Religião

05/07/2019 | domtotal.com

O discernimento religioso que não aliena da vida

Muitos grupos ainda hoje querem uma espiritualidade que mantenha 'uma prudente distância das chagas de Cristo', ou seja, uma fé alienada da vida.

Há muitos grupos na Igreja que pelo excesso de zelo pela doutrina ou pela incapacidade de discernimento acabam por negar a beleza do Evangelho.
Há muitos grupos na Igreja que pelo excesso de zelo pela doutrina ou pela incapacidade de discernimento acabam por negar a beleza do Evangelho. (Unsplash/ Michael Newcomb)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN

As religiões sempre estiveram presentes no horizonte humano. Há uma sede de transcendência no coração humano, como canta o salmista: “a minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42, 3). Porém, com o advento da ciência, a religião foi deixada num segundo plano, além de ser taxada de “ilusão”, “neurose”, “alienação”, “fruto da ignorância”, “ópio do povo”, etc.

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Ainda que em nossa contemporaneidade não tenhamos esquecido a palavra “Deus” e alguns até falem da “volta do sagrado”, o que se percebe é que a fé já não dita mais o modo de viver da maioria das pessoas, ou seja, as religiões perderam a sua cidadania na cidade dos homens. Talvez este seja o grande desafio das religiões diante do homem moderno que diz ter alcançado a sua “maioridade”: encontrar novamente o seu lugar no mundo, para não cair num espiritualismo vazio, alheio à vida cotidiana das pessoas, nem tampouco se enredar num infantilismo humano que obstaculiza o encontro pessoal com o Deus de Jesus Cristo.

Albert Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”, ou seja, parece ser possível uma religião “adulta” que dialogue com a ciência, que valorize a beleza e os valores presentes em todas as culturas, sem com isso perder a sua identidade. Como exorta são Paulo VI: “Se pensar é uma grande coisa, pensar é sobretudo um dever, e infeliz daquele que fecha voluntariamente os olhos à luz. Pensar é também uma responsabilidade: infelizes daqueles que obscurecem o espírito pelos mil artifícios que o deprimem, o tornam orgulhoso, o iludem, o deformam. Qual é o princípio básico para os homens de ciência senão esforçarem-se por pensar corretamente?” (Mensagem do Concílio Vaticano II aos Homens de Pensamento e de Ciência, 1965)

Na mesma mensagem, o pontífice ainda completa: “Talvez nunca como hoje, graças a Deus, foi tão bem-vinda a possibilidade de um profundo acordo entre a verdadeira ciência e a verdadeira fé, servindo uma e outra a única verdade. Não impeçais este precioso encontro. Tende confiança na fé, a grande amiga da inteligência”.

Se revisitarmos a história da Igreja vamos encontrar, nos seus primeiros séculos, grupos de pessoas que defendiam que Jesus era de natureza só divina e que a sua humanidade havia sido absorvida pelo divino. Eram os chamados monofisistas. Por isso, o Concílio de Calcedônia (ano 451) vai afirmar a união “em duas naturezas” de Jesus Cristo, humana e divina - “sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”. Este equilíbrio de Calcedônia acende uma luz para o nosso tempo de tantos radicalismos e polarizações dentro e fora da Igreja.

O que afirmamos de Cristo vale também para a nossa espiritualidade de discípulos missionários. Muitos grupos ainda hoje querem uma espiritualidade que mantenha “uma prudente distância das chagas de Cristo”, ou seja, uma fé alienada da vida. São João Paulo II já dizia que “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer a ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar à verdade sobre si próprio” (Fides et Ratio, preâmbulo).

Neste sentido, não precisamos ter medo de uma fé que faz pensar, de uma “religião de adultos”. Por que embora a fé seja um dom gratuito de Deus e não simplesmente resultado de disposições humanas, por mais amadurecidas que elas possam ser, a maturidade humano-afetiva, a visão crítica da realidade, as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas... são substratos antropológicos que possibilitam a experiência adulta do Deus da revelação bíblica. 

