Religião

21/06/2019 | domtotal.com

Ouvindo as vozes LGBT: uma resposta ao documento sobre teoria de gênero do Vaticano

Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a Congregação provavelmente encontraria espaço para a compreensão agora comumente aceita de que a sexualidade não é escolhida.

Se a Igreja não ouvir as vozes e experiência dos milhões de LGBTs e se basear apenas em teorias, não no confronto com a realidade, incorrerá ela em um discurso meramente ideológico.
Se a Igreja não ouvir as vozes e experiência dos milhões de LGBTs e se basear apenas em teorias, não no confronto com a realidade, incorrerá ela em um discurso meramente ideológico. (Paulo Whitaker/ Reuters)

Por James Martin, SJ
America Magazine

Nos últimos anos, o Vaticano (incluindo papas, congregações e dicastérios) expressou preocupação com a “teoria de gênero” e a “ideologia de gênero”. O mais recente documento da Congregação para a Educação Católica, intitulado "Homem e mulher os criou", é o documento mais abrangente sobre o tema até agora. Como o correspondente da América Magazine no Vaticano, Gerard O'Connell, relata, o documento vem de uma congregação do Vaticano e não foi assinado pelo papa Francisco, por isso não pretende ser a “resposta final” sobre o tema.

A teoria de gênero é um termo notoriamente escorregadio. Em linhas gerais, refere-se ao estudo de gênero e da sexualidade e como essas duas realidades são determinadas naturalmente (isto é, biologicamente) e/ou socialmente (ou seja, culturalmente). Em termos gerais, inclui o estudo das experiências de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e todos aqueles que se identificam como queer, outro termo frequentemente ambíguo que pode significar (mas nem sempre) uma decisão de se identificar fora de categorias como masculino ou feminino, gay ou heterossexual.

Para alguns críticos, a teoria de gênero também representa uma “ideologia” que procura se impor aos outros, “encorajando” ou “forçando” algumas pessoas, especialmente jovens, a questionar e reafirmar sua própria sexualidade e gênero. Em alguns círculos eclesiais, especialmente no mundo em desenvolvimento, está frequentemente ligado a uma forma de “colonialismo ideológico” que procura impor as ideias ocidentais de sexualidade e gênero às nações em desenvolvimento. O papa Francisco tem advertido várias vezes sobre esta crença.

O novo documento da congregação deve ser elogiado por seu chamado a “ouvir” e “dialogar”. O subtítulo é importante: “Para uma via de diálogo sobre a questão de gênero na educação”. É uma chamada explícita ao diálogo, que todos deveríamos acolher. Fala de um “caminho”, que indica que a Igreja ainda não chegou ao destino. Enfoca a “questão” da teoria de gênero na educação, o que deixa algum grau de abertura, e, portanto, é dirigida principalmente aos educadores e “formadores”, incluindo os responsáveis pela formação de padres e membros de ordens religiosas.

Outro aspecto positivo deste documento é seu claro apelo para “respeitar cada pessoa em sua particularidade e diferença” e sua oposição ao “bullying, violência, insultos ou discriminação injusta”. Também elogia “a capacidade de acolher todas as expressões legítimas da personalidade humana com respeito”.

A conclusão do documento fala do caminho do diálogo, que inclui “ouvir, refletir e propor”. Como tal, deixa espaço aberto para desenvolvimentos posteriores e também evita algumas das duras expressões de outros pronunciamentos do Vaticano sobre sexualidade e, especialmente, sobre homossexualidade.

Deixe-me, então, engajar-me no respeitoso diálogo requerido, como alguém que ministra e cuida das pessoas LGBT.

O que a congregação propõe? Essencialmente, e sem surpresa, o documento reafirma a visão tradicional católica da sexualidade: homens e mulheres são criados (como heterossexuais) com papéis sexuais e de gênero fixos. Essa visão tradicional, no entanto, é contradita pelo que a maioria dos biólogos e psicólogos agora entende sobre sexualidade e gênero. Esses avanços contemporâneos na compreensão da sexualidade humana e do gênero foram deixados de lado pela congregação em favor de uma compreensão binária da sexualidade. Até mesmo o termo “orientação sexual” é colocado entre aspas no documento, como se colocasse essa noção em questão.

O cerne do argumento da congregação está nesta compreensão de gênero: “Essa separação (sexo e gênero) está na raiz das distinções propostas por diferentes ‘orientações sexuais’ que não são mais definidas pela diferença sexual entre homem e mulher, e pode então assumir outras formas determinadas exclusivamente pelo indivíduo, que é visto como radicalmente autônomo”.

Uma objeção a essa proposição é que ela ignora a experiência da vida real de pessoas LGBT. De fato, o documento parece estabelecer primariamente uma conversa com o pensamento de filósofos, teólogos e até documentos da Igreja antigos e declarações papais – não biólogos ou cientistas, nem psiquiatras ou psicólogos, e nem pessoas LGBT e suas famílias. Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a congregação provavelmente encontraria espaço para o entendimento comumente aceito de que a sexualidade não é escolhida por uma pessoa, mas sim parte do modo como elas são criadas.

