Cultura

09/07/2019 | domtotal.com

Verdades e mentiras em 'The affair'

A série é um melodrama adulto sobre relacionamentos, mas também se insere na seara de outros gêneros.

A série impressiona pelo trabalho meticuloso de elenco e roteiristas e caminha para sua última etapa com ares de missão cumprida.
A série impressiona pelo trabalho meticuloso de elenco e roteiristas e caminha para sua última etapa com ares de missão cumprida. (Copyright Paul Sarkis/SHOWTIME)

Por Alexis Parrot*

Meio que escondida no caudaloso catálogo do Netflix, uma verdadeira jóia aguarda ser descoberta, degustada e apreciada. O título (apelativo à primeira vista) é direto, mas pode afastar aquele telespectador mais desconfiado. Se for o seu caso, livre-se já da desconfiança e experimente. Trata-se de The affair, série inteligente e viciante, já na quarta temporada - a quinta e última estreia em agosto nos EUA.     

Um professor do ensino médio, pai de quatro filhos e casado com uma rica herdeira nova-iorquina se envolve com uma garçonete do balneário de Montauk, cidade praiana real da região dos Hamptons, no extremo leste do estado. O que era para ser apenas mais um período desagradável de férias de verão na casa dos sogros, transforma-se em uma viagem sem volta, interferindo permanentemente não só na trajetória dos dois amantes, mas nas vidas de todos à sua volta.

O tal professor, vivido pelo ator britânico Dominic West (da seminal The wire), é Noah Solloway, um romancista frustrado que sonha com fama e sucesso, após o fiasco editorial de seu primeiro livro. A tal garçonete é Alison Bailey (Ruth Wilson, a psicopata da série inglesa Luther em seu primeiro papel de protagonista), mergulhada em culpa e sofrimento há alguns anos, após a morte  por afogamento do filho pequeno.

A sensação de fracasso corrói a existência de ambos e seu encontro parece ser uma oportunidade de redenção. Mais do que isso, algo que talvez permita um recomeçar – e a este projeto, lançam-se com fúria. Só não se pode dizer que tudo em seu entorno inicia a desmoronar porque já habitavam em escombros; cada um, à sua maneira, suportando as próprias perdas e insatisfações. Enxergaram um no outro o match perfeito, como em um conto de fadas contemporâneo. Ele queria se sentir um príncipe, ela queria ser salva.

A partir dos créditos de abertura de cada episódio, embalados por imagens oníricas de ambientação marítima e a música tema de sonoridades celtas (trabalho tão belo quanto estranho da cantora e compositora Fiona Apple), tudo leva a crer que a tragédia ronda a vida destes personagens. A música, uma enigmática conversa com uma criança, diz o seguinte:

Eu gritava no canyon
no momento de minha morte
o eco que criei
sobreviveu ao meu último suspiro.

Minha voz provocou uma avalanche
e soterrou um homem que nunca conheci
e quando ele morreu, sua noiva agora viúva
conheceu seu pai e fizeram você.

Eu só tenho uma coisa a fazer:
Ser a onda que eu sou e então
afundar de volta no oceano.

Como o deslocamento das ondas mimetizado na canção, segue também a trajetória dos personagens. São idas e vindas sucessivas, da praia para o fundo do mar, do amor para o abandono, do sucesso para o fracasso, do céu para o inferno, com direito a várias segundas chances (não raro desperdiçadas) para que o movimento recomece.  

A série é um melodrama adulto sobre relacionamentos, mas também se insere na seara de outros gêneros: o do mistério policial (com direito a um assassinato na primeira temporada, um atentado na terceira e um desaparecimento na quarta) acompanhado por um caso de tribunal (na segunda temporada) e a tradição da campus novel da literatura (também no terceiro ano do programa). 

A primeira temporada, toda contada em flashback, estabelece ainda a estrutura narrativa da atração – seu grande trunfo. Os episódios são divididos em duas partes, cada uma narrada a partir do ponto de vista de um dos personagens centrais.  

À medida em que Noah e Alison vão rememorando sua história durante os interrogatórios conduzidos pelo policial que investiga o crime, conhecemos não exatamente o que houve, mas versões de um e de outro para os acontecimentos que os conduziram até ali.

O expediente não é novo. Kurosawa foi o primeiro a usá-lo com força total no clássico Rashomon, de 1950. Depois dele, já vimos a mesma estratégia em um sem número de filmes como Ele disse, ela disse (com Kevin Bacon e Elizabeth Perkins, 1991); Divórcio dele, divórcio dela (com Richard Burton e Liz Taylor, 1973) e Herói (o épico dirigido por Zhang Yimou em 2002), por exemplo.