Yves Congar dizia que “a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião", ou seja, a falta de incidência da fé na vida dos “crentes”, o ateísmo prático, como alguns gostam de chamar, explica uma das gênesis não só das críticas que a Igreja sofre, mas até mesmo a negação da religião e de Deus por parte de muitas pessoas, principalmente dos jovens. O Concílio Vaticano II já havia constatado essa questão quando afirma: “os fiéis podem ter tido parte não pequena na gênese do ateísmo, na medida em que, pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer que antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião.” (GS, 19).

O papa Francisco tem falado muito da importância do discernimento na vivência pessoal da fé, haja vista que vivemos numa sociedade plural com uma infinidade de experiências religiosas que precisam ser refletidas, examinadas, para guardarmos o que é bom (cf. 1 Ts 5, 21). “Hoje em dia, tornou-se particularmente necessária a capacidade de discernimento, porque a vida atual oferece enormes possibilidades de ação e distração, sendo-nos apresentadas pelo mundo como se fossem todas válidas e boas [...]. Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião (GE, 167).

O exercício do discernimento não é tarefa apenas dos indivíduos que creem, mas da própria comunidade de fé. Enquanto Igreja inserida na sociedade, o discernimento também se faz necessário. Pois a fé não pode ser um caminhar no escuro, pelo contrário, precisamos “estar sempre prontos a dar a razão da nossa esperança a todo aquele que a pedir” (1 Pd 3, 15).

Sem o mínimo de razoabilidade, sem o discernimento do espírito, podemos cair facilmente num fideísmo desencarnado, numa fé abstrata, num Deus sem rosto, num Cristo sem carne, numa “psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu” (EG, 83). Se queremos ser, de fato, uma comunidade de crentes que traz alguma iluminação e comunica vida ao mundo, faz-se necessário “examinar o que há dentro de nós – desejos, angústias, temores, expectativas – e o que acontece fora de nós – os ‘sinais dos tempos’ –, para reconhecer os caminhos da liberdade plena” (GE, 168).

O discernimento é necessário também no exercício da autoridade. Penso que o magistério da Igreja precisa enfrentar com coragem qualquer tipo de polarização e, com diálogo e discernimento, acolher o que tem de bom e belo em cada cultura, para não se fechar à novidade de Deus. Há muitos grupos na Igreja que pelo excesso de zelo pela doutrina ou pela incapacidade de discernimento acabam por negar a beleza do Evangelho. O discernimento liberta-nos da rigidez, pois cria em nós a predisposição para escutar: o Senhor, os outros, a própria realidade que não cessa de nos interpelar de novas maneiras. Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente, aos seus hábitos, aos seus esquemas.

Jesus de Nazaré é, para nós, esse grande exemplo de maturidade na fé, ele tinha um espírito livre diante das tradições e da própria Escritura Sagrada, sabia discernir o momento presente para não se tornar escravo da lei. Pois a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei (cf. Mc 2, 27). Em nosso tempo, o discernimento se faz necessário, para não nos prendermos à frieza da letra, esquecendo o mistério do amor, o fulgor pneumático do Deus que liberta (cf. 2 Cor 3, 6).

O exercício do discernimento é, pois, fundamental em nossa práxis cristã, principalmente no amadurecimento de nossa fé e de nossa missão de sujeitos de “uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria” (EG, 01). Haja vista que o ser humano é um ser de relação, movido pelo desejo/afeto (pathos), um ser capaz de ouvir/obedecer (potentia obedientialis) ao mandamento de Deus na voz do rosto, deixando-se in-spirar pelo outro. E neste estar-diante-de-Deus diante-do-outro numa atitude de escuta/obediência, responsabilidade única do eu interpelado a responder “eis-me aqui”, a palavra “Deus” pode ser pronunciada com sentido.

Se se perde de vista, portanto, a perspectiva da justiça como promoção do outro, como instrumento da paz, a fim de que o homem possa ser um-para-o-outro, como guardião-de-seu-irmão, a fé torna-se vazia de sentido e a palavra “Deus” se transforma em “ídolo” sem nenhuma eficácia em nossa existência. Noutras palavras, a mística não é posterior à ética, mas a ética é o lugar mesmo da mística, do discurso sobre Deus. Desta forma, a fé estará sempre ligada à vida e as religiões permanecerão abertas à acolhida, à escuta e ao diálogo, pois estes são os critérios de um verdadeiro discernimento.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo em Belo Horizonte-MG.

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