Religião

27/06/2019 | domtotal.com

Geração 'Laudato si' nas ruas com Francisco. Devolvam nosso futuro!

Quarto aniversário da encíclica 'Laudato si' coincide com protestos contra a omissão dos governos em relação à crise climática.

Protestos são organizados pela Geração Laudato Si ', ramo juvenil do Movimento Católico Mundial pelo Clima, e dirigido por jovens representantes de organizações católicas em todo o mundo.
Protestos são organizados pela Geração Laudato Si ', ramo juvenil do Movimento Católico Mundial pelo Clima, e dirigido por jovens representantes de organizações católicas em todo o mundo. (laudatosigeneration.org)

Por Élio Gasda*

Milhares de estudantes de todo o mundo trocaram as salas de aula por protestos contra a omissão dos governos em relação à crise climática. A greve, do dia 24 de maio, incluiu um grande número de jovens católicos chamados de Geração Laudato si. O protesto coincide com o quarto aniversário da encíclica do papa Francisco sobre o meio ambiente e a ecologia humana, lançada em 18 de junho de 2015.

Greta Thunberg, a adolescente sueca de 16 anos que lidera o movimento global pelo meio ambiente foi incisiva no Parlamento Britânico: “Em 2030 terei 26 anos e minha irmã Beata terá 23. Tive a sorte de nascer em um tempo e lugar onde todos nos diziam para sonhar alto. Tínhamos tudo que poderíamos desejar e, no entanto, agora podemos não ter nada. Nosso futuro foi vendido para que um pequeno número de pessoas pudesse ganhar quantias inimagináveis de dinheiro. O futuro foi roubado de nós. Vocês mentiram para nós. Deram-nos falsas esperanças”.

Destruição ecológica. Talvez seja esse o mais violento de todos os projetos do capitalismo, pois inviabiliza o futuro das próximas gerações. Com a ascensão de políticos de extrema direita, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, os riscos ao meio ambiente se tornaram ainda maiores. O Brasil vem intensificando a destruição dos ecossistemas. A Amazônia perde 19 hectares de florestas/hora. Na primeira quinzena de maio, foram desmatados 7 mil campos de futebol (Sistema de Alerta de Desmatamento). O número de multas aplicadas pelo Ibama caiu 35% desde janeiro. 90% da Mata Atlântica já não existe mais (WWF Relatório Planeta vivo). 

Em vez de enfrentar as atividades ilegais de madeireiras, agronegócio, grandes fazendeiros e mineradoras, o governo persegue movimentos ambientalistas, organismos internacionais e comunidades locais que lutam pela preservação. O governo tirou o Brasil do Acordo de Paris e desistiu de sediar a Conferência do Clima da ONU, em 2019.

Ricardo Salles fez de sua pasta um verdadeiro Ministério da “Destruição” do Meio Ambiente. “Negacionistas das mudanças climáticas se isolaram num bando de alucinados” (José Eli da Veiga): fim da demarcação das terras indígenas, apoio incondicional ao agronegócio e a bancada ruralista, liberação de caça de animais silvestres, investimentos agressivos em áreas de preservação, leilão de campos de petróleo em pleno Parque Nacional de Abrolhos. Outros santuários ecológicos, como Lençóis Maranhenses (MA), Chapada dos Guimarães (MT), Parque de Aparados da Serra (RS), todo o sistema ecológico entrou na lista mortal da destruição. Mais de 150 povos em isolamento voluntário correm risco de extinção. Impossível imaginar como as próximas gerações poderão viver.

Não basta destruir. É preciso também envenenar. Nesta segunda-feira (24), o Ministério da Agricultura liberou mais 42 agrotóxicos. Em seis meses já são 239. Vários estão proibidos em diversos países por serem muito perigosos para a vida humana e para o meio-ambiente. O governo já atendeu a 440 outros pedidos de registro de agrotóxicos. O país que consome 20% dos herbicidas do planeta, praticamente aboliu os mecanismos de controle. Patentes vencidas no exterior são permitidas aqui. A ministra ruralista faz jus à fama de “musa do veneno”.

Empresas de abastecimento de 1,3 mil municípios brasileiros detectaram 27 pesticidas na água utilizada pela população. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente tóxicos e 11 estão associados às doenças crônicas como câncer e malformação fetal. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Cuiabá e Florianópolis identificaram a contaminação. O sistema de tratamento convencional não é capaz de remover os agrotóxicos da água.

Como criminalizar as agressões contra o meio ambiente e a vida humana? Em 2016, o Tribunal Penal Internacional (TPI) reconheceu o ecocídio – destruição em larga escala do meio ambiente - como ‘crime contra a Humanidade’ ao lado do genocídio, crimes de guerra, de agressão, escravidão entre outros. As barragens de Mariana e Brumadinho, da mineradora Vale, são um exemplo. As vítimas podem entrar com um recurso internacional para obrigar os autores do crime – sejam empresas ou chefes de Estado e autoridades – a pagar por danos morais e econômicos. Penas de prisão podem ser emitidas contra criminosos que destruam as condições de existência de uma população porque o ecossistema foi destruído, como no caso de desmatamento, mineração, contaminação da água e do ar e grilagem de terras. 

O ecocídio implica uma forma de genocídio quase despercebida. Muita vida foi eliminada em consequência de crimes ambientais. As ações do governo, do agronegócio e das empresas na Amazônia e a liberação de agrotóxicos podem ser consideradas crime contra a humanidade?

“Não quero que tenham medo. Quero que tenham pânico”, alerta Greta Thunberg e os milhares de jovens da ‘Geração Laudato si’. Há quatro anos, o papa Francisco lançava a Laudato si, documento crítico a um modelo de desenvolvimento que destrói o meio ambiente de uma forma avassaladora sem qualquer compromisso com a justiça social. Meses depois da publicação, celebrou-se o Acordo de Paris. Muitos atribuíram ao papa o resultado positivo da conferência do clima. “Papa Francisco pode restaurar o equilíbrio em favor da terra e da humanidade neste tempo de ecocídio e de genocídio” (Vandana Shiva).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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