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26/06/2019 | domtotal.com

Amizades bordadas no tempo

Ficamos alfinetados pelas voltas, filamentos e enredados diante dos pequenos tecidos.

Tudo costurado e trespassado por voltas no tempo permanente da amizade
Tudo costurado e trespassado por voltas no tempo permanente da amizade (A Vida Portuguesa/Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Ao redor da fogueira, todos tínhamos muitas histórias, embora, às vezes, nos falhassem as memórias. Não sei, mas tenho a intuição que foram os estalos e as faíscas incandescentes a origem de tudo. Hoje, minha memória é pobre e já gasta, restam fios soltos que tento juntar a outros pontos, e acho tudo torto. 

Eram cinco ou seis. O um se lembrou, um outro também. Brincadeira de beira-fogo, antiga, dos tempos de moleque. “Era na rua”, disse algum. O terceiro assentiu e puxou um fio de memória: “Galinha preta”, falou, olhando os demais enquanto se abastecia de um maço de jornais velhos. “É bom queimar os fatos.”

Então, ela começou a fazer “galinhas pretas”. Ensinava aos demais. Em suas mãos surgia um objeto improvisado e rústico. Espécie elementar de balão de são João. Esperamos três tentativas até que o papel negro, pontilhado de minúsculas brasas, decolou desajeitado no ar e flutuou cruzando o quintal.

As antigas amizades, curtidas em brasas afetivas, recebiam no calor aconchegante da fogueira joanina um frescor particular. Tantos anos e olhares trocados os eximiam da necessidade de manifestá-la. As brasas irradiavam afeto, que, como a única “galinha preta” que transpôs o muro, pairavam sobre nós.  

Deixamos as brasas para comer amendoim e caldo de feijão à mesa. O dono da casa nos presenteou abrindo um armário antigo para nos mostrar bordados. Nem Adelaide seria capaz de expressar tamanha delicadeza.

Eram umas 10 peças de variadas técnicas, cores, formatos e origens. Emanavam memórias e despertaram histórias. Memórias de pessoas, de lugares e dos lugares que os amigos foram e se lembraram, materializaram em pedaços de tecido, evocaram mães, avós e tias e muitos laços e elos, como uma sequência de nós e pontos de tempos distintos que se emaranhavam, tudo costurado e trespassado por voltas no tempo permanente da amizade.

Ficamos alfinetados pelas voltas, filamentos e enredados diante dos pequenos tecidos. Neles, estavam contidas lembranças de viagens, de parentes, de tradições, de tempos longínquos, mas, sobretudo, teceram memórias vivas naquela mesa. Seguimos pistas como Ariadne, mas não havia ponto para a razão ali, era sentimento e crença na amizade.

De volta à fogueira, entrelaçamos gravetos como se evocássemos um fogo arcaico. Queimamos nela ódios e ressentimentos – resquícios da vida mundana. A chama vibrava e, embora os estalidos interrompessem o som quieto da noite, cada um de nós estendia a mudez.

O perfume de mato e madeira queimada nos transportou para longe; cada um, cada um. Ficamos ali, pensando em bordados. A amizade, não era preciso. Estava traçada e trançada num pedaço de pano e de afeto. Costura assim não se desfaz, não tem que falar. Apenas apraz.

* Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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