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25/06/2019 | domtotal.com

O ofício da crítica

A televisão será sempre reflexo de seu tempo, porém, com a peculiaridade de também atuar como agente político.

'A crítica não é uma profissão de rosas.'
'A crítica não é uma profissão de rosas.' (Pixabay)

Por Alexis Parrot*

Toda trajetória tem seus marcos. Neste início de inverno, a coluna completa três anos de serviços prestados a uma discussão crítica da TV feita hoje no mundo. Ao dissecar e debater alguns de seus melhores e piores momentos, creio que acumulamos pistas para tentar entender melhor o estado geral de coisas a que chegamos.     

Fenômeno de massa ou fábrica de salsicha, a televisão é ainda o produto cultural de maior alcance e influência a que estamos sujeitos. Se baixa ou alta cultura, não importa; é cultura e pronto. Importa sim, como nos posicionamos frente a ela. Não acredito mais na figura de um telespectador passivo, cujo poder sobre a chamada "máquina de fazer doido" se resuma a um controle remoto nas mãos.   

A televisão será sempre reflexo de seu tempo, porém, com a peculiaridade de também atuar como agente político (de transformação ou estagnação). A riqueza da TV como fenômeno está em sua capacidade tanto de revelar quanto de mentir. É aí que a porca torce o rabo: não existe vilão nem herói trabalhando em dedicação exclusiva; todo mundo leva em si um pouco de ambos e é nas nuances que mora o perigo.

Ao assistir, por exemplo, um dos últimos lançamentos do Netflix, o telefilme Rolling thunder revue: A Bob Dylan story by Martin Scorsese, somos obrigados a admitir que existe uma TV fervilhante e criativa, que honra as calças que veste. Mas ao notar que a segunda temporada de O mecanismo também está disponível, nosso entusiasmo pode começar a murchar como um balão furado.

Ambas as obras são recriações da realidade; mas, se a primeira consegue realizar um fascinante ensaio de fabulação sem abrir mão do factual, a segunda – uma ficcionalização da Lava Jato – fica apenas no campo da manipulação política medíocre. Estabelecer este tipo de conexão e levá-la a público (para gerar debate e reflexão) é um dos papéis fundamentais da crítica.

"Crítica é análise – a crítica que não analisa é a mais cômoda, mas não pode pretender ser fecunda." O autor da frase é Machado de Assis, que também exerceu a crítica literária enquanto esculpia-se como grande mestre da prosa de ficção.

O trecho é pinçado de seu texto O ideal do crítico, publicado na imprensa em 1865. Para ele, essa figura deveria cultivar as seguintes virtudes: capacidade de análise, consciência, coerência, independência, tolerância, delicadeza e perseverança.

Nos meus tempos de repórter de cultura, tive a oportunidade de conversar sobre o assunto com vários entrevistados e me lembro bem do crítico de cinema do Estadão, Luiz Zanin, dizendo que, para se exercer o ofício, há que se "cultivar um casco, uma carapaça", tamanha é a cobrança de autores e artistas sobre o que gostariam de ver escrito sobre seu trabalho ou performance. Zanin ecoa também Machado, que declara no texto já citado: "A crítica não é uma profissão de rosas."

Ainda mais em ambiente tão hostil como a internet.

Do folclore dos bastidores da coluna, gosto especialmente de um episódio que se relaciona com o assunto. Em 2017, alguns meses antes de sua morte, me vi envolvido em uma breve discussão com o diretor de teatro e roteirista Luiz Carlos Maciel, sobre texto que publiquei aqui criticando duramente a segunda temporada de Sense8.

Maciel compartilhou a publicação e desceu a lenha sem dó nem piedade em minha análise, desqualificando-a por completo. Escrevi para ele, cobrando-o não pela discordância, mas pela deselegância com que havia se manifestado. Iniciei o comentário estabelecendo minha crença nos dois sentidos em que qualquer crítica deve se apoiar, a discussão e a provocação. 

Digo que a altercação foi breve porque ele respondeu prontamente, se desculpando pela contundência do que havia escrito e constatando que continuaríamos com nossas opiniões divergentes, porém, reconhecendo que nada justificava a grosseria.

Para arrematar a questão (em uma prova viva daquela "delicadeza" cobrada por Machado de Assis para o ofício da crítica), se dirigiu a mim com uma frase que diz muito dele e do que não podemos perder de vista: "Respeito é bom e você gosta, com toda razão". No mundo louco dos comentários do Facebook, o Maciel é um lorde que faz falta.

Em outras palavras: escrevemos mais (e mal) após o advento das redes sociais, mas conversamos cada vez menos. Na bolha da internet, todo comentário quer ser o definitivo e toda opinião quer apresentar-se como verdade. Mas que verdade?

Em 2004, vivi um dos momentos mais marcantes de minha vida como consumidor ávido de arte e cultura; a peça Tierno Bokar, de Peter Brook, parte da programação daquele ano do FIT - BH. O espetáculo recontava a vida do guru Bokar, uma espécie de Gandhi do Mali, que pregava a tolerância e o amor dentro do islamismo, no inicio do século passado.

Uma espécie de mote do personagem, repetida algumas vezes dentro da ação da peça, me acompanha através dos anos e tem me ajudado a desbravar com alguma desenvoltura as querelas apresentadas pelo mundo e pela vida, tanto em seus dilemas filosóficos, quanto religiosos ou estéticos. Eis a frase: "Existe a sua verdade, a minha verdade e a verdade".

A verdade é o diálogo, afinal. É nessa entrelinha que mora a crítica.

Em entrevista para a revista Cult, em 2011, o cineasta Werner Herzog afirmou que "sempre foi claro para mim que uma boa crítica não melhora um filme, assim como uma crítica ruim tampouco torna o filme ruim."

Ao concordarmos com a frase, emerge a questão crucial, muito mais importante que qualquer tentativa de definição: então, para que serve a crítica?

Serve para estabelecer diálogos – com a obra sobre a qual se debruça e com o público; com a época em que a obra foi produzida ou a que se refere e como ela se relaciona ou não com o tempo atual. Não pode ser guia de leitura ou de visitação turística; não deve assumir nunca a pretensão de mapa. É mais indício que materialidade. Serve ao público e não à obra ou àquele autor - a ética é parâmetro e a independência uma exigência. É análise e não opinião.

Serve para abrir caminhos, e não para suprimi-los. Serve para debater e não para julgar – e, para tanto, é imprescindível que o crítico se posicione. Não existe imparcialidade na crítica e aquela que assim se apresenta não passa de mentira. A boa crítica é assinada; sabemos quem está por trás dela e o que move aquele sujeito. Senão, vira um jogo de cabra-cega, com mais porões que quintais abertos – como uma conversa no Telegram entre Moro e Dallagnol.    

É nesta toada que vou, acreditando que o lastro da dissonância é condição para que se encontre algum equilíbrio; sem a preocupação de determinar cânones e sem a obrigação de obedecer ao bom gosto estabelecido.    

Pela internet afora, já encontrei até tutoriais de como fazer crítica de arte, o que não passa de arrematada bobagem. Os últimos três anos me mostraram esse caminho: no próprio exercício cotidiano do ofício pulsa a crítica e sua verdade.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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