Religião

21/06/2019 | domtotal.com

Francisco planeja o fim do celibato?

Entre as questões levantadas pelo documento de trabalho do Sínodo sobre a Amazônia, esta foi a questão que recebeu maior repercussão.

Tanto o Papa Francisco - declaradamente contra o fim do celibato -, quanto aqueles que organizam o evento, nem sequer levantaram a hipótese de extinguir a disciplina.
Tanto o Papa Francisco - declaradamente contra o fim do celibato -, quanto aqueles que organizam o evento, nem sequer levantaram a hipótese de extinguir a disciplina. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Em outras ocasiões, aqui no Dom Total, pude falar a respeito do assunto, mas vejo que, dada a repercussão do tema, é oportuno trazê-lo novamente para o centro do debate. Após a publicação, esta semana, do Instrumentum laboris, documento de trabalho do próximo sínodo que tratará dos desafios da evangelização na Amazônia, marcado para outubro, é hora de esclarecer algumas questões. Dessa forma, poderemos conter, juntos, os alardes e as instrumentalizações que já acontecem antes mesmo de iniciar essa importante assembleia que, sem dúvida, será um marco na história da Igreja Católica.

O que precisamos ter em mente é que jamais foi falado a respeito da extinção do celibato na Igreja latina. E aqui, quando falo de igreja latina, é para não nos esquecermos que na Igreja Católica de rito oriental o celibato é facultativo, assim como acontece na tradição ortodoxa. Ou seja, há padres casados que, amparados por uma rica tradição milenar – até mais antiga que o próprio celibato, diga-se de passagem –, vivem plenamente a fé católica em total comunhão com o sumo pontífice e com a instituição.

Tanto o papa Francisco – declaradamente contra o fim do celibato –, quanto aqueles que organizam o evento, nem sequer levantaram a hipótese de extinguir a disciplina. O que se falou foi da possibilidade de permitir a ordenação de viri probati, uma prática antiga que, em determinados momentos da história da Igreja, foi aplicada diante de situações extremas.

Os viri probati – do latim, homens de fé ou de conduta provada – nada mais eram que homens anciãos, cujo proceder e testemunho eram inquestionáveis, aos quais era concedida a ordenação sacerdotal para suprir a carência de sacerdotes ou ir ao encontro de uma situação na qual se constatasse, por motivos de força maior, a ausência contínua de um padre diocesano. Tais homens, nos primeiros séculos, assumiam o papel de “ministros itinerantes”.

No Concílio Vaticano II, e em outras ocasiões da era contemporânea, falou-se a respeito dessa via como um meio para sanar a crise vocacional. A questão imediatamente foi posta de lado por Paulo VI que, à época, considerava um risco para os sacerdotes do período, os quais, segundo ele, estavam bastante “desorientados” para acolher, na ocasião, uma abertura do tipo.

Posteriormente, o então professor Joseph Ratzinger, no livro Fé e futuro, publicado na década de 1970, chegou a questionar se, no futuro, não existiriam, por acaso, formas alternativas relacionadas ao exercício do ministério sacerdotal:

“A partir da crise atual, virá uma Igreja que terá perdido muito. Ela será mais reduzida e terá que recomeçar. Tratando-se de uma pequena comunidade, deverá contar muito mais da iniciativa de cada membro. Provavelmente, ela poderá conhecer novas formas de ministério e ordenará sacerdotes e cristãos provados”, salientou.

Sendo assim, não é nada “herético” levantar essa possibilidade como uma solução para os fiéis das comunidades amazônicas que têm acesso aos sacramentos uma vez ao ano, os quais são dignos, assim como os demais fiéis, de receber a Eucaristia ao menos uma vez por semana, além dos outros sacramentos. Além disso, vale salientar que tais ministros seriam destinados a exercer esse tipo de serviço somente nas comunidades locais de proveniência.

Segundo estimativa de bispos da Região Amazônica, há locais nos quais há 27 padres para atender 800 comunidades. Se a preocupação do sínodo é sobretudo com a evangelização da Região Amazônica, é no mínimo estranho que alguém considere ilícito que várias alternativas sejam levantadas para proporcionar àqueles que vivem em regiões isoladas um sustento espiritual constante e efetivo.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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