Cultura

02/07/2019 | domtotal.com

Netflix vai virar MTV?

O Netflix lançou esta semana 'Anima', experiência do diretor Paul Thomas Anderson (de 'Magnolia'), protagonizada por Yorke. O Netflix diz que é filme, mas é vídeo clipe.

Thom Yorke, do Radiohead, lança clipe de trabalho solo no Netflix.
Thom Yorke, do Radiohead, lança clipe de trabalho solo no Netflix. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Para promover o lançamento do novo álbum solo de Thom Yorke, vocalista do Radiohead, o Netflix lançou esta semana Anima, uma experiência do diretor Paul Thomas Anderson (de Magnolia e Ouro negro), protagonizada por Yorke.  

O Netflix diz que é um filme, mas é um vídeo clipe.

Enquanto no YouTube você pode fazer um vlog com a câmera do seu celular ou mandar brasa em uma live direto do quintal de casa, Anderson e Yorke usaram dinheiro público francês e o mecenato do Netflix para realizar um vídeo clipe de 15 longos minutos de duração, gravado luxuriosamente em Praga e nas cavernas de Les Baux-de-Provence. 

Cena a cena, o clipe é o seguinte:

Primeiro cenário: A classe operária que enche um vagão de metrô movimenta-se mecanicamente, nos momentos em que não se mantém estática. Estamos diante de uma sociedade em letargia, decalcada claramente do mundo orwelliano de 1984. Thom Yorke encarna mais um desses quase autômatos que se acotovelam no transporte público (a magreza e os sulcos enrugados do rosto envelhecido o aproximam fisicamente de John Hurt, alimentando mais uma ligação inevitável com o filme baseado no livro de Orwell).

Uma caixa de ferramentas esquecida é a desculpa para abordar uma mulher que o interessa. Porém, o aparato técnico do mundo moderno (escadas rolantes e catracas mecânicas), além do fluxo da multidão, impede o personagem de encontrar seu interesse amoroso.

Segundo cenário: da estação do metrô somos transportados para cavernas com projeções de vídeo nas paredes, o protagonista remando contra a maré do que se espera dele na busca por um sentido romântico que preencha sua vida. E a luta é feroz (e interminável), com nosso herói alternando momentos de solidão com outros em que novamente se joga na direção contrária da coletividade adestrada e sem vontade própria.

Terceiro cenário: um paredão branco onde Yorke continua fazendo a mesmíssima coisa. o posicionamento da câmera é feito para criar a impressão de que o embate está acontecendo no chão, mas é evidente que se trata mesmo de um muro – ressuscitando o velho truque usado na série clássica do Batman, quando ele e o garoto prodígio fingiam escalar prédios, pendurados em uma corda.

Quarto cenário: uma ruela de Praga, à noite. Do nada, a tal mulher que ele buscava surge e nosso John Hurt versão 2019 a seduz, com sucesso. Segue-se um pas de deux (o momento mais bonito de todo o vídeo, com uma coreografia à la Pina Bausch – apesar de ter ficado com sérias dúvidas sobre a necessidade de incluir na cena os outros dançarinos em momento que deveria ser de pura introspecção).

Quinto cenário: um bonde elétrico no horizonte é o destino para o casal recém-formado. Já embarcados, continuam a interagir, agora como se dirigidos por Marina Abramovic em uma performance. A conexão está feita e o protagonista pode descansar tranquilo. Fim.

Apesar do verniz artístico de vanguarda, o vídeo é uma cara peça de publicidade, antes de qualquer outra coisa. É propaganda e material de divulgação do álbum e deixa muito a dever a outros clipes emblemáticos já lançados no passado pela banda de Yorke. Ou mesmo ao melhor clipe do Radiohead que não é do Radiohead, o da música Rabbit in your headlights, da banda Unkle, mas com vocais de Yorke (aquele em que Denis Lavant - o ator fetiche de Leos Carax – anda por um túnel conversando sozinho loucamente, é atropelado diversas vezes, mas sempre se levanta e continua caminhando, até o final apoteótico).

Tudo começa no Metrô e termina no bonde elétrico ao amanhecer – subterrâneo versus superfície. Distopia que se torna utopia; trevas que se materializam em luz; o amor é a chave para um futuro melhor... nada além de platitudes. As alegorias não poderiam ser mais pobres e manjadas.

Fui buscar informações sobre Damien Jalet, o premiado e experiente coreógrafo belga do clipe. Segundo o seu site pessoal, já deu aulas para a companhia de Pina Bausch e tem trabalhos conjuntos desenvolvidos com Marina Abramovic, o que acabou por confirmar as impressões que tive ao assistir o vídeo. Está explicada aquela sensação de déjà-vu em todo o trabalho de corpo dos performers e dançarinos.

Sobre a direção de PT Anderson, prefiro sinceramente que ele retorne para o cinema de ficção. E que faça mais filmes como Boogie nights e menos como Vício inerente. Só não é um desperdício total porque a música de Yorke, mesmo em trabalho solo, retorna com a mesma força de sempre.

A importância do lançamento deste Anima está fora dele, na verdade. O que de fato interessa é se esta aventura aponta para uma nova estratégia do Netflix. Esta é a proposta do serviço de streaming para a criação de uma nova geração de vídeo clipes? A música é um novo mercado que a empresa planeja explorar?

Se a produção de filmes já é uma realidade em seus menus de navegação, por que não a música? Roma, o sensível filme de Alfonso Cuarón, deu um passo importante para legitimar o Netflix como produtor sério de cinema ao abocanhar três Oscars, dois Globos de Ouro e o Leão de Ouro em Veneza.

Apesar dos prêmios, a pretensão é alvo de polêmica. Diretores como Almodóvar e Spielberg questionam se filmes que não são feitos para serem exibidos em tela grande seriam mesmo cinema. O primeiro se recusou a premiar produções com a chancela Netflix quando presidiu o júri em Cannes em 2017 e o pai do E.T. lidera uma cruzada para que estes produtos sejam classificados como telefilmes – passíveis de participar apenas de competições de televisão, como o Emmy.

O próximo (e decisivo) capítulo da novela será o lançamento de The irishman, no segundo semestre. A história do assassino profissional da máfia que trabalhou para Jimmy Hoffa ganhará o mundo pelas mãos de Martin Scorsese. No elenco, atores do calibre de Robert DeNiro, Joe Pesci, Harvey Keitel e Al Pacino, com um orçamento de mais de US$ 200 milhões e uma utilização revolucionária de efeitos especiais. 

Vai ser muito difícil dizer que não se trata de um filme, que não é cinema. Se Anima é um vídeo clipe vendido como filme, The irishman será, seguramente, o outro lado da moeda.

(Anima – vídeo clipe em cartaz no Netflix.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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