Religião

21/06/2019 | domtotal.com

Eucaristia e ética: quando a comunhão não se torna condenação

A participação da Eucaristia implica em uma ética fundada na vida de Cristo, já que é ele próprio quem comungamos.

Fazer refeição de sua vida, para configurar-se a ele, eis o propósito da comunhão!
Fazer refeição de sua vida, para configurar-se a ele, eis o propósito da comunhão! (Reprodução/ Pixabay)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Há uma fala interessante, atribuída a Jesus, no Evangelho, na ocasião da ceia derradeira e de despedida dos discípulos. Ao dizer sobre a traição, e diante do espanto dos discípulos, Jesus revela que o traidor seria aquele colocaria a mão junto à sua, no mesmo prato. Para um judeu, tal como Jesus, a mesa era o lugar da intimidade e da comunhão. Não só o alimento era partilhado, mas a própria vida. A sutileza do texto, ao citar as mãos que se encontram no mesmo prato, indica que a traição se daria, portanto, por parte de um daqueles com quem nutria estreita intimidade.

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Tendemos a nutrir certo asco pela figura de Judas Iscariotes. Afinal, que mérito há naqueles que traem a confiança de quem busca viver com intimidade e comunhão? O nosso olhar, contudo, não deve ficar preso à personagem Judas. Atermo-nos sobre essa personagem seria nos escusar de nos colocar diante do texto e de nos deixar interpelar por ele. Há algo que emerge do texto que diz de nós mesmos, e que muito provavelmente não nos dá gosto de admitir: todos nós podemos – e, muitas vezes, comportamo-nos assim – assumir uma postura de traidores da vida e da missão de Jesus.

A cena desta última ceia, narrada pelo Evangelho, é dramática porque nos reporta a uma grande negação. Trair a Jesus significa trair a tudo o que ele representa e tudo o que propõe. Estar com a mão em encontro à mão de alguém, num mesmo prato, nesse contexto simbólico-narrativo, implica uma ética. E é o esquecimento dessa ética uma traição, porque nos perdemos do sentido existencial que deve perpassar todas as relações. Quando se trata da Eucaristia, essa ética se mostra de maneira ainda mais simbolicamente radical: o que se manduca, no banquete eucarístico, é a própria vida do Senhor, em seu corpo e em seu sangue. Fazer refeição de sua vida, para configurar-se a ele, eis o propósito da comunhão!

Uma vez que o comprometimento existencial não se dá, a comunhão se torna motivo de condenação. É o que exorta Paulo, na mais antiga reflexão neotestamentária a respeito da refeição eucarística, na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 11. A ética correspondente à comunhão no corpo e sangue do Senhor é a horizontalidade de nossas relações fraternas. Nossa relação interior com o Senhor precisa, necessariamente, passar pelo testemunho de fraternidade e amor para com os irmãos e irmãs. Só assim não colocaremos nossa mão junto à do Cristo e recorreremos em traição. A ética nascida da Eucaristia é o nosso comprometimento com o Reino de justiça e de paz, do qual devemos ser agentes fiéis.

 A comunhão com o Senhor nos traz Vida. E o testemunho disso se dá em nosso processo de nos configurarmos à sua vida inteiramente disponível e a serviço do Reino. É parar ser manducado que o Filho de Deus se fez pão. Essa manducação é a radicalização de nossa comunhão: é mais que colocar nossa mão junto à sua mão, no mesmo prato. É nutrimo-nos de sua vida inteira. E isso precisa se traduzir numa ética. É dessa forma que não comungamos a nossa própria condenação.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a editoria de religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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