a maior guerra contra a orgia de assaltos aos cofres públicos que arrombaram a República.

A operação Lava Jato tem em Sergio Moro sua imagem e símbolo. Deu um alento ao país, fez acreditar na Justiça e influenciou a forma de enxergar e votar. Provocou uma quebra de paradigmas com a prisão de líderes da bandalheira. Embora os desvios de recursos tenham ultrapassado alguns trilhões de reais ao longo das duas últimas décadas, o Estado recuperou uma parcela irrisória. Os acordos de leniência na época de Dilma e Temer foram ridículos e ofensivos em relação aos rombos provocados no erário, centenas de vezes superiores.

Como bem diz o senador Paulo Paim (PT), é prematuro emitir juízo de valor sobre o ocorrido, antes da conclusão das investigações em curso, se é que algum dia serão concluídas, já que esbarram no anonimato a que tem direito os hackers envolvidos. Num país em crise, com as instituições em frangalhos e dividido entre lavajatismo fanático e petismo cego, tudo leva a crer que essa parada só será resolvida pelo povo, nas ruas. Apertem os cintos, turbulência à vista.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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