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19/06/2019 | domtotal.com

Suspeitíssima hospitalidade

Era 1º de junho de 1964 e Martins não fazia ideia de que o golpe militar iniciado dois meses antes resultaria em uma longa e tenebrosa ditadura militar

Quando cessou o som da máquina de escrever, major prosseguiu: 'Como explica o aparecimento de seu nome e endereço na documentação apreendida em poder dos chineses, presos como espiões no Rio de Janeiro?'
Quando cessou o som da máquina de escrever, major prosseguiu: 'Como explica o aparecimento de seu nome e endereço na documentação apreendida em poder dos chineses, presos como espiões no Rio de Janeiro?' (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

A expectativa enchia a casa da Rua República Argentina. Da cozinha saíam perfumes adocicados e de variados assados que se revezavam no forno. As duas filhas colavam as bandeirolas coloridas no barbante e o filho mais velho armava a fogueira no gramado. Os enfeites contrastavam com a arquitetura modernista e com os móveis pé palito, a geometria sóbria que ditava o bom gosto naquele ano de 1962.

Zelda comemorava seu aniversário com uma festa junina típica e movimentava um círculo bem eclético da sociedade belo-horizontina: membros do Lions Club, jornalistas, a vizinhança do Sion, estudantes amigos dos filhos, piauienses – seu marido, o próspero comerciante Martins, era natural de Barras, no sertão nordestino, de onde saiu bem jovem para tentar a vida na cidade grande.

A lista de convidados chegou a quase 100 pessoas, mas nela não constavam os nomes das duas pessoas responsáveis por desencadear, dois anos depois, a insólita intimação de Martins ao Quartel do Regimento de Cavalaria de Minas da Polícia Militar, “a fins de ser interrogado”.

Era 1º de junho de 1964 e Martins não fazia ideia de que o golpe militar iniciado dois meses antes resultaria em uma longa e tenebrosa ditadura militar. Também desconhecia o motivo de dois homens fardados baterem à sua porta lhe intimando a acompanhá-los ao quartel. 

Entrou na viatura – um Fusca – e seguiu sem dizer palavra. No trajeto, especulava sobre a razão de tudo aquilo. Martins disfarçava seu nervosismo, embora os ares da sala e dos dois oficiais que lhe receberam fossem frios e formais. O senhor major Joaquim Clemente da Silva, encarregado do IPM, sentou-se e, com um olhar lhe indicou uma cadeira de metal e, com outro, fez o tenente Wesley de Souza Moreira colocar a folha de ofício na máquina de escrever.

Depois de dizer seus dados básicos de idade, filiação, profissão, estado civil e residência, Martins ouviu do major: “O senhor é comunista militante?” Respondeu que não é e nunca foi comunista, nem pertenceu a nenhum outro partido em funcionamento no Brasil; que, simplesmente, foi ardoroso “prestista” nos idos de 1922 a 1930, período em que o senhor Luiz Carlos Prestes empolgava os jovens brasileiros que, com o correr dos anos, perdeu o seu entusiasmo ao referido cidadão e passou a execrá-lo, quando o mesmo declarou que, em caso de uma guerra entre o Brasil e a Rússia, ficaria com esta última.

Quando cessou o som da máquina de escrever, major prosseguiu: “Como explica o aparecimento de seu nome e endereço na documentação apreendida em poder dos chineses, presos como espiões no Rio de Janeiro?. Os dois estão sendo processados como incursos em crimes contra a segurança nacional”. Lembrou-se, então, de dois chineses levados à festa junina em sua casa por um amigo, dois anos antes, para conhecer uma festa tipicamente brasileira. Martins relatou que o chinês, acompanhado de um intérprete, foi-lhe apresentado como jornalista e que trocaram algumas impressões sobre o Brasil.

 O major ainda lhe fez mais duas ou três perguntas, mas, após ouvir Martins discorrendo sobre a inevitável hospitalidade mineira, interrompeu o interrogatório abruptamente e o dispensou com um gesto e uma careta. Ao chegar em casa, o velho comunista fechou a porta e, diante dos olhares apreensivos de Zelda e dos filhos, soltou uma gargalhada e disse: “A culpa é dos chineses”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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