Religião

24/06/2019 | domtotal.com

Amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam

O amor e a verdade, a justiça e paz precisam nortear nossos caminhos, se queremos uma nação que não viva exilada em sua própria terra.

O exílio é a consequência da infidelidade à aliança, na negação do direito e da justiça, para o povo de Deus.
O exílio é a consequência da infidelidade à aliança, na negação do direito e da justiça, para o povo de Deus. (Reprodução/ Agência Brasil)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A democracia em nosso país está exilada. Ela, que não chegou a se consolidar, fraturou-se com a banalização do impeachment, em 2016, sem crime de responsabilidade, com o argumento de que estava se dando “pelo conjunto da obra”. Foi golpe! Agora, temos um presidente paranoico: não confia em ninguém e vive sob a suspeita de que será traído e apeado do poder. Para além das fragilidades próprias de Bolsonaro, esse estado constante de suspeita sobre a manutenção de seu poder tem clara referência ao golpe jurídico-parlamentar contra a Dilma e contra o voto de 54 milhões de brasileiros e brasileiras. A instituição foi fragilizada.

Aos poucos, aquelas conversas nada republicanas do ex-senador Romero Jucá vão sendo confirmadas e temos visto que os bastidores do poder são muito mais malcheirosos que pensávamos. Falou-se em um grande acordo nacional. Mas o que tem se revelado é que tudo não passa, sempre, de um grande conluio entre as elites. 

Acordos visam à solução de conflitos, à promoção de benfeitorias... Esses ditos acordos que se dão nos bastidores do poder só servem aos interesses das elites, jamais aos da população. Um conglomerado de pessoas, cujos interesses são coloniais, retrógrados e egoístas, trouxe-nos a esse mar de desgraças ao qual estamos naufragando. Tudo isso, importa dizer, com o apoio de uma boa parte da classe média, que se deixou ser conduzida como gado em direção ao matadouro. Mas, na linha de abate, entramos todos, sobretudo os mais pobres e socialmente vulneráveis.

Estamos exilados em nossa própria terra: não temos vez, não temos voz. Eles têm decido por nós; têm manipulado as massas, estimulando-lhes o fígado para que, raivosos com quem têm por inimigos, cedam dóceis a quem realmente detém o poder das decisões. A esperança, nesse contexto, é equilibrista. É preciso não ceder à distopia. 

Ainda que aparentemente impossível, a transformação dessa realidade brasileira só poderá acontecer, se partir de seu próprio povo. Essa transformação precisa começar pelas bases e, para isso, é preciso que transformemos nossa cultura desde dentro, não aceitando estruturas de comportamentos que se tornaram normais, em nosso cotidiano, mas que revelam falta de cidadania, de senso do comum e de cuidado pelo coletivo.

O Salmo 85 é bastante inspirador, nesse contexto todo no qual estamos imersos. Nele, vemos a oração de confiança de quem vive exilado. Para a fé de Israel, o exílio da Babilônia foi uma consequência da infidelidade do povo, em relação à aliança feita com o Senhor. Nessa relação de aliança entre Deus e seu povo, os líderes do povo, sobretudo o rei, tinham um papel fundamental: eram eles que deviam garantir a fidelidade do povo. Diante da infidelidade à aliança, na negação do direito e da justiça, o exílio foi a consequência: perderam a terra que o Senhor os havia dado por herança. 

No referido Salmo, vemos uma oração contrita e confiante. Nele, emerge a esperança. Mesmo que aspiremos à saudável separação institucional entre religião e política, com a fé do povo da Bíblia podemos aprender algo de precioso, para nosso contexto político: o amor e a verdade, a justiça e paz precisam nortear nossos caminhos, se queremos uma nação que não viva exilada em sua própria terra.

Que, pela educação, por caminhos legítimos e republicanos, busquemos transformar nossa realidade, inspirados por valores tão fundamentais que nos alcem a ser uma nação bem maior que a que já somos. Longe de falsos messias, de falsos heróis, que assumamos nós mesmos essa transformação, movidos por aquilo que nós temos de melhor em nós!

Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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