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20/06/2019 | domtotal.com

Escrevendo e aprendendo

Cronista tem de ser também um sujeito bem informado, o que se consegue com olhos atentos pra ver e ouvidos abertos para escutar.

Aprendi também que a memória deve ser escarafunchada continuamente.
Aprendi também que a memória deve ser escarafunchada continuamente. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

De tanto tentar e outro tanto me esforçar, estou quase aprendendo a escrever crônicas.

Já sei que pra fazer a coisa bem feita é preciso ler muito, ler sempre, especialmente os textos de bons cronistas, porque é lendo que se aprende, como diz esse ditado que acabo de criar, se é que já não existe. Repito-o para uso de quem interessar possa, por considera-lo útil e agradável: É lendo que se aprende.

Cronista tem de ser também um sujeito bem informado, o que se consegue com olhos atentos pra ver e ouvidos abertos para escutar. Sim, porque de repente o bom assunto a se comentar numa crônica está ao nosso redor, pipocando nos noticiários das redes de informação.

Bom assunto é, por exemplo, a invasão da privacidade de homens públicos por interceptadores e invasores profissionais, especializados em tecnologia da desinformação e da maldade virtual. Entram sem pedir licença nos celulares e computadores alheios como se fossem residências da mãe joana. Jornalismo investigativo é outra coisa que não essa de revelar confidências à custa de tecnologia criminosa. Hackeristas sem noção é o que são.

A boa crônica também pode ser inspirada na declaração infeliz de algum presidente da República, como a de anunciar a transferência da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, na ilusão de que a chegada à terra de Herodes viesse a ser triunfal como a de Cristo no Domingo de Ramos.

Pode ser também um bom assunto a entrevista do presidente presidiário na qual diz que a história do Brasil pariu um presidente que não merecia sê-lo. Nesse caso, o ex-mandatário do mensalão e do petrolão esconde mais uma vez a paternidade, pois foi dele o espermatozoide que gerou o rebento. Até ginecologista amador sabe disso.

Uma crônica pode comentar também o descalabro da administração do Cruzeiro Esporte Clube, onde diretores ganham bichos por vitórias do time e remuneração de CEO de multinacional, enquanto funcionários e jogadores recebem com atraso os salários. Não há clube de futebol que suporte, fora ou dentro de campo, situação como esta. A Toca da Raposa precisa de uma Lava Jato urgente, sob pena de descer para o andar de baixo do futebol brasileiro.

Aprendi também que a memória deve ser escarafunchada continuamente, porque é sempre de bom alvitre, para usar expressão do passado, escrever sobre coisas interessantes que o passado nos traz. Além do bom alvitre, é supimpa falar dessas coisas, até porque elas quase sempre têm boa receptividade aos olhos do leitor e, especialmente, da leitora. (Digo, sem medo de errar, que mulheres são mais sensíveis a reminiscências).

Bom assunto para uma crônica é também a tal reforma da Previdência, que perambula impaciente pelas casas do Parlamento à espera de quem a entenda. Nas casas não legislativas como esta na qual habita este tenso e pretenso cronista, ninguém entende bulhufas, como é o meu caso. Daí que me sinto absolutamente incapaz para tratar do assunto. Vou estudar a reforma com a profundidade rasa que ela exige. Depois eu conto, como dizia aquele cronista do tempo das colunas sociais. O quê? Você não sabe quem é? Não se preocupe, isso não faz falta alguma.

Termino estas mal traçadas linhas com a certeza cruel de que não sei sobre qual assunto vou escrever hoje. Deixa pra lá. Amanhã vai ser outro dia.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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