Religião

19/06/2019 | domtotal.com

'A religião desse povo é a terra deles', dizem sucessores de Irmã Dorothy Stang

Apesar dos assassinatos, as irmãs permanecem firmes em sua missão: 'O medo não se aplica a nós'.

Ir. Jane Dwyer e Ir. Katy Webster, ambas irmãs de Notre Dame de Namur, continuam o ministério de Ir. Dorothy Stang, da mesma congregação, que foi assassinada em 2005 em retribuição por seu trabalho com fazendeiros sem terra.
Ir. Jane Dwyer e Ir. Katy Webster, ambas irmãs de Notre Dame de Namur, continuam o ministério de Ir. Dorothy Stang, da mesma congregação, que foi assassinada em 2005 em retribuição por seu trabalho com fazendeiros sem terra. (Carlos Tautz)

Por Carlos Tautz*
Global Sisters Report

Em uma simples casa de madeira em uma rua de terra na violenta cidade de Anapu, perto do coração da Amazônia brasileira, moram duas freiras que compartilham a solidariedade com vizinhos e enfurecem grandes proprietários de terras da região.

Jane Dwyer, 78 anos, e Kathryn "Katy" Webster, 66 anos, ambas irmãs de Notre Dame de Namur, ajudam silenciosamente os trabalhadores agrícolas pobres em suas lutas pela terra e melhores condições de vida. As irmãs continuam o legado de Irmã Dorothy Stang, da mesma congregação, que foi assassinada há 14 anos na zona rural de Anapu.

Em conversas entre pequenos círculos de pessoas, os poderosos fazendeiros da região culpam as irmãs e ainda acusam Dorothy Stang de ser responsável pela invasão de grandes propriedades por trabalhadores agrícolas. “Os grandes latifundiários acham que somos bandidos perigosos pelo que fazemos”, brincou a irmã Dwyer. A única atividade em que ela e irmã Webster se engajam, diz, é trabalhar com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), um braço da Igreja Católica que apoia trabalhadores agrícolas sem-terra. Stang também fez isso até ser assassinada aos 73 anos.

“As pessoas não precisam que decidamos o que fazer – elas fazem isso sozinhas”, disse Dwyer. “As pessoas só precisam de uma presença amigável”, acrescentou, explicando que os missionários nunca tomam decisões como instigar ocupações de terra. Os proprietários de terras gostam de nos culpar, mas foram as próprias pessoas do lugar que criaram o processo de ir ao governo e dizer “há um enorme pedaço de terra que parece bom e não tem dono”, disse Dwyer. “Quando as pessoas ocupam a terra, ai nós entramos na história. Mas nunca os encorajamos”

As irmãs continuam seu ministério contra um cenário social, econômico e político complexo na região e no país. As tensões sobre disputas de terras estão aumentando, evidenciadas por uma onda de assassinatos de trabalhadores agrícolas envolvidos em reivindicações de propriedade. Milhares de trabalhadores atraídos para a área pela rápida construção de grandes projetos de infraestrutura pelo governo brasileiro, como a mega-hidroelétrica próxima de Bela Monte, contribuem para as lutas pela terra. Com o declínio do crescimento da construção, muitos trabalhadores desempregados atualmente se esforçam para superar os já fracos serviços de moradia e saneamento em Anapu.

A região também está recebendo atenção do Vaticano, com o papa Francisco iniciando um sínodo especial da Amazônia em Roma entre 6 e 27 de outubro, enfocando o uso da terra, a biodiversidade e os direitos dos povos indígenas.

A eleição do presidente pró-desenvolvimentista Jair Bolsanaro pressagia mais conflitos. No nível local, os proprietários estão recorrendo à polícia, autoridades e tribunais para combater.

É o caso do padre Jose Amaro, que também trabalhou com Stang. Ele recentemente se defendeu no tribunal contra acusações relacionadas à ocupação da terra. Depois de ser ameaçado de morte por várias vezes e preso por três meses, Amaro foi libertado, mas forçado a se mudar para Altamira, a cerca de 80 quilômetros de Anapu, conforme o caso atravessa o laborioso sistema legal brasileiro. Suas atividades são restritas. Ele pode celebrar a missa, mas não pode deixar sua residência entre as 20h e as 6 da manhã, deve ir ao tribunal e assinar um “termo de presença” a cada três meses e não pode participar de quaisquer reuniões ou manifestações envolvendo lutas de terra ou outras atividades públicas.

