Religião

24/06/2019 | domtotal.com

O último monge de Tibhirine: 'Deus dirigiu essa história'

Sobrevivente do massacre na Argélia, Jean-Pierre Schumacher é exemplo de uma vida dedicada à reconciliação e ao diálogo entre muçulmanos e cristãos.

O padre Jean-Pierre é o único sobrevivente do mosteiro de Tibhirine.
O padre Jean-Pierre é o único sobrevivente do mosteiro de Tibhirine. (CNS/Courtesy of the Vatican Dicastery for Communication)

Por Margot Patterson*

Não há fantasmas no Mosteiro de Notre Dame de L'Atlas, em Midelt, no Marrocos, mas há muitas lembranças. É nesta cidade, no pé das montanhas do Atlas, onde os dois monges trapistas que sobreviveram ao massacre de sua comunidade em Tibhirine, na Argélia, restabeleceram sua comunidade.

As lembranças do passado estão por perto. Uma pintura na capela da abadia representa os monges mortos de Tibhirine em oração; os quartos da abadia levam seus nomes; um memorial para os monges através de seus retratos. Esses irmãos que deram suas vidas pela paz e amizade se foram, mas não ficaram esquecidos nessa abadia no Marrocos.

Junto a outros 12 cristãos mortos durante a guerra civil argelina nos anos 1990, os sete monges de Tibhirine foram beatificados em dezembro de 2018. Eles são considerados mártires, suas mortes fazem parte das feridas de uma guerra marcada pelos brutais massacres de civis.

No início da manhã de 27 de março de 1996, membros do Grupo Islâmico Armado (GIA, do Groupe Islamique Armé) chegaram à abadia em Tibhirine e sequestraram os sete monges que estavam no local. O GIA e os governos argelino e francês trocaram correspondências, quando o GIA tentou negociar a troca os monges por um líder do GIA preso três anos antes. Os monges foram mantidos em cativeiro por dois meses. Suas cabeças decapitadas foram encontradas no final de maio de 1996, e enterradas no cemitério de Tibhirine em 4 de junho. Os eventos que levaram ao rapto dos monges no monastério de Notre Dame de L'Atlas em Tibhirine são o tema que inspira o filme premiado de 2010, De deuses e homens.

O padre Jean-Pierre Schumacher e o padre Amédée Noto devem suas vidas ao fato de estarem em uma parte diferente do mosteiro quando os guerrilheiros chegaram. “Não havia barulho. Não havia nada de extraordinário”, disse Schumacher sobre aquela noite que marcaria a vida dele e de outros monges para sempre.

Com a morte do padre Amédée em 2008, o padre Jean-Pierre é o único sobrevivente do mosteiro de Tibhirine. O papa Francisco prestou homenagem a ele durante sua visita ao Marrocos no final de março, beijando sua mão em gesto de respeito e reverência.

Agora com 95 anos, Schumacher continua sendo uma testemunha de eventos que ainda hoje estão envoltos em mistério. As mortes dos monges foram atribuídas aos jihadistas islâmicos, mas há suspeitas de que o governo argelino e, possivelmente, o governo francês também possam estar envolvidos. Uma reportagem da revista Time, de 2009, informou que o depoimento de um general francês aposentado indica que as mortes podem ter sido resultado de uma operação militar argelina que deu errado. Os corpos dos monges nunca foram encontrados. “Não se sabe”, disse Schumacher. “É um mistério que não foi esclarecido”.

Pequeno e frágil, o monge fala com voz clara sobre os dias sombrios da guerra civil argelina. “Vivíamos em um clima de total insegurança no dia a dia”, lembrou ele. Os monges de Tibhirine foram avisados para deixar a Argélia. Eles discutiram seriamente sobre a possibilidade de partir, mas decidiram permanecer, apesar de sentir o perigo se aproximando a cada momento. Os monges foram para a Argélia não para converter muçulmanos, mas para viver em amizade com eles. Desde 1938, quando o mosteiro foi fundado, eles e seus vizinhos muçulmanos conviveram em harmonia. Os religiosos chamaram o Exército argelino de "nossos irmãos da planície" e os rebeldes "nossos irmãos das montanhas" na esperança de que um dia os dois se tornassem verdadeiramente irmãos. Pressionados a tomar partido entre os guerrilheiros islâmicos e o governo argelino, eles se recusaram.

Schumacher era o porteiro da noite na abadia. Como tal, todos esperavam que ele fosse o primeiro a ser afetado pelo perigo para a comunidade. Mas os guerrilheiros que chegaram depois da meia-noite não entraram pela porta principal, mas pelo porão. Schumacher nunca ouviu nada. Somente horas depois ele e Noto descobriram o que tinha ocorrido.

Apesar de os cineastas terem visitado Notre Dame de L'Atlas em Midelt, De deuses e homens foi rodado em um mosteiro beneditino abandonado a cerca de 25 quilômetros de lá.

Em parte por causa da popularidade do filme, a coragem e a fidelidade dos monges ao seu chamado tornaram-se bem conhecidas. Mas os monges em Tibhirine não eram os únicos nesse propósito, disse Schumacher. “Todas as comunidades cristãs optaram por permanecer na Argélia para ajudar as pessoas que sofriam”, disse ele. “Toda a Igreja teve essa atitude.”

