Brasil

08/07/2019 | domtotal.com

Meu creeeeedo

Creio em tanta coisa que não cabe tudo neste espaço pouco cósmico.

Creio, enfim, na infinitude deste mundo belo e louco, eterna e dramaticamente bíblico, repleto de míseros abastados e miseráveis em geral, e vazio de misericórdia.
Creio, enfim, na infinitude deste mundo belo e louco, eterna e dramaticamente bíblico, repleto de míseros abastados e miseráveis em geral, e vazio de misericórdia. (johnhain/Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Sou cético raras vezes, e assim mesmo um cético antisséptico. Na verdade, creio em quase tudo.

Creio em Deus todo-poderoso e em seu filho único, Jesus Cristo, assim como creio na sua e nossa santíssima mãe Maria.

Creio nos dois são José, o carpinteiro de Nazaré e o são José lá do Jacuri, assim como creio nos pés descalços de Francisco, o santo, e na humildade sábia de Francisco, o papa.

Creio na criação do mundo, obra grandiosa concluída em sete dias (com um de descanso), e por coerência creio em Eva, Adão, Caim, Abel, assim como na víbora falante, peçonhenta e malvada do Jardim do Éden.

Creio em Noé da arca e no Noel papai do Natal, na manjedoura, nos presépios e nas presepadas, nos bichinhos do Natal, no próspero Ano Novo, nos Reis Magos (todos os três) que em seus camelos levaram incenso, ouro e mirra como presentes de Natal para o Menino Deus.

Creio nas torres em geral. A de Babel, a inclinada de Pisa, a Eiffel, a do Big Ben, as gêmeas destruídas em Nova York, as duas do xadrez e aquela que foi erguida indevidamente nos fundos da igreja da minha terra.

Creio na Capela Sistina e nos cânticos à capela, na Carmina Burana, no Coliseu, no superfaturamento das obras dos estádios para a Copa dos 7 a 1, nos cofres da Suíça, nas férias do dinheiro público em paraísos fiscais.

Creio na Michele do Bolsonaro, no topete do Trump, no araxaês caipira do Zema, na presunção de não inocência do Lula, na malvadeza da cachaça 51, no Carnaval de Veneza, nos pombos da Praça São Marcos e no leão da Metro.

Creio nas tornozeleiras eletrônicas, nas delações premiadas, nas prisões domiciliares, na desarmonia do Supremo Tribunal, nas crônicas de Narnia e nas mágicas do Mágico de Oz e nos escritos do outro Oz, o Amós.

Creio nos hackers comprados e nos gratuitos, na invasão dos celulares e computadores, na divulgação de verdades não verdadeiras, também conhecidas como fake news, no porginglês do Gleen e nos maridos nervosos de reis barbudos ou imberbes.

Creio na inteligência das louras, mesmo as platinadas, em Marilyn Monroe, Kim Novak, Xuxa e Ana Braga, no Cinema Novo e na Bossa Nova, no Realismo e no Neorrealismo, na Nouvelle Vague de Goddard, nos pagodes dos pagodeiros Zeca Pagodinho e Tião Carreiro do Pagode em Brasília, nos cabelos das mulatas, nas marchinhas de Carnaval, na Palma de Ouro do Pagador de promessas.

Creio na sincera pouca vergonha dos eleitos para cargos executivos e legislativos, nas pesquisas de opinião, manipuladas ou sérias, nas mentiras que sobem às tribunas e desembarcam nas mídias eletrônicas, telefônicas, radiofônicas, televisivas e impressas e as nas que vagueiam pelas ruas e pelas redes.

Creio na poesia de Bilac, de Castro Alves, Bocage e Camões, nas memórias escritas pelo finado Brás Cubas de Machado, nas Veredas de Rosa, nos Sertões de Euclides, em Budapeste onde Chico foi dar, nas trovas do nosso Olympio Coutinho e na Viagem aos seios de Duília, empreendida por outro grande Machado, este um Machado mineiro.

Creio no botox, no in box, no Xbox, no boxe, na capoeira, no MMA e no sorriso da Gioconda.

Creio em todas as redes, do vôlei, do tênis, do futebol, de intrigas e sociais, nas correntes do bem e do mal.

Creio nos imprevidentes personagens da reforma da Previdência e nos embates entre direitistas ferrenhos e esquerdistas patéticos na gaiola das loucas do Congresso nacional.

Creio por piedade nas tolices dos patetas do ministério, nas briguinhas dos poderes da República, nas chicanas jurídicas e nas prisões em oitava instância.

Creio na intransigência dos esquerdistas e direitistas e até na possibilidade de existência de radicais inteligentes, assim como nos hackers gays e nos hackeados héteros.

Creio nas máquinas de tecer, de escrever e de costurar, no batismo da gasolina e dos fiéis nas águas do Jordão.

Creio na poderosa militância das milícias, nos fuzis do presidente e do Rui Guerra, no Corcovado, no Cristo Redentor e nas antigas maravilhas da extinta Cidade Maravilhosa.

Creio, enfim, na infinitude deste mundo belo e louco, eterna e dramaticamente bíblico, repleto de míseros abastados e miseráveis em geral, e vazio de misericórdia.

Creio em tanta coisa que não cabe tudo neste espaço pouco cósmico. Por isso, paro por aqui com este meu credo provisório e didaticamente inútil, esperando Godot. E termino como comecei: Creeeeeeedo!

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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