Brasil

05/07/2019 | domtotal.com

O grito das estradas

O Brasil está ouvindo a voz das ruas nas manifestações, mas precisa escutar com mais atenção o grito crescente das estradas.

O Brasil está ouvindo a voz das ruas nas manifestações, mas precisa escutar com mais atenção o grito crescente das estradas.
O Brasil está ouvindo a voz das ruas nas manifestações, mas precisa escutar com mais atenção o grito crescente das estradas. (Carl de Souza/AFP)

Por Fernando Fabbrini*

As redes sociais (mais que os noticiários, claro) ficaram repletas de cenas das manifestações do último domingo. Bandeiras e camisetas verde-amarelas, faixas esculhambando políticos, apelos patrióticos, palavras de ordem. Estive lá também e confesso que não vi nenhum golpista sanguinário, bandido, blequibloque ou marginal entre os manifestantes. Ninguém meteu fogo em pneus, quebrou vitrines nem chutou portas de aço. Não sobrou lixo na praça.

Enfim: eram pessoas normais, pais de família com seus filhos; donas de casa; namorados, casais, jovens e idosos, gente comum. Todo mundo dando seu recado em apoio à Lava Jato, ao juiz Sergio Moro, ao pacote anticrime e às reformas que o Brasil necessita.

Na totalidade, era gente pê da vida com a roubalheira que se instalou no país nos últimos anos, drenando nossa energia para enriquecer safados. E indignada com a cara-de-pau de certos políticos e magistrados, enganando o povo com seus discursos e ações absurdamente distantes da realidade.   

Curiosamente, a TV também não mostrou uma cena bastante significativa. Uma multidão de caminhoneiros fechou uma rodovia em São Paulo. De joelhos no asfalto, cantaram o Hino Nacional, rodeados de suas mulheres, filhos e companheiros de estrada. Tinha muita gente, uma fila interminável de caminhões. A polícia rodoviária pediu para desimpedirem a pista após entoarem o hino. Tudo bem: sem nenhuma confusão ou resistência, liberaram o tráfego em minutos. Descobri que não foram os únicos, a cena se repetiu em muitas rodovias.

Caminhoneiros têm uma personalidade especial. Trabalhei de perto com eles, durante muitos anos, estudando seus valores e hábitos para uma grande indústria, já que são essenciais no transporte de insumos siderúrgicos e produtos acabados. A classe é formada por gente de escolaridade média, em quase toda a maioria – embora encontremos até um ou outro engenheiro, administrador ou profissional liberal no volante das carretas, levado ali pelo desemprego.

Quem se aventura nessa profissão deve ter paciência, disposição e hoje também muita coragem para encarar os assaltos. Assim, pergunte aos caminhoneiros se concordam com a liberação do porte de armas – e quase todos dirão que sim, enfaticamente. Não que sejam caras violentos ou assassinos em potencial, mas só porque estão cansados de pistolas apontadas para as suas cabeças. E de perderem a carga, o caminhão, a vida.

Pergunte a eles sobre política – e vão rir de você. Para os caminhoneiros, “esquerda” ou “direita” não significa muita coisa; diz respeito apenas às mãos de direção na estrada. O que esperam do país? Nada demais: combustível mais barato, estradas decentes, segurança, fretes dignos. E a certeza de que, embora longe de casa, saber que existem escolas para seus filhos, hospitais para a família, chances de seguir em frente, de melhorar de vida através da profissão – coisas comuns.

A demagogia populista dos governos anteriores facilitou a compra e encheu as estradas de caminhões – esquecendo, no entanto, de cuidar das etapas anteriores: desenvolvimento econômico, produção, bons fretes, dinheiro honesto circulando.

Os caminhoneiros já tomaram consciência de sua força. Então, cuidado aí, senhores políticos, juristas, engravatados em geral. Não abusem da arrogância, da prepotência, da desfaçatez, dos discursos inócuos. Caminhoneiro não entende esse tipo de linguagem nem tem muita paciência para compreendê-lo.

O Brasil está ouvindo a voz das ruas nas manifestações, mas precisa escutar com mais atenção o grito crescente das estradas. É um grito seguramente mais discreto, menos ideológico e desprovido de qualquer glamour, porém é capaz de parar o país de uma vez, na marra, se lhe der na telha.   

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

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