De fato, para um documento que depende tão fortemente (embora implicitamente) da lei natural, ignora o que cada vez mais entendemos sobre o mundo natural, onde vemos homens e mulheres atraídos pelo mesmo sexo, homens e mulheres experimentando uma variedade de sentimentos sexuais ao longo de suas vidas, e homens e mulheres que se encontram mais em um espectro do que em qualquer lugar fixo quando se trata de sexualidade e, ocasionalmente, até mesmo de gênero.

A congregação também sugere que as discussões sobre identidade de gênero envolvem uma escolha intencional de gênero por um indivíduo. Mas as pessoas que são transexuais relatam que não escolhem sua identidade, mas descobrem isso através de suas experiências como seres humanos em um mundo social.

Novamente, o documento negligencia amplamente as discussões sobre novos entendimentos científicos e descobertas sobre gênero. Ela se baseia principalmente na crença de que o gênero é determinado apenas pela genitália visível, o que a ciência contemporânea mostrou ser uma maneira incorreta (e às vezes até prejudicial) de categorizar as pessoas. O gênero também é biologicamente determinado pela genética, hormônios e química cerebral – coisas que não são visíveis no nascimento. O documento da congregação baseia-se fortemente em categorias de “masculino” e “feminino” que foram moldadas há séculos, e nem sempre com os métodos científicos mais precisos.

O documento também é apoiado pela noção de “complementaridade”, o que significa que, com base em seu gênero (masculino e feminino), homens e mulheres têm papéis separados. Em uma frase, que certamente fará subir as sobrancelhas de muitos, a congregação escreve: “As mulheres têm uma compreensão única da realidade. Elas possuem a capacidade de suportar adversidades…” Homens não ? Tais ideias reforçam os estereótipos e impedem que homens e mulheres se elevem acima dos construtos culturais que o Vaticano frequentemente com razão denuncia.

O aspecto mais lamentável deste documento é a maneira como a congregação entende as pessoas transgênero (Estranhamente, em um documento sobre gênero e sexualidade, as palavras “homossexual” ou “homossexualidade” estão ausentes). Considere esta passagem: “Esta oscilação entre masculino e feminino torna-se, no final, uma exposição somente ‘provocatória’ contra os chamados ‘esquemas tradicionais’ que não têm em conta o sofrimento daqueles que vivem numa condição indeterminada. Tal concepção procura aniquilar a natureza (tudo o que recebemos como fundamento prévio do nosso ser e todas as nossas ações no mundo), enquanto ali é implicitamente reafirmado".

Nessa formulação, as pessoas transexuais estão sendo “provocativas” e estão conscientemente ou inconscientemente tentando aniquilar o conceito de “natureza”. Amigos e familiares que acompanharam uma pessoa transexual através de suas tentativas de suicídio, seu desespero em relação à adaptação a sociedade maior, ou sua aceitação de que Deus a ama desse jeito, achará essa sentença desconcertante e até mesmo ofensiva.

Talvez a resposta mais ponderada a essa abordagem venha de um diácono católico, Ray Dever, que tem um filho transexual e escreveu sobre a experiência de sua família na Igreja Católica dos EUA. Como ele escreve: “Qualquer pessoa com experiência significativa em primeira mão com indivíduos transgêneros ficaria confusa com a sugestão de que as pessoas trans são, de alguma forma, o resultado de uma ideologia. É um fato histórico, que muito antes de haver programas de estudos de gênero em qualquer universidade ou o termo ideologia de gênero fosse cunhado, pessoas transgêneras estavam presentes, reconhecidas e até mesmo valorizadas em algumas culturas ao redor do mundo”.

O resultado mais provável a curto prazo do documento "Homem e mulher os criou" será o fornecimento de munição para os católicos que negam a realidade da experiência transgênero, que rotulam as pessoas transgênero como simples ideólogos e que negam sua vida real e suas experiências. Muito provavelmente contribuirá para um maior sentimento de isolamento, uma maior sensação de vergonha e marginalização daqueles que já estão marginalizados em sua própria Igreja: as pessoas transgêneras.

Voltemos ao aspecto mais positivo deste documento, que poderia ser o resultado a longo prazo: o apelo à escuta e ao diálogo. A congregação parece sincera em seu convite. A Igreja, como o resto da sociedade, ainda está aprendendo sobre as complexidades da sexualidade humana e do gênero. O próximo passo, então, poderia ser que a Igreja ouça respostas daquelas pessoas que este documento afeta mais diretamente: as próprias pessoas LGBT.

Deixemos o diálogo começar.

Pesquisa: O que você acha sobre a Igreja Católica e questões transgênero? Temos uma curta pesquisa de leitores que gostaríamos de compartilhar.

Publicada originalmente em América Magazine.


Tradução: Ramón Lara

*James Martin, SJ é um padre jesuíta, autor e editor geral da América Magazine.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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