Religião

05/07/2019 | domtotal.com

Sabedoria x idolatria: o sábio vive pela fé

Somos desafiados a viver a sabedoria que espera confiante em Deus, que busca superar os sistemas perversos e garantir a paz.

No Brasil de hoje faz-nos urgente, como cristãos e cristãs, nutrir a sabedoria bíblica, que combate toda idolatria do dinheiro e do poder que gera a injustiça social.
No Brasil de hoje faz-nos urgente, como cristãos e cristãs, nutrir a sabedoria bíblica, que combate toda idolatria do dinheiro e do poder que gera a injustiça social. (Stephen Radford/ Unsplash)

Por Junior Vasconcelos Amaral*

De acordo com os biblistas Maximiliano Cordero e Gabriel Rodríguez, a noção de sabedoria, em qualquer de suas manifestações, foi considerada como um dom de Deus. Assim, José no Egito, em sua interpretação dos sonhos e boa administração dos bens egípicios, foi considerado pelo Faraó como “o homem mais sábio” (Gn 41,39).

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Os “sábios” religiosos do Antigo Testamento fundamentavam sua ciência na revelação – a tradição religiosa de Israel, da qual formavam parte as comunicações proféticas – e na experiência, iluminada pela ciência revelada. A “sabedoria” (em hebraico Hokmah) só tem valor à medida que conduz a Deus, pois o “temor de Deus” é o princípio da sabedoria. Em Jó 28,23, se define a sabedoria moral-prática: “O temor de Deus”, essa é a sabedoria; apartar-se do mal, essa é a inteligência. Tal sabedoria prática se consegue com a experiência pessoal e com os ensinamentos reiterados pela tradição, que se acumularam na ciência das gerações (Eclo 34,9s).

O sábio, portanto, é convidado por Deus a encontrar a ordem em si próprio, na Criação e no Cosmo. A ética, neste contexto sapiencial bíblico, consistiria na adequação do agir humano com a ordem cósmica, estabelecida pelo Criador (Gn 1,31). O sábio, que se descobre na ordem do cosmo (em grego ordem que vem do belo), procura adequar sua vida e suas atitudes a essa ordem. A sabedoria é modus vivendi daquele que, prudente e reflexivamente, age configurando sua vida à vontade do Criador (Jo 4,34).

Para o sábio tertium non datur. Para aquele que procura a sabedoria a terceira possibilidade se torna excluída. A sabedoria, evidentemente, é processual. Seu constituir-se é contínuo e dinâmico. A ninguém se a dispensa.

Ao lado da sabedoria subjetiva – enquanto conhecida e participada pelo homem em sua dimensão prática e teórica – está também a objetiva, tal como se manifesta em Deus. Para o narrador bíblico, “toda sabedoria vem de Deus”; e por sua fonte única, só ele pode comunicá-la ao ser humano. Em realidade, esta sabedoria é um atributo de Deus (Pr 2,6), para aquele que governa e domina tudo o que é criado. Tudo é obra de sabedoria e bondade, e as coisas são um reflexo de sua natureza transcendente como Ser vivente e ativo (Sl 104,24; Pr 3,19-20; Sb 13,1-9).

Segundo Cordero e Rodríguez, os narradores apresentam a sabedoria como arquiteta que preside a obra da Criação divina, assinalando o modo de cada ser dentro de seus términos. Deus criou todas as coisas “em número, peso e medida” (Sb 11,21). Assim o autor do Eclesiástico (24,3-8) a descreve:

Eu saí da boca do Altíssimo e recobri a terra como névoa. Armei a minha tenda nas alturas, e o meu trono ficava sobre uma coluna de nuvens. Percorri sozinha a abóbada do céu e passei pelas profundezas dos abismos. Estendi o meu poder sobre as ondas do mar, sobre a terra inteira e sobre todos os povos e nações. Em todos eles procurei um lugar para repousar e uma propriedade onde pudesse me estabelecer. Então o Criador do universo me deu uma ordem. Aquele que me criou armou a minha tenda, e disse: “Instale-se em Jacó e tome Israel como herança”.

