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24/06/2019 | domtotal.com

A Europa à procura de uma identidade

Os movimentos nacionalistas não são nada parecidos, o que torna mais difícil vê-los, embora façam um efeito visível nas discussões do Parlamento Europeu.

Imigrantes se reúnem durante protesto contra o governo em praça da cidade italiana de Caserta.
Imigrantes se reúnem durante protesto contra o governo em praça da cidade italiana de Caserta. (Manuel Dorati/Controluce/AFP)

Por José Couto Nogueira*

Nos últimos anos, a homogeneidade do ideal europeu infligiu-se arranhadelas que têm assustado cidadãos de diversos países, por razões diferentes, mas sempre relacionadas com os objetivos a que a União Europeia (UE) se propôs e não conseguiu realizar. Há uma enorme qualidade de vida na Europa, mas é só para os europeus. Todos os vindos de fora são recebidos com hostilidade, desconfiança ou, no melhor dos casos, com tolerância incomodada.

A imigração em massa – os chamados refugiados – veio alterar completamente não só a vida diária de muitas cidades europeias, como exercer uma pressão na opinião pública que fez ressurgir o nacionalismo. Embora a divisão entre globalistas e nacionalistas não tenha começado na Europa e, hoje em dia, seja a questão em quase todo o mundo, a verdade é que não se esperava os vários nacionalismos que se afirmaram nesta década ganhassem tanto peso. Poder-se-á num futuro apontar várias causas certas para a decadência da Europa, mas a imigração é com certeza a principal.

Os movimentos nacionalistas não são nada parecidos, o que torna mais difícil vê-los, embora façam um efeito visível nas discussões do Parlamento Europeu. Há os fascistas mais tradicionais, ideológicos, digamos, como Viktor Orban na Hungria, que acredita que tem razão. É muito diferente de Marine le Pen, na França, que acredita que tem possibilidades. Um defende o Estado forte, anti-democrático e anti-europeu, a outra quer um poder patronal da França sobre a Europa e dela sobre a França, fazendo concessões aparentes. É mais moderna na sua forma de autoridade.

Depois há os fascistas mais difíceis de catalogar porque jogam com uma pretensa cordialidade, mas gritam alto. O caso típico é Mateo Salvini. A questão dos imigrantes, que na Itália é um problema real, na medida em que são muitos e as várias autoridades não como lidar com eles. Mas é uma questão italiana que os outros países podem simultaneamente mostrar preocupação e não fazer nada. Mas Salvini decidiu que não vai obedecer às normas econômicas da UE. A Itália tem um défice brutal, já acima do que os europeus gostam e agora ele diz que o vai aumentar ainda mais e não quer saber da famosa regra dos 3% – o deficit público não pode exceder 3% do PIB.

A Polônia sempre foi um problema, mas a sua falta de arrependimento por ser um país fora da moda comunitária em todos os sentidos – é dominada por um partido de direita, não pensa sequer em seguir os princípios ecológicos comuns e vota geralmente contra todos por razões que os todos não compreendem.

Nada disto se compara com o choque tectônico do Brexit. É um rude golpe da ideia de Europa que um dos seus principais países não queira fazer parte. Em termos políticos, o problema das duas irlandas é irresolúvel e vai aporrinhar Bruxelas e Londres nos anos mais próximos. Quanto à economia, é um abalo de proporções imprevisíveis. Os circuitos econômicos de pessoas, bens e capitais são muito complexos e não se faz ideia do que vai acontecer com alguns deles. 

O que é certo é que haverá interrupções e atrasos nos milhões de entregas diárias que ocorrem diariamente no espaço europeu, desde vegetais estragados pela demora nos trâmites alfandegários até aviões – os Airbus – com partes encalhadas nos armazéns de origem. Porque tudo, ou quase tudo, o que se utiliza na cadeia de produção é feito em vários países e basta que um deles saia da cadeia para criar o caos.

A nova composição do Parlamento Europeu, resultante das eleições de maio, dá mais força à direita conservadora e nacionalista – mas não tanta força como desejava – e mostra um enfraquecimento das forças centristas convencionais – sociais democratas e democratas cristãos – assim como mantém a tendencia de queda das esquerdas.

Na prática, a disputa para aprovar legislação ou tomar decisões será muito mais complicada e, logo, fragmentada. Ao fim de um mês de se saber o resultado das eleições, ainda não está escolhido o órgão executivo, a Comissão Europeia, que será quem tomará a maioria das decisões.

E há muito que decidir, desde a sempre presente questão dos imigrantes, até à absorção do impacto do Brexit. Mas não se vê nenhuma solução concreta da parte dos candidatos apresentados pelos nove grupos parlamentares (cada um formado por vários partidos nacionais). E ainda não se sabe como funcionará o novo equilíbrio – ou desequilíbrio – entre europeístas e nacionalistas.

 Cada vez mais, a Europa é uma incógnita.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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