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23/06/2019 | domtotal.com

O papel da mídia

Não se acanham em pinçar frases ou até palavras isoladas, criar fakes e factoides, pescar ações e palavras de anos passados.

Não sou contra a oposição, que é fundamental para uma democracia. Mas que ela seja responsável, honesta e construtiva.
Não sou contra a oposição, que é fundamental para uma democracia. Mas que ela seja responsável, honesta e construtiva. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Desde minha juventude, tenho um envolvimento razoável com a mídia, em suas diversas formas: impressa, radiofônica, televisiva, eletrônica. Já colaborei com diversas delas; participei, por um bom tempo, de programa com grande audiência, na rádio mais popular de Belo Horizonte, e por alguns anos, do programa semanal líder de espectadores, numa das emissoras de TV, da capital mineira. 

Estudante de medicina, fui editor do jornal de nosso Diretório Acadêmico, e alguns anos depois de formado, da revista de nossa associação de classe. Enfim, participei bastante e bem de perto desse instrumento que considero um dos mais, se não o mais importante para a sociedade, para toda a humanidade: a mídia. Não sem razão intitulada “o quarto poder”. 

Durante anos acompanho as mudanças em sua forma, em seu conteúdo, em seus objetivos. E como seu usuário, portanto, caminhando nos dois lados – o que publica e o que lê – creio que a mídia tem quatro vieses para escolher: informar, formar, conformar ou deformar. A opção será tomada dependendo da orientação ética e dos interesses dos seus proprietários e editores.

Faço esse preâmbulo para dizer da minha decepção com o atual comportamento desse instrumento – em suas diversas formas – como formador de opinião do grande público. Meu desencanto foi acontecendo com a mudança nas linhas editoriais de vários desses órgãos – e falo dos mais conceituados e mais presentes no meio do povo – que talvez motivado por fatores financeiros, passou a priorizar o filão dos crimes e escândalos, assuntos que foram ocupando suas páginas mais visíveis. A esses temas, e quase sempre ligados a eles, vieram as colunas de fofocas envolvendo artistas da música e TV, mostrando fotos cada vez mais ousadas, quem sabe inspiradas pelas revistas de nudismo, que numa determinada época deram grandes lucros aos seus proprietários. 

E isso não se ateve à mídia impressa. Aconteceu na televisiva, miscigenando notícias e novelas, essas deixando a linha de romances para entrar em temas bem mais pesados, evoluindo rapidamente para a apresentação de cenas capazes de fazer corar o mais liberal dos telespectadores. Hoje, violência, sangue, sexo, traições, são temas quase obrigatórios e abundantes, mesmo nas novelas apresentadas em horários tipicamente das famílias, no início da noite. Numa hipócrita justificativa de focalização da realidade, mesclam medíocres mensagens moralistas e “pseudodidáticas”, certamente para ludibriar o público, enfiando-lhes goela a baixo todas as porcarias que, para mentes doentias, são prato cheio. Tudo pelo dinheiro....

Outra faceta mercantilista de algumas mídias, (os jabás), diz respeito à promoção de empresas e profissionais, especialmente na área de saúde, disfarçadas de entrevistas que, sob o mote de ensinar, promovem os “entrevistados”, que falam de suas clínicas maravilhosas, de suas técnicas pessoais que só eles realizam, dos mil estrangeiros que vêm exclusivamente para tratar com eles. Tudo com uma estranha complacência dos seus órgãos de fiscalização ética, que nada fazem, ou se o fazem, são incapazes de interromper a enxurrada de informações, quase sempre falsas, seduzindo os incautos clientes que correm atrás dos cantos de sereias, até se danarem.

Mas, nos dias atuais, e em nossa pátria amada Brasil, o prato principal é a política. Num momento de grave crise nacional, fruto de desgovernos e corrupção nunca antes tão gulosos quanto foram, grande parte da mídia, até então acostumada às generosas tetas governamentais, resolveu assumir a condição de “cavaleiros da triste figura”, atuais e desengonçados Dons Quixotes que investem furiosamente contra os moinhos de vento, todos transformados, para ela, em dragões malvados, monstruosos e ameaçadores. Sem qualquer preocupação com as consequências de suas ações, sequer dão tempo para que o novo governo recoloque os escombros de tantas instituições nacionais em condições de voltar a funcionar, para só então criticarem. Ou, quem sabe, elogiarem... 

Parte da mídia, tanto quanto os carcomidos políticos de oposição, adeptos do esquema “quanto pior melhor”, só vêm essa via para reocupar os castelos que perderam, e as fortunas que já não deslizam facilmente para malas, cuecas e contas nos paraísos fiscais.  Para isso, não se acanham em pinçar frases ou até palavras isoladas, criar fakes e factoides, pescar ações e palavras de anos passados, como se o dito numa ocasião de antanho fosse modelo para o comportamento atual dos novos dirigentes, que têm novas vivências, novas realidades, novos desafios. Para eles, a síntese de tudo é: o bem da pátria, o crescimento do país, a felicidade do povo, que se danem. Só lhes interessa a volta ao status quo onde tudo ou quase tudo era permitido, desde que eles e seus comparsas se locupletem.

Não sou contra a oposição, que é fundamental para uma democracia. Mas que ela seja responsável, honesta e construtiva, jamais passional, sorrateira, tendenciosa, destrutiva. Afinal, melhor ajuda quem não atrapalha. E o Brasil precisa é de mentes e mãos com boa vontade.

Xenofonte (século 5º a.C.), discípulo de Platão, discorreu sobre a enkrateia, que deixou de ser o poder sobre algo ou alguém, para significar o poder sobre si mesmo, sobre as próprias paixões e instintos. Ou seja, fazer o que se sabe ser uma escolha positiva e não danosa aos outros, nunca agindo em função dos seus prazeres imediatos. Aplicada à ética jornalística, a enkrateia tornou-se um princípio básico nas redações que seguem o Código de Ética Jornalística Internacional de 1983. Nele afirma-se que “o dever supremo do Jornalista é servir a causa do direito a uma informação verídica e autêntica através duma dedicação honesta à realidade objetiva e duma exposição responsável dos fatos no seu devido contexto.”

O papel atual da mídia está carecendo, e muito, de séria autocrítica a esse respeito.

*Evaldo D'Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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