Religião

15/07/2019 | domtotal.com

Nem deus na causa. Ou: sem Deus na causa

Pensar e crer em um Deus solidário aos nossos sofrimentos não deve nos fazer ceder num conformismo.

A justiça de Deus passa pelo comprometimento daqueles e daquelas que trilham um caminho de humanização.
A justiça de Deus passa pelo comprometimento daqