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19/06/2019 | domtotal.com

Novo vazamento revela que Lava Jato poupou FHC e reforça argumento de parcialidade de Moro

'The Intercept Brasil' divulga favorecimento de FHC, reitera a condução tendenciosa de Sergio Moro e Deltan Dellagnol no processo e denuncia tática de desacreditar a reportagem.

Ex-juiz discordou de investigações sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na Lava Jato.
Ex-juiz discordou de investigações sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na Lava Jato. (Alessandro Carvalho/Agência de notícias/PSDB)

Por Pablo Pires Fernandes
Repórter Dom Total

“Tem alguma muito séria do FHC?”, escreve o então juiz Sergio Moro em mensagem via Telegram a Deltan Dellagnol em 13 de abril de 2017. O diálogo é um dos vários publicados pelo The Intercept Brasil a partir de um vazamento obtido por meio de um hacker. A nova revelação do site jornalístico reitera o argumento de que, em conversas privadas, o atual ministro da Justiça e Segurança Pública e o procurador da Operação Lava Jato mantiveram diálogos que extrapolaram a ética, os procedimentos jurídicos e a lei, devido a orientações e condução seletiva na força-tarefa de combate à corrupção no país.

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A novidade revelada pelo Intercept na noite desta terça-feira (18) são evidências, segundo os diálogos de Moro e Dellagnol, de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) teria sido mantido fora das investigações da Lava Jato por se tratar de um aliado político. A reportagem sugere que FHC teria sido poupado de menções públicas e investigações, apesar de ser citado nove vezes na delação de Emílio Odebrecht, que menciona doações a nove ex-presidentes do Brasil.

Mais do que a revelação em si, a reportagem do The Intercept evidencia que Moro e Dellagnol foram parciais e mancomunados ao conduzir a operação, além de manter diálogos que extrapolam a normalidade constitucional das práticas – supostamente isentas – entre o Ministério Público e a, suposta, isenção judicial por parte da Corte de Curitiba.

O site jornalístico The Intercept Brasil teve acesso a um amplo material por meio de um hacker – dito anônimo – de conversas entre Moro, Dellagnol e outros procuradores envolvidos na Lava Jato. Após divulgar parte deste material no domingo (9/6), os editores foram alvo de ameaças e garantem a veracidade do material, além de afirmar que o conjunto do vazamento é bem maior.

A revelação causou um terremoto político, que repercutiu nos três poderes e seu efeito ainda é incerto. “Um trecho do chat privado entre Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol revela que o ex-juiz discordou de investigações sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na Lava Jato porque, nas palavras dele, não queria ‘melindrar alguém cujo apoio é importante’”, diz a publicação do Intercept.

A reportagem e outras matérias publicadas no site sustentam a veracidade do material. A reação do próprio ministro da Justiça, Sergio Moro, em uma série de entrevistas, foi ambígua e, num primeiro momento, não refutou a veracidade das informações. Depois, passou a direcionar as críticas à forma ilegal da obtenção das informações, o que foi reiterado por parte da mídia, especialmente a Rede Globo.

O site Buzzfeed comprovou que as revelações e determinações realizadas nos diálogos entre Moro e Dellagnol coincidem com as datas das ações da Lava Jato. O site conservador O Antagonista defende que as conversas entre os magistrados são “hipotéticas”, sob o argumento de que foram feitas num largo período de tempo – novembro de 2015 a abril de 2017. E que, portanto, estão sujeitas à edição tendenciosa e que sugerem a isenção de Moro. Sites de tendência anti-Moro, anti-Bolsonaro e pró-Lula, no entanto, celebraram a denúncia e tendem a questionar a validade de vários processos da Lava Jato.

Veículos tradicionais de imprensa – O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Veja – têm considerado, em seus editoriais, o material como verídico e manifestaram urgência nas investigações e o afastamento dos citados na reportagem. Por parte do governo, é clara a mudança de estratégia, ao concentrar as críticas no modo de obtenção das provas, focando o tema no fato de as conversas privadas terem sido interceptadas e tornadas públicas. Fatos de ordem paralela – questões pessoais dos jornalistas autores das denúncias – emergiram de maneira contundente (inclusive ameaças à vida de indivíduos relacionados ao fato), deixando de lado o conteúdo das conversas e questionando a liberdade de imprensa garantida pela Constituição. Fatos são fatos e devem ser tratados como tal. No caso, são um sério atentado às práticas democráticas e merecem ser tratados por seu conteúdo, sem tergiversações ou cortinas de fumaça.

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