A história nunca é a mesma. Cada um vai se lembrar de como tal fato aconteceu de acordo com o seu envolvimento na situação e a partir da imagem que tem de si mesmo e das outras pessoas. Como na vida real, em que muitas vezes moldamos nossa própria memória para se adequar àquilo que gostaríamos de ser ou ter sido.

Não se trata de estar certo ou errado ou ainda de algum embate entre mentira e verdade. Por puro instinto de autodefesa, vemos o que queremos ver ou o que conseguimos ver – faz parte da nossa condição humana e disso não é possível escapar.  

The affair consegue encarnar este princípio com grande propriedade ao se utilizar inclusive de detalhes para marcar as diferenças de ponto de vista. Uma simples mudança de figurino pode reforçar ou desmentir um estado de espírito ou uma intenção. Se foi fulano ou beltrano que disse primeiro um "eu te amo", o significado da cena pode acabar apontando para direções opostas.

A partir do segundo ano da série, os cônjuges originais de Noah e Alison ganham o mesmo destaque. Passamos a acompanhar o desenrolar da trama também pelos olhos de Helen (Maura Tierney, sensacional como sempre, no papel da mulher abandonada refazendo a vida após o fim do casamento) e de Cole (Joshua Jackson, marcado eternamente pelo adolescente com baixa autoestima que interpretava em Dawson's creek). O aumento da polifonia só compete para deixar o quebra-cabeças mais complexo e interessante.

Ainda que com retrocessos e avanços temporais, a timeline é uma só. Com quatro variáveis à disposição, nunca sabemos exatamente qual outro lado da situação será mostrado a seguir. Esta manipulação da expectativa do público é bem conduzida e ferramenta preciosa para estabelecer ganchos e aumentar o suspense.   

Ao explorar um território baseado na opacidade, a série propicia um instigante jogo. A verdade objetiva cede lugar ao que realmente importa, dramaturgicamente falando: a construção psicológica de cada personagem, o vislumbre que temos do engajamento real de cada um e a percepção de como se movimentam subjetivamente no tabuleiro do roteiro cheio de viradas surpreendentes.  

O trabalho de todo o elenco é também digno de nota, mas é Dominic West que merece os maiores louvores. Um marido infiel, por si só, já seria um personagem de difícil empatia com o público, mas o Noah Solloway criado pelo ator é tão abundantemente recheado de verdade, mesmo com todas as contradições à mostra, que se torna quase impossível não se afeiçoar a ele – ou mesmo torcer por ele.

Se fosse preciso escolher, dois momentos já seriam o suficiente para justificar a presença de West neste The affair. Primeiro, em uma sessão de terapia na segunda temporada, um longo diálogo com a psicóloga (Cynthia Nixon, em participação especial) serve para que o personagem abaixe aos poucos a guarda e consiga mostrar o que espera de si mesmo em face à vida, que tipo de homem deseja ser.

O segundo momento é uma breve cena (no final do episódio 8 da quarta temporada) quando Noah se permite um ataque de choro, sentado sozinho na mesa de um dinner, a imagem mais fiel do desamparo. A interpretação é tão tocante que merece entrar na lista dos choros mais marcantes de todos os tempos – lado a lado com Demi Moore em Ghost, e Al Pacino no Poderoso chefão 3, abraçado ao corpo da filha assassinada nas escadarias do teatro de Palermo.  

Ambas as sequências escancaram toda a vulnerabilidade do personagem e qualquer escorregadela poria tudo a perder. Quando ele atinge o tão esperado sucesso com o segundo livro (um pornô chique baseado na própria experiência a partir do romance extraconjugal), West brilha novamente, ao saber dosar toques de deslumbre, euforia e mesquinharia, porém, sem perder nunca o tom do personagem, humanamente imperfeito.

A série impressiona pelo trabalho meticuloso de elenco e roteiristas e caminha para sua última etapa com ares de missão cumprida. Fiel à matriz narrativa de onde bebe fartamente, The affair soube incorporar a lição deixada por Rashomon, em uma de suas frases mais memoráveis: "Mentir é humano. A maior parte do tempo, não conseguimos ser honestos nem com a gente mesmo."

(THE AFFAIR – quatro temporadas disponíveis no Netflix)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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