Brasil

04/07/2019 | domtotal.com

Há um dia de não pensar

Me atrevo a escrever estas linhas num sábado, dia em que, por minha própria e irrecorrível decisão, não gosto de pensar.

Domingo, este sim, é um dia bom pra gente pensar.
Domingo, este sim, é um dia bom pra gente pensar. (geralt/Pixabay)

Me atrevo a escrever estas linhas num sábado, dia em que, por minha própria e irrecorrível decisão, não gosto de pensar. Se fosse domingo, pensaria na vida, nas mortes passadas e na vindoura, nos amores mal dormidos, nas desventuras e fracassos heroicamente obtidos, nas conquistas poucas, nos desejos não ou mal realizados, nas esperanças vãs, nos amores e dissabores, quem sabe até em antigos sábados.

Assim sendo, espero o domingo que promete chegar amanhã.

Domingo, este sim, é um dia bom pra gente pensar. Penso até que deveria ser dedicado exclusivamente aos pensamentos, ao escarafunchar da memória à procura de algo memorável, mesmo que não comemorável.

Aí é que me vêm à mente coisas acontecidas em alguns dos inúmeros domingos desta minha vida longa e boba.

Lembro-me da filha de 15 anos que um dia perdi em acidente de automóvel. Maria Cecília, a minha Tutuca, era amiga íntima e inseparável aos domingos. Sempre me levantei cedo, e no domingo costumava dedicar boa parte da manhã às partituras de piano. Sentado no banquinho de madeira, tentava inutilmente agilizar os dedos pra tocar a Alla turca, de Mozart. Como não conseguia a aceleração que a composição exige, logo deixava de lado e passava às valsinhas do método Shmoll ou à linda e conhecida Pour Elise, de Beethoven. Tutuca abria a porta da sala de mansinho, entrava e sentava-se do meu lado. Debruçada sobre meus ombros, ficava a me ver tocar. Terminada a audição, ali pelas onze e meia, íamos os dois almoçar fora, porque as outras crianças preferiam a comida que a mãe preparava. Saíamos para comer um peixe à moda no Restaurante do Porto ou um lombo fatiado e rolinhos primavera no Macau ou um peixe à comodoro na Cantina do Lucas. Depois que ela morreu, vendi o piano para nunca mais tocar. Matei Mozart e mandei com ele para o outro mundo sua marcha turca.

Também me vem à mente, nos pensamentos de domingo, a morte de Ayrton Senna no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola. Eu tinha saído pra comprar pão, e na volta parei numa banca de jornal. Era um domingo de maio. Na banca, um rádio noticiava o fatídico acidente, com a narração de que tinha sido algo violento demais para se pensar na sobrevivência do piloto.

No capítulo dos domingos trágicos me lembro daquele em que morreu meu pai. Eu acordara tarde e, como perdera a pelada de toda semana, resolvi ir a uma das pré-estreias que a rede de cinemas do Luciano exibia às 10h30. Era ainda solteiro. Dois amigos não me acharam em casa pra dar a notícia e saíram à minha procura. Me encontraram quando saía do Cine Brasil. Até hoje é para mim um mistério como puderam me achar em plena Avenida Afonso Pena. Já estava quase pegando meu TL branco pra voltar pra casa, mas em vez disso fui direto para a estrada, rumo ao Jacuri. Percorri quase 400 quilômetros, a maior parte de estrada de terra, em inacreditáveis quatro horas e quinze minutos.

Foi também num domingo que fiz minha primeira reportagem, como foca no Diário da Tarde. Fui à cidade de Arcos para entrevistar um moço que dizia ser o autor da letra da marchinha A praça. Eu o descobrira por acaso, no bairro Santo André, onde ele visitava parentes e eu tinha amigos. Chamava-se João Nilo e afirmava que mandara a poesia para o Carlos Imperial que, segundo ele, se apropriou dela malandramente. Era o grande sucesso da época, na voz de Ronnie Von. A matéria de uma página ganhou do Edison Zenóbio, então secretário de redação, o título entre aspas: ”A praça não é do Carlos Imperial. É minha”. A foto mostrava o João Nilo sentado no banco da pracinha de Arcos.

Mas eis que de repente alguém, que pode ser até eu mesmo, pergunta: por que e para que escreve essas bobagens? Respondo que bobagem, diferentemente dos amigos do amigo Fernando Brant, não é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. Por isso escrevo e solto-as, deixando que voem para pousar onde bem lhes aprouver.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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