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28/06/2019 | domtotal.com

Meditação - com Clarice e João

Força da língua, da potência da palavra, do texto certeiro de sensibilidade atemporal.

Dias de meditação.
Dias de meditação. (Pixabay)

Por Eleonora Santa Rosa*

A força da palavra alheia de quem não é alheio e nem alienado ao que confrange o outro, a muitos, mas não a todos.

Força da língua, da potência da palavra, do texto certeiro de sensibilidade atemporal, da lavra de quem sabia muito e tinha o dom e o trabalho de fazer soar o que o é preciso dizer.

Dias de meditação:

Por Clarice:

"(...) não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso,... a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido. Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria.”

Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

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Por João:

"O mineiro é velhíssimo. É um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza.

É uma gente imaginosa, pois que muito resistente à monotonia. Mas nunca é inocente. Acha que o importante é ser, e não aparecer, não aceitando cavaleiro por arqueiro nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que “agitar-se não é agir”. Sente que a vida é feita de encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo...

Não tem audácias visíveis. Tem a memória longa. Ele escorrega para cima. Só quer o essencial, não as cascas...Não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar.'

João Guimarães Rosa. Aí está Minas: a mineiridade

 

Por Clarice:

“..sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”

Clarice Lispector, Perto do coração selvagem

*Jornalista e gestora cultural, ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, é diretora executiva do Museu de Arte do Rio (MAR).

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