 A sabedoria, como predicativo divino, atua nas obras, na natureza, na história e salvação da humanidade. O narrador de Sb 7,22-24 a define como “espírito inteligente, santo, ágil, imaculado, amante dos homens, onisciente... hálito do poder divino e uma emanação pura da glória de Deus onipotente”.

O Sl 115,1-8, a profissão do estrito monoteísmo de Israel, apregoa a honra estrita ao nome de Deus, e não a das criaturas. Desse modo, se eleva um forte brado contra a idolatria e a produção de ídolos por mãos humanas. O salmista clama, pela glória do nome de Adonai (Senhor), que este intervenha com urgência, atendendo a tradicional piedade e fidelidade para com Israel, que muitas vezes pôs-se pronto a salvá-lo das situações de perigo (Ex 19,18).

A eleição de Israel como povo predileto entre os demais da orbe está na base da aliança (berit) no Sinai. YHWH (Senhor) pois, não pode faltar com sua palavra, com sua promessa de auxílio. O salmista tem consciência do poder soberano de YHWH, que habita os céus e de lá é juiz supremo sobre todas as criaturas, sem que ninguém resista à sua vontade. Frente a YHWH nada podem os ídolos; eles são desprovidos de poder algum. São eles simulacros de prata e ouro, obras dos homens, e, como tais, não podem assistir a seus fiéis, pois não têm vida.

O salmista diz: “aqueles que os fazem ficam como eles, todos aqueles que neles confiam” (v. 8). Assim, todo aquele que confia sua existência a um ídolo de madeira ou metal se torna, em sua vida toda, um ser incapaz de agir, tomar iniciativas, e lutar pela justiça social – a tsedaqáh. A estupidez dos ídolos é transmitida aos idólatras, suas vidas são inconsistentes e estão na contramão do projeto de YHWH.

Vivemos, hoje, num Brasil um cenário complexo, sofrido e talvez o mais exigente tempo para nossa fé expressa pela sabedoria, salvaguardando as devidas proporções com os tempos ditatoriais (as décadas 60 e 70). Vemos e lemos constantemente nos noticiários atrocidades, violência, políticas perversas, a ganância da corrupção e a mesma que é fruto da desigualdade e a desigualdade que cresce por causa da corrupção, do acúmulo de bens por parte de alguns (muito ricos) e o empobrecimento de uma grande massa de homens e mulheres.

Mediante toda esta conjuntura político-social somos desafiados a viver a sabedoria que espera confiante em Deus, que busca superar os sistemas perversos e garantir a paz, o shalom (plenitude) esperada e querida por Deus. Como Cristãos, somos chamados à vocação da santidade, que está relativamente associada à vontade de Deus. Viver com sabedoria é, portanto, imprescindível a fim de que optemos à luz da fé a viver a caridade, o amor compassivo e clemente, que nos capacita a viver o bem e a justiça social, desde nosso voto consciente até à atitude de partilhar o pão com quem está passando fome e lutar por justiça social e políticas públicas que atendam eficazmente a sociedade que padece.

No Brasil de hoje faz-nos urgente, como cristãos e cristãs, nutrir a sabedoria bíblica, que combate toda idolatria do dinheiro e do poder que gera a injustiça social, a fim de buscarmos uma sociedade mais fraterna, justa, solidária e empática às dores do próximo, que na verdade é todo aquele ou aquela a quem eu me torno próximo, a quem me aproximo, como na dinâmica da experiência narrada por Jesus, a do samaritano que se aproxima, cuida e não mede esforços para o bem daquele que sofria e estava caído à beira do caminho (Lc 10,30-37).

*Junior Vasconcelos do Amaral é doutor em Teologia Sistemática pela FAJE/BH (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), professor de Bíblia na PUC-Minas, presbítero a serviço da Arquidiocese de Belo Horizonte, MG.

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