A violência na região aumentou, com cerca de 16 ou 17 trabalhadores rurais sem-terra, assassinados em Anapu desde 2015, em casos relacionados a disputas de terras, segundo a Comissão Pastoral da Terra. Apesar dos assassinatos, as irmãs permanecem firmes em sua missão. “O medo não se aplica a nós”, disse Webster. “Todo mundo está vivendo a mesma realidade e nós não andamos por aí pensando nisso”, disse . “Estamos simplesmente vivendo com as pessoas”.

Este é o caso também de Amaro, que “está sendo acusado pelos mesmos grupos que assassinaram Dorothy e que temem pela nossa presença aqui”, disse Dwyer.

“O fato de Dorothy ter chegado a esta região ajudou o povo a ficar”, disse Webster. “Estamos aqui hoje por causa disso.” Havia cerca de 20 famílias morando na área onde Stang foi assassinado em 2005, mas agora quase 300 famílias praticam agricultura de subsistência lá.

“Nós permanecemos aqui porque não temos medo de gritar”, disse Dwyer, fazendo referência ao fato de que qualquer violência contra as irmãs traria imediatamente repercussão internacional. “Se partirmos, no entanto, será um massacre por dia e não haverá ninguém para gritar”, disse ela. “Somos todos vítimas e ameaçados, mas as maiores vítimas são os pobres”, disse Dwyer. “Tirá-los desta terra é a morte”.

Dwyer obteve a cidadania brasileira em 2005, assim como Stang cerca de um ano antes de ser morta. O brutal assassinato de Stang provocou indignação generalizada na região de Anapu, no Brasil, nos EUA e internacionalmente. Sua vida e legado foram imortalizados em livros, documentários e uma ópera. Um centro de estudos especiais – o centro de justiça social e engajamento comunitário Irmã Dorothy Stang – foi fundado na Universidade Notre Dame de Namur em Belmont, Califórnia, em 2008.

Mas é na região de Anapu, em meio a cerca de 4.000 famílias de sem-terra e trabalhadores agrícolas (um grupo de mais de 15.000 pessoas) que seu legado é mais intensamente sentido – um que Dwyer, Webster, Amaro e outros que trabalharam com ela estão determinados a continuar.

Dwyer chegou ao Brasil em janeiro de 1972 durante a ditadura militar e testemunhou a brutalidade sofrida por pessoas que vivem em extrema pobreza. Ela foi primeiro para o estado do Maranhão, depois para a cidade de Crateús, no estado do Ceará, no nordeste do Brasil, uma área perseguida pelo exército, disse ela. As pessoas eram frequentemente presas e torturadas. Muitos dos meus amigos desapareceram. Era difícil dizer em quem confiar.

Era uma região de seca severa, ainda lembra das duras condições que as pessoas enfrentaram, andando quilômetros em busca de água. “Isso não era vida e nem trabalho para ninguém”, disse. “Isso foi tortura e escravidão.”

No entanto, comunidades de católicos e evangélicos usaram o estudo da Bíblia para reforçar a coragem da população local. As pessoas tinham a “capacidade de ir às ruas e lutar pela liberdade de se organizar e se reunir à noite”, disse Dwyer. Ela lembra que tinham “a coragem de enfrentar as armas para fazer nascer a democracia e a felicidade quando tudo realmente começou a acontecer”.

Depois de duas décadas de regime militar, o Brasil iniciou uma difícil transição para a democracia nos anos 80, com eleições locais e nacionais. As pessoas que se organizaram e trabalharam para promover a democracia no Brasil lhe deram esperança, disse Dwyer. “Vivemos a insurreição de um Brasil que estava escondido”, disse. “Eu me apaixonei pelo povo e por aquele Brasil que estava nascendo e que tinha uma maneira diferente de viver no campo”.

Em 1997, Webster mudou-se para o estado do Pará para se juntar a Stang, primeiro em Altamira, depois em Anapu. Ela também viveu e trabalhou por quatro anos com a CPT em outra violenta cidade do estado do Pará, chamada Itaituba (a 625 km de Anapu) e foi definitivamente para Anapu em 2006. “Minha motivação para vir a Anapu era compartilhar a missão de Dorothy com as pessoas nesta região”, disse Webster. “Fiquei porque fui cativada pelas pessoas em sua luta e pela natureza que conheci aqui”.

A implementação de um sistema de reforma agrária conhecido como Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) começou no início dos anos 2000. A ideia era aliar a reforma agrária, um dos maiores problemas sociais do país, à manutenção da floresta amazônica. Sob esse sistema, ex-trabalhadores sem-terra ocupavam trechos de terras não cultivadas e então solicitavam ao governo nacional que combinasse a gestão de produtos florestais e alimentares, como a madeira e o açaí, em 80% da área onde a floresta permanece. Os outros 20% seriam para o uso individual de cada família.

