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24/06/2019 | domtotal.com

Uma gangrena nacional

Mas, se tinha algo que irritava profundamente Seu Zé do Alegra era qualquer menção àquela ferida incurável na sua perna.

- E aí, seu Zé, como vai essa bela ferida?
- E aí, seu Zé, como vai essa bela ferida? (Divulgação)

Por Afonso Barroso*

Seu Zé do Alegre, ferreiro e filósofo, tinha uma ferida gangrenada na perna, dessas que não saram nunca. Já experimentara aplicar todo tipo de unguento e pomadas diversas, receitadas pelo farmacêutico prático do lugar. Acho que até o Emplastro Brás Cubas ele passou, e nada. Como pensava que o sol era bom pra cuidar do mal crônico, todo dia ele se sentava à porta de casa e passava algum tempo com a gangrena exposta ao tempo, ao vento e ao astro.

O nome verdadeiro de Seu Zé era José de Arimatéia Fortunato, mas como nasceu no povoado de Alegre, ganhou o apelido que carregou por toda a vida: Zé do Alegre. Sempre com a perna direita da calça arregaçada, trabalhava no fole, a ferro e fogo, para forjar todo tipo de ferramentas, especialmente agrícolas, como enxadas, machados, foices. Fabricou até um arado certa vez, e o fazendeiro que fizera a encomenda ficou tão satisfeito que pagou o dobro da quantia que ele pediu pelo trabalho. Tornou-se, depois dessa façanha, o grande fornecedor de arados da região. Forjava um em poucos dias.

Seu Zé do Alegre era um homem diferente na cidadezinha. Sem letras, mas de rara inteligência, perspicaz e falante, era exímio contador de causos que ele mesmo inventava. Crianças gostavam dele e o rodeavam para ouvir histórias que sabia contar como ninguém. Histórias de um caboclinho d’água de uma perna só, de mula sem cabeça com estrela na testa e outras que encantavam a meninada. Professoras costumavam recomendar aos alunos do curso primário que de vez em quando fossem conversar com Seu Zé do Alegre, que tinha sempre boas lições extraclasse para transmitir aos pequenos, aos quais costumava prometer um trem de ferro... de pau.

Mas, se tinha algo que irritava profundamente Seu Zé do Alegra era qualquer menção àquela ferida incurável na sua perna. Convivia com ela havia tantos anos que ela se tornou uma companheira estimada. O raio da ferida era coisa muito sua, espécie de propriedade particular e inexpugnável, da qual cuidava como se fosse um animal de estimação. Sabia que não tinha como se livrar dela, por isso a cultivava com todo carinho. Na verdade, passou a amar a gangrena. Não dói, por isso não me incomoda, dizia.

Certo dia chega à cidadezinha um deputado da região, sujeitinho pernóstico que de vez em quando aparecia para marcar presença e pedir votos. Ao passar pelo ferreiro que estava sentado na porta de casa com a perna exposta ao sol, pergunta com maldade para provocá-lo:

- E aí, seu Zé, como vai essa bela ferida? 

Com os olhos faiscando de gratidão pela oportunidade, o ferreiro encara-o e responde na bucha:

- Vai que nem ocê, seu fidumaégua: comendo sem trabaiá.

Sabe-que que há políticos neste nosso país, talvez não poucos, que agem mesmo como a ferida de Seu Zé do Alegre. São eles as gangrenas do organismo público nacional.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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