Religião

21/06/2019 | domtotal.com

Lex agendi: Eucaristia e solidariedade

Celebramos aquilo que cremos, mas cremos aquilo que vivemos. A Eucaristia implica fé e compromisso com o próximo.

Não existe eucaristia sem serviço, sem solidariedade. A Eucaristia nos faz irmãos.
Não existe eucaristia sem serviço, sem solidariedade. A Eucaristia nos faz irmãos. (Reprodução/ Pixabay)

Por César Thiago do Carmo Alves*

O antiquíssimo adágio lex orandi, lex credendi de Próspero de Aquitânia (+465) expressa que a lei da oração revela a norma do crer da Igreja, recentemente vem sendo complementado com lex agendi, a lei da ação. A Igreja em sua liturgia confessa a fé no Senhor e essa confissão impulsiona a assumir um compromisso.

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Eucaristia e compromisso com as pessoas sofredoras são indissociáveis. A catequese joanina deixa entrever isso de modo exemplar no relato do lava-pés (Jo 13,1-17). Esse relato possui uma estrutura tripartida usada entre os rabinos. É um procedimento pedagógico, que consiste em realizar um gesto misterioso, que suscita uma pergunta e assim enseja um ensinamento. Tal estrutura é visível no relato. O gesto desconcertante do mestre, ao levantar-se da mesa e lavar os pés dos discípulos (vv.4-5); a pergunta de Pedro (v.6); e o ensinamento de Jesus (vv.12-15). A estrutura indicada faz parte da celebração pascal. Interessante notar que o lava-pés de Jesus é um gesto inovador por dois motivos. O primeiro é pelo momento. Acontece durante a ceia e não ao entrar na casa, como era o costume. O segundo é pelo agente que realiza. Não são os servos, mas o mestre. A conclusão que se pode extrair desse texto é que não existe eucaristia sem serviço. Sem solidariedade.

Se o texto bíblico aponta na direção da solidariedade/serviço em intima relação com a eucaristia, como pensar atualmente a celebração desse sacramento em nossas comunidades de fé?

A celebração da eucaristia é fazer memória do mistério pascal do Senhor. Isso consiste em voltar no tempo teológico ao calvário do Crucificado e a tumba do Ressuscitado. Não é somente a celebração do sacrifício, pois estaria incompleta. Abarca também o dado da ressurreição. Essa memória é feita com pão e vinho. Alimentos que matam a fome. O pão e o vinho considerados junto são vistos como alimentos que sustentam a vida de quem os recebe, bens de primeira necessidade (cf. Dt 9,14; 33,28). Embora a redução somente a essas espécies para a celebração eucarística seja questionada já na prática celebrativa por algumas comunidades, o que se pode constatar é que a eucaristia consiste também numa refeição. É o banquete do Cordeiro. É uma refeição partilhada. Esse gesto de partilha da refeição eucarística é significativo e deveria ser aprofundado mais na espiritualidade, pois num mundo em que se têm milhares de pessoas que passam fome, valendo lembrar que o Brasil voltou, infelizmente, a figurar no mapa da fome, a partilha dos bens consiste no caminho para que entre os irmãos e irmãs ninguém passe necessidade (cf.At 4,34-35).

A partilha da refeição, que se traduz em solidariedade com os que mais sofrem, pode-se observar já na práxis libertadora de Jesus. São inúmeros os relatos que temos nos evangelhos, do Mestre de Nazaré de sentar-se à mesa com os publicanos e pecadores. Isso era motivo de escândalo para a sociedade e religiosos hipócrita da época. Para aqueles que eram verdadeiros sepulcros caiados. É nessas refeições que Jesus torna mais clara a presença do Reino. Partilhar a mesa com tais pessoas significa igualar-se a elas, solidarizar-se com os últimos da sociedade, desprezados em nome de Deus. Nas refeições com os pecadores, Jesus mostra a misericórdia de Deus, o amor preferencial aos marginalizados e, com isso, mostra o Reino presente, pois, nessas refeições se estabelece fraternidade com os tidos por indignos. É presença e antecipação da festa messiânica. É justamente nesse contexto de refeições de Jesus que se deve colocar a última ceia. Ela estava aberta para a eucaristia que resumia toda sua vida e missão. É o ponto culminante de todas as refeições. É a concentração e a densificação de sua práxis e de sua solidariedade com os últimos.

A comunidade cristã de hoje não pode esquivar-se dessa sua tarefa e responsabilidade. Seria uma esquizofrenia da fé. Infelizmente, o que se vê atualmente é uma vivência do rito esvaziado do compromisso com as pessoas que sofrem, como que se a eucaristia se circunscrevesse tão somente ao espaço sagrado. Não percebendo que o corpo maltratado, sofrido a espera de sinais de ressurreição se prolonga nos corpos dos irmãos e irmãs que sofrem diuturnamente a espera de uma mão amiga e fraterna.  Curioso notar que o mínimo de preocupação ou verbalização a respeito das pobrezas, ou questionamentos ou defesas das minorias sociais pautadas desde a perspectiva de fé torna os defensores hereges e comunistas. Vale dizer que muitos dos que atacam pouco sabem da história das heresias e muito menos do que significa comunismo. São palavras da moda que saltam na boca de qualquer um como que xingamento. No entanto, já desde a práxis de Jesus e durante toda a história da Igreja o compromisso solidário sempre existiu. E quando tendia a perder a fidelidade originária do Evangelho, o próprio Espírito Santo suscitava figuras para que mexesse com as estruturas. Um rápido olhar para história pode-se verificar isso, como Antão, Francisco e Clara de Assis, Teresa de Jesus, Catarina de Sena, Inácio de Loyola, Martinho Lutero, Ludovico Pavoni, Dulce dos Pobres etc.

Esse ano está celebrando os 40 anos da Conferencia do Episcopado Latino Americano em Puebla. Evento, no qual a Igreja na América Latina reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Em seu n.1140 do documento conclusivo, afirma: “O serviço do pobre exige, de fato, uma conversão e purificação constante, em todos os cristãos, para conseguir-se uma identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres”.  Identificar-se com Cristo é eucaristizar-se, eucaristizar-se é entrar na dinâmica da solidariedade. Se rezamos Pai nosso e acreditamos que ele é de todos, a oração diz também que o Pão é nosso também. Então, é preciso que partilhemos. Que haja a distribuição. Que não seja privilégio de alguns. Seja o pão eucarístico, seja o pão dos bens materiais.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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