Cerca de 300 famílias vivem e cultivam no PDS Hope original, uma área total de cerca de 37.000 acres, onde Stang foi morta. Há dois anos, o governo nacional suspendeu o processo de distribuição de terras por motivos que não são claros.

No entanto, o processo de assentamento e redistribuição de terras continua. Essencialmente, os assentados identificam áreas declaradas disponíveis para serem distribuídas sob o processo de reforma agrária em outras áreas fora do PDS e as ocupam em uma estratégia ideal para forçar o estado a avançar com o processo formal de distribuição de títulos de propriedade e começar a fornecer serviços como saneamento, transporte, escolas e saúde.

Essa designação de terras públicas para trabalhadores sem-terra deixa os grandes proprietários de terras irritados porque não querem que essas áreas sejam distribuídas como parte da reforma agrária. De acordo com Dwyer, os grandes proprietários de terras também estão envolvidos com o roubo de grandes parcelas de terra, tanto do estado quanto dos trabalhadores agrícolas, em um processo conhecido no Brasil como “grilagem”. Eles ocupam a terra com milícias armadas privadas, subornam funcionários públicos e criam títulos de propriedade fraudulentos.

“Associado à grilagem há todo um pacote de crimes que envolve a remoção ilegal de madeiras nobres da floresta, roubo de carros, lavagem de dinheiro e outros crimes comuns na Amazônia. É todo esse pacote que explica o assassinato de Dorothy”, disse ela.

“Por que ficamos? Porque sabemos que há uma alternativa”, disse Dwyer. “O povo entrou decisivamente na luta e acredita que essas terras lhes pertencem porque têm o direito. Eles vivem da exploração da terra, mas não destroem a floresta e, se destroem, replantam e não privatizam as águas”.

As ocupações dos trabalhadores agrícolas são decididas em reuniões independentes, sem a indicação das irmãs. As irmãs só apoiam as ocupações depois de instaladas, com expressões públicas de solidariedade por meio de conexões com a imprensa e a Igreja.

Sua determinação em permanecer não muda, mesmo quando as irmãs falam do ex-capitão do Exército de extrema-direita, Bolsonaro, que assumiu a presidência do Brasil em 1º de janeiro.

Bolsonaro, apelidado de “o Trump dos Trópicos” em alguns meios de comunicação, porque sua dura retórica e política estão em sintonia com o presidente dos EUA, Donald Trump, sinaliza tempos difíceis, mas não o suficiente para fazê-las desistir de seu trabalho missionário. Em uma visita aos EUA em março, Bolsonaro disse que contou a Trump sua disposição de “abrir (para Trump) a exploração da região amazônica”, de acordo com uma entrevista na estação de rádio Joven Pan em abril. Bolsonaro também reclamou que a terra destinada a reservas para indígenas dificulta o desenvolvimento.

Bolsonaro prometeu “abrir” terras indígenas na região amazônica a projetos econômicos internacionais de todos os tipos – uma possibilidade que ameaça os ambientalistas. Atualmente, o Congresso do Brasil tem que dar permissões específicas para o desenvolvimento de cada projeto.

Dadas as posições de Bolsonaro, “a situação é horripilante e assustadora – mas é assim”, disse Webster. “Esta é a nossa situação de vida aqui”.

As disputas de terra são agora mais complicadas pelas pressões trazidas pela rápida construção de enormes projetos de infraestrutura, deslocando milhares de pessoas e atraindo outros como trabalhadores para projetos específicos. Entre 2003 e 2016, a rápida construção de enormes rodovias, megabarragens, instalações de mineração e outros projetos em todo o Brasil afetou pesadamente povos indígenas, trabalhadores rurais e famílias que vivem em isolamento ao longo dos rios. Uma das maiores foi a hidrelétrica de Belo Monte, localizada a meio caminho entre Altamira e Anapu.

Enquanto o impacto foi maior na cidade maior de Altamira, vários trabalhadores começaram a exigir terras distribuídas por projetos de reforma agrária perto de Anapu. Uma delas, chamada Mata Preta, uma das áreas de reforma agrária mais recentemente legalizadas, recebeu dezenas de ex-trabalhadores de Belo Monte.