E não foram apenas os cristãos que resistiram à onda de violência que assolava a Argélia, após governo perder uma eleição em 1991 e se recusar a ceder o poder. Schumacher observou que 114 imãs perderam suas vidas porque se opuseram à violência no país.

Após a morte dos monges em sua comunidade, Schumacher ficou atormentado e se questionou por que ele não havia sido levado também. “Meu coração não estava pronto?” ele se perguntou. “A lâmpada não estava acesa?”

A carta de uma abadessa de um mosteiro cisterciense na Suíça lhe ofereceu consolo. Ela perguntou sobre sua vida interior e lhe disse para não se incomodar pela ansiedade ou apreensões – que Deus tinha levado sete homens para testemunhar o Evangelho através de suas mortes e deixou outros dois para testemunharem por suas vidas.

Schumacher não tem dúvidas disso. “Foi Deus quem dirigiu essa história", disse ele sobre os eventos de 1996. “O que aconteceu naquele mosteiro se tornou uma imagem para o mundo inteiro. Uma imagem de reconciliação. É um chamado para todos hoje.”

A comunidade em Midelt é pequena, apenas meia dúzia de monges de diferentes países. Ainda assim, é um lugar ativo. O padre Benoît, o monge que me recebeu na entrada do mosteiro, disse que pessoas de fora do Marrocos frequentemente viajam ao mosteiro para visitar o padre Jean-Pierre Schumacher. Um grupo de estudantes franceses fazendo estágio em Marrocos estava hospedado no mosteiro quando o visitei. Era realizado também um encontro das Pequenas Irmãs de Jesus, reunindo religiosas de meia dúzia de lugares na Argélia e do Marrocos.

As irmãs, como os monges, inspiram-se no exemplo de Charles de Foucauld, um oficial da cavalaria francesa, explorador e geógrafo que se tornou padre e viveu no Saara entre o povo tuaregue da Argélia antes de sua morte, em 1916. Uma pequena capela no mosteiro é dedicada a ele. Próximo a essa capela, outra é dedicada ao padre Albert Peyriguère, um francês tão movido pelo exemplo de seu compatriota que partiu para imitá-lo no Marrocos, estabelecendo-se na pequena cidade de El Kbab e oferecendo ajuda médica, comida e roupas para a população indígena berbere das redondezas. Como Charles de Foucauld, ele coletou histórias, canções e poemas da população local, tornando-se um etnólogo e especialista no povo berbere.

“Ele se tornou mais berbere do que os berberes”, disse o padre Benoît, que descreveu Peyriguère, cujo túmulo está na capela, como um indivíduo extraordinário, um pai espiritual dos monges e um homem muito amado pelas pessoas locais a quem ele ajudou. Nascido em 1883, Peyriguère morreu em 1959. “Os xiitas são os muçulmanos mais próximos de nós cristãos”, disse o padre Benoît. “Porque Trump segue essa política com o Irã?”

Quando, há quase 20 anos, Notre Dame de L'Atlas se mudou para Midelt, perto de Medea, na Argélia, os monges ocuparam aposentos anteriormente das religiosas pertencentes às Missionárias Franciscanas de Maria. “Elas eram muito amadas”, disse o padre Benoît. Um policial na entrada do mosteiro me deixou imaginando se os monges se sentiam ameaçados, mas o padre disse que as relações entre o mosteiro e a comunidade são excelentes. Ele achava que a polícia havia sido colocada no portão depois de ataques terroristas na França. “As pessoas estão felizes por estarmos aqui para mostrar que cristãos e muçulmanos podem viver juntos”, disse.

Ele me apresentou a uma irmã que atravessava o pátio do mosteiro, integrante das Pequenas Irmãs de Jesus, uma ordem religiosa fundada na Argélia em 1939. Seguindo o caminho do padre Charles de Foucauld, as Pequenas Irmãs de Jesus são contemplativas e compartilham a vida cotidiana com trabalhadores, minorias e outras pessoas que são materialmente pobres ou são ignoradas e desconsideradas.

Originalmente, as Pequenas Irmãs de Jesus viviam entre os muçulmanos. Sua fundadora se estabeleceu entre os nômades no deserto do Saara. Desde a sua criação, a ordem cresceu. As integrantes das Pequenas Irmãs de Jesus estão agora presentes em 63 países, onde tentam ser uma ponte entre todas as raças, classes e religiões. A irmã Anne Yvette disse que ela e as outras irmãs buscam “uma vida de amizade, oração e presença, um testemunho de uma fraternidade maior”.

Hoje, mais do que nunca, a fraternidade parece ilusória no mundo, mas a missão dos monges em Midelt não parece menos importante. Em nossa conversa, o padre Jean-Pierre Schumacher falou da necessidade de diálogo, da necessidade de um novo equilíbrio no mundo. Ele tem esperança de que a morte de seus irmãos monges em Tibhirine, há 23 anos, gerem um novo espírito de reconciliação.

Em um mundo polarizado, a menção ao “diálogo” pode parecer quase singular, mas não abalou o desejo do homem que sobreviveu a uma guerra civil e ao assassinato de seus irmãos. Quando o deixei, ele perguntou se a publicação para a qual eu escrevo provoca diálogo de fato. Essa era sua principal vontade.


National Catholic Reporter / Tradução: Ramón Lara

*Margot Patterson é escritora e editora, mora em Kansas City, EUA.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas