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28/06/2019 | domtotal.com

Eco-lombo

Cristóvão Colombo, nas suas quatro viagens às Américas, realmente respondeu por um dos mais significativos episódios na história da Humanidade.

Teria errado nisso o descobridor, em nome de sua fé e da devoção aos reis católicos?
Teria errado nisso o descobridor, em nome de sua fé e da devoção aos reis católicos? (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Muito interessante a pesquisa do professor Alfred Crosby, da Universidade do Texas, criador do conceito “intercâmbio colombiano”. Não; não se trata de um troca-troca clandestino de drogas entre cartéis da Colômbia. O trabalho de Alfred Crosby envolve um estudo profundo sobre os reflexos das descobertas de Cristóvão Colombo no meio ambiente, na agricultura e nas economias tanto da nova América quanto da velha Europa.

Escreveu Crosby num trecho: “Quando os primeiros navegantes chegaram às praias do Caribe, culturas como trigo, cevada e arroz não existiam aqui. Ao mesmo tempo, o milho, a batata-doce, o cacau ou a mandioca eram absolutamente desconhecidos dos europeus.”

Claro, o mundo era muito diferente por volta de 1492. Na Itália – logo lá, vejam só - o tomate e seu saboroso molho nunca passavam pelas mesas, ninguém conhecia. Da mesma forma, o cacau, matéria-prima dos famosos chocolates belgas ou suíços, permanecia ausente dos paladares europeus – embora já existisse nas Américas 3 mil anos antes de Colombo, sendo até usado pelos Maias como moeda.

É certo que dos navios desembarcaram os sinistros Aedes aegypti e as ratazanas, junto com a varíola, o sarampo, a catapora, a sífilis, a gripe, a febre amarela e a dengue. Talvez tenha sido este o alto preço para o intercâmbio histórico. Pra compensar, devemos nos lembrar que sem Colombo não teríamos flores como margaridas, narcisos, lilases. Nem limões, laranjas, alfaces, repolhos, peras, bananas, pêssegos, café. A propósito, foram ainda as naus que trouxeram as abelhas, fundamentais na polinização. Em troca, além dos tomates, mandamos para a Europa os amendoins, as abóboras, os pimentões e os perus, que já circulavam por aqui há tempos, fazendo glu-glu pelas aldeias indígenas.

Os animais domesticados trazidos por Colombo também mudaram a caça, a alimentação, os hábitos migratórios e até as estruturas tribais da época. De início, os nativos americanos assustavam-se ao verem galinhas, cavalos, bois, ovelhas e cabras. O estranhamento logo passou. O cavalo, por exemplo, deu ao índio a velocidade e a resistência necessárias para aproveitar a imensa quantidade de carne e couro disponíveis nas manadas de búfalos da América do Norte. No sul, ganharam um precioso aliado no trabalho e na caça, locomovendo-se melhor pelas infindáveis planícies dos Pampas.

Como vemos, Cristóvão Colombo, nas suas quatro viagens às Américas, realmente respondeu por um dos mais significativos episódios na história da Humanidade. Laurence Bergreen, estudioso do genovês, descreve-o como um indivíduo obstinado, recluso, quase um eremita. De saúde frágil, penando com uma artrite renitente, Colombo tinha visões místicas, jejuava com frequência, gostava de se vestir com a batina dos frades franciscanos. Sua religiosidade, entretanto, não o impediu de promover um sangrento massacre nas terras recém-descobertas. Calcula-se que algo em torno de 100 mil indígenas foram mortos por sua ordem e outros milhares escravizados apenas no primeiro ano da colonização espanhola.

Teria errado nisso o descobridor, em nome de sua fé e da devoção aos reis católicos? Talvez, sim. Porém, de uma coisa temos certeza: em termos de rotas e direção, Colombo errou feio. Até o último minuto de vida, Colombo insistia e acreditava ter chegado ao Japão, China e Índia através do Atlântico. Tudo bem, Cristóvão; a gente desculpa. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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