Religião

10/07/2019 | domtotal.com

Mulheres tiveram funções litúrgicas no cristianismo antigo, defende pesquisadora

Dra. Ally Kateusz examina artefatos do quinto século que parecem representar mulheres em funções litúrgicas.

Mosaico oculto de Maria com o pálio episcopal com uma cruz vermelha, Capela de São Venâncio, Batistério de Latrão.
Mosaico oculto de Maria com o pálio episcopal com uma cruz vermelha, Capela de São Venâncio, Batistério de Latrão. (Giovanni Battista de Rossi, mosaicos cristãos e ensaios sobre o chão das igrejas de Roma antes do século XV)

Por Christopher Lamb
The Tablet

O debate sobre a ordenação feminina na Igreja Católica depende do papel das mulheres no cristianismo primitivo.

Quando abordou a questão das mulheres diaconisas, o papa disse que a comissão por ele montada para examinar as origens históricas das diaconisas não chegou a um consenso nem conclusão de elas, de fato, terem recebido a ordenação sacramental ou não.

Ele disse a um grupo de irmãs superioras de congregações religiosas no mês passado: "Eu não posso fazer um decreto sacramental sem um fundamento histórico teológico".

Quanta ênfase pode ser dada à arte ou aos artefatos da Igreja primitiva?

Dra. Ally Kateusz, pesquisadora associada do Instituto Wijngaards e historiadora, acredita que há muitas evidências mostrando que as mulheres estavam presentes nos altares.

Ela esteve em Roma esta semana para apresentar sua teoria na Pontifícia Universidade Gregoriana em uma palestra e discutir as descobertas que estão em seu livro Maria e as mulheres cristãs primitivas: liderança oculta, publicado este ano por Palgrave Macmillan.

Nesse livro, dra. Kateusz examina artefatos do quinto século da Antiga Basílica de São Pedro, em Roma, e da Hagia Sophia, em Constantinopla, que parecem representar mulheres em funções litúrgicas.

"Esses artefatos antigos mostram a liturgia cristã primitiva como foi realizada naquela época", disse a pesquisadora enquanto estava em Roma. “Uma liturgia de gênero pareado – homens e mulheres no altar”.

O argumento de dra. Kateusz é que os primeiros cristãos foram influenciados por seitas judaicas como os Therapeutae, um grupo que existia fora de Alexandria, e que dava papéis na liturgia a homens e mulheres na ministração dos cultos.

Terceiro artefato mais antigo para retratar pessoas no altar de uma igreja real; A-C Anastasis, JerusalémTerceiro artefato mais antigo para retratar pessoas no altar de uma igreja real; A-C Anastasis, Jerusalém

“Uma teologia abrangente para a liturgia poderia considerar a partir da passagem paulina que ‘não há nem judeu nem grego, porque ambos, judeus e gregos, eram líderes na ecclesia; não há nem escravo nem livre, porque ambos eram líderes na ecclesia; e não há nem homem nem mulher, porque ambos eram líderes na ecclesia”, disse Kateusz.

A acadêmica é historiadora da antiguidade tardia e tem lecionado na Webster University, no Missouri, e na University of Missouri-Kansas City. Seus interesses, conforme diz, são principalmente culturais e históricos, e não teológicos.

Um dos dois artefatos mais antigos para retratar pessoas no altar de uma igreja real; Segunda Hagia Sophia, Constantinopla, Frente de sarcófago de pedra, ca. 430Um dos dois artefatos mais antigos para retratar pessoas no altar de uma igreja real; Segunda Hagia Sophia, Constantinopla, Frente de sarcófago de pedra, ca. 430

Em seu livro, Kateusz também aponta para uma capela com um mosaico de San Venantius no Batistério Laterano, em Roma, que mostra Maria usando o que parece ser um pálio, um símbolo da autoridade episcopal dada aos novos arcebispos. Ela cita um historiador de arte russo, Alexei Lidov, que descreve o mosaico do século 7º como um símbolo do sacerdócio de Maria. Em 1916, no entanto, o Vaticano proibiu imagens de Maria vestidas com essas roupas e a figura foi posteriormente obscurecida.

Dra. Kateusz não é a única pessoa que tem examinado o papel das mulheres na Igreja através da arte e dos artefatos antigos. Em seu livro de 2017 Crispina e suas irmãs: as mulheres e a autoridade no início do cristianismo, (Fortress Press), a irmã Christine Schenk diz que a arte sobre os sarcófagos dos séculos 3º e 5º mostra mulheres ensinando e pregando.

A freira da congregação das Irmãs de São José, com sede nos EUA, foi inspirada a escrever o livro depois de uma visita ao museu de antiguidade cristã Pio Cristiano, nos Museus Vaticanos, doze anos atrás, onde notou uma mulher em destaque central, segurando um livro num modo de pregação, cercada por figuras masculinas de discípulos.


Publicada originalmente por The Tablet.


Tradução: Ramón Lara

EMGE

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