Estima-se que 3.000 ex-trabalhadores se mudaram para Anapu nos últimos anos, colocando ainda mais pressão sobre os serviços públicos – especialmente saúde e segurança. O IBGE, agência oficial de estatísticas do Brasil, estima que entre 2010 e 2018, durante a construção de Belo Monte, a população de Anapu aumentou 30%, somando um total de 27.000 pessoas, em comparação com 12% no estado do Pará e 6,5% no Brasil. Hoje, apenas 6,1% da população da cidade está empregada no mercado de trabalho formal

Webster observa que Anapu não é reconhecida pelas autoridades ou pela empresa responsável pela construção de Belo Monte como uma área impactada pela construção de uma usina hidroelétrica. “Mas, na verdade, estamos muito impactados”, disse ela. “Perto do rio Xingu estão muitos trabalhadores acampados, que ainda estão trabalhando na construção do sistema de transmissão de energia. Eles não terão mais trabalho e nenhum lugar para morar depois que a construção terminar”, acrescentou.

O site Global Sisters Report tentou várias vezes entrar em contato com o prefeito de Anapu, Aelton Fonseca, mas ele não respondeu aos pedidos de entrevista.

Mesmo enfrentando uma atmosfera cada vez mais violenta, Dwyer, Webster e Amaro continuam o trabalho de Stang, optando por ficar com os trabalhadores agrícolas sem-terra. Eles vivem e trabalham em uma das regiões mais violentas do mundo, onde o Estado brasileiro é escassamente presente e assassinatos e até mesmo massacres coletivos são frequentes.

Um exemplo marcante ocorreu em 13 de março, quando um trabalhador rural conhecido como Magalhães, um agricultor de quase 90 anos, foi baleado cinco vezes na cabeça. Até hoje, ninguém foi acusado. Magalhães estivera envolvido em disputas por terras e não houve nada roubado de sua casa, notaram os trabalhadores locais que moravam perto dele e pediram para não serem citados pelo nome.

Infelizmente, isso não é incomum em Anapu. Com 31 pessoas assassinadas na cidade e na zona rural em 2016, no último ano pesquisado, a área tem uma taxa de homicídios que é o dobro do estado do Pará, e três vezes a do Brasil, segundo o Mapa da Violência no Brasil, editado por agências oficiais.

Tão grande é a onda de violência que a Peregrinação Anual da Floresta, uma marcha de 25 quilômetros nas áreas rurais de Anapu por líderes religiosos e agricultores sem-terra, geralmente realizada todo mês de junho desde a morte de Stang, ocorreu ano passado no centro da cidade. porque os trabalhadores temiam mais mortes se se aventurassem na periferia. Eles gritavam “Stang vive!” e acrescentavam "O padre Amaro vive", em apoio ao padre que na época estava temporariamente encarcerado. Este ano, a Peregrinação da Floresta será realizada em julho.

Um exemplo do legado de Stang é o Comitê de Defesa de Anapu (CDA), que os trabalhadores agrícolas locais criaram após sua morte e se reúne regularmente. O grupo exige do governo local uma melhoria nas condições de vida, como moradia, saneamento e escolas. “Quase todos os meses desde sua morte, reunimos dezenas de pessoas na CDA”, observa Francisco Pereira de Melo, agricultor e professor de uma escola comunitária nos assentamentos de Anapu, que também trabalhou com Stang. “Nós nunca perdemos a organização”, disse ele..

As reuniões da CDA são provavelmente o principal legado da luta de Stang, dizem as duas irmãs religiosas. Mas há outros. Também no povoado de São Rafael, as pessoas de todas as religiões se reúnem, incluindo católicos e neopentecostais, cujos líderes no Congresso brasileiro geralmente se aliam a deputados e senadores que representam grandes proprietários de terra.

Os moradores se reúnem independentemente da fé, disseram as irmãs. “No dia a dia, não há separação entre católicos e evangélicos”, disse Dwyer. “Quando você quer orar, você vai onde você se sente mais em casa. Mas na prática, a religião deste povo é a terra, porque quem tem um pedaço de terra não passa mais fome. Eles podem não ter educação nem saúde. Mas eles não morrem mais de fome”.

“A chegada da irmã Dorothy ajudou as pessoas a permanecerem em suas terras, e tudo o que ainda temos aqui se deve ao fato de que há pessoas morando aqui onde muito poucas pessoas viviam antes”, disse Dwyer. “Ela ajudou as pessoas a iniciar uma longa jornada”.


Publicado originalmente por Global Sisters Report.


Tradução: Ramón Lara

*Carlos Tautz é jornalista radicado no Rio de Janeiro. Ele escreve principalmente sobre direitos humanos, questões internacionais e economia

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