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01/07/2019 | domtotal.com

G-20, o poço das cobras

Os habitantes da terra não estarão todos a prestar atenção a este acontecimento, mas certamente que serão todos eles afetados.

Sendo todos umas feras, o número de permutas de intrigas, insinuações, indiretas, promessas falsas e tapas nas costas com uma faca na manga é praticamente infinito.
Sendo todos umas feras, o número de permutas de intrigas, insinuações, indiretas, promessas falsas e tapas nas costas com uma faca na manga é praticamente infinito. (Alan Santos/PR)

Por José Couto Nogueira

Em Osaka, no Japão, estão reunidas as vinte individualidades mais poderosas do mundo – em teoria representam 80% da economia mundial, mas na prática respondem pelo destino das restantes sete mil e setecentos milhões de pessoas que habitam o planeta.

Os habitantes da terra não estarão todos a prestar atenção a este acontecimento (quantos são exatamente, é um número que aumenta à cadência de dois ou três por segundo...), mas certamente que serão todos eles afetados, mais ou menos, pelo que estas figuras acordarem e discordarem.

E quem são eles? Bem, sabê-lo que não é nada tranquilizador; quer tenham chegado à cimeira convencendo os eleitores, quer tenham sido escolhidos por interesses variados, ou tenham imposto o seu poder à força, não são pessoas que gostaríamos de ter na família, para dizer o mínimo.

Aqui está a lista dos países presentes: França, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão, Itália, Canadá e União Europeia (que constituem outro clube ainda mais fechado, o G-7), mais Argentina, Austrália, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Coreia do Sul, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia.

Inicialmente, isto é, em 1999, o grupo incluía os ministros das finanças e os governadores dos bancos centrais de cada país, para discutir questões de comércio e finanças mundiais; mas a partir de 2008, foi alargado aos dirigentes (presidentes, reis, primeiros ministros, secretários gerais ou generalíssimos, conforme o que vigora nos respectivos países), e aos ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, além de dirigentes de foros internacionais, como as Nações Unidas e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Imagine-se esta gente toda junta durante alguns dias, numa espécie de festa privada, em que não faltam oportunidades para estarem todos juntos na sala e depois subirem aos quartos para conversas privadas bilaterais, trilaterais e circulares. Sendo todos umas feras, o número de permutas de intrigas, insinuações, indiretas, promessas falsas e tapas nas costas com uma faca na manga é praticamente infinito. Todos adoram estar presentes e cada um quer brilhar mais do que os outros, em incontáveis oportunidades fotográficas e videográficas cheias de significados que nem o mais arguto observador consegue desvendar.

Dito isto, há, evidentemente, uma agenda oficial: a que está no convite é que se vai discutir o estado da economia mundial e, este ano em particular, as alterações climáticas. Quanto ao estado da economia mundial, é o habitual choque de perspectivas, conforme as ideologias presentes, apimentado há um ano por uma disputa colossal entre os Estados Unidos e a China; quanto às alterações climáticas, também há quem se preocupe com elas e quem as ache um disparate, portanto logo à partida este tema está destinado a morrer na praia. Donald Trump, o Presidente do país mais poluidor, já disse que não quer ouvir falar nesse engano (hoax). Outros há que querem falar, mas não podem fazer grande coisa; e ainda outros para quem se trata mais dum mantra do que dum fenômeno.

Os direitos humanos, outro tema recorrente, nem sequer chegará à praia. Um dos presentes é o representante da Arábia Saudita, país membro da Comissão dos Direitos Humanos da ONU (verdade!) e seria desagradável falar desse assunto em público – como o seria também para os presidentes da China e da Turquia, que são muito sensíveis.

Assim sendo, o grande tema será, certamente, a presente alteração do comércio mundial, que passou do globalismo hipócrita ao nacionalismo agressivo. Embora a guerra comercial seja entre os Estados Unidos e a China, todos estão envolvidos e cada um tem os seus interesses a proteger. O que será dito e/ou não dito poderá ser abertamente ou com alguma subtileza. Por exemplo, Donald Trump, que entra sempre na sala aos encontrões, declarou à chegada que espera que as reuniões dêem resultados, mas, se não obtiver o que quer, está pronto a sair porta. No extremo oposto, isto é, na linha da subtileza, o primeiro ministro nipónico, Shinzo Abe, deu-lhe de presente um mapa dos Estados Unidos onde estão marcadas as cidades americanas onde os japoneses têm investido, com a criação de milhares de postos de trabalho.

Esperam-se conversas à porta fechada – menos para a foto-oportunidade do aperto de mão inicial. A mais importante, entre Xi Jinping e Donald Trump. Outra, cuja importância nunca se saberá, entre Putin e o presidente norte-americano, que insistem em encontrar-se ao abrigo de olhares estranhos. Provavelmente António Guterres, Secretário Geral da ONU, o homem menos poderoso do mundo, dará uma palavrinha suave a Moahammad bin Salman sobre o caso Jamal Khashoggi, que as autoridades turcas, famosas pelas suas preocupações com os direitos humanos, têm vindo a revelar aos bocadinhos (literalmente...). Já o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, espera-se que não fale com ninguém, para não embaraçar toda a gente.

Sobre a conversa entre Jinping e Donald, que é o que realmente interessa, os investidores estão pessimistas – e quando os investidores estão pessimistas, lá vêm os estilhaços para os que não têm nada para investir. Mas o Ministro das Finanças americano, Steven Mnuchin, já disse à CNBC que as coisas estão “90% resolvidas”. (O que levou Teresa Hanafin, do Boston Globe, a dizer mordazmente que os 10% que faltam têm a ver com quanto Xi está disposto a pagar para jogar golfe em Mar-a-Lago, o resort de Trump na Flórida. Os jornalistas são mesmo tinhosos...)

Além das conversas sabidas e dos encontros escondidos, haverá evidentemente uma declaração final assinada por todos. Não é difícil prever que será uma lista de lugares comuns – cooperação positiva internacional, prosseguimento de interesses comuns, etc. - cheios de esperança nos amanhãs que cantam. Até lá, resta-nos seguir atentamente o que quiserem que sigamos, e agradecer à tecnologia que nos permite ver tudo (ou melhor, nada) em tempo real e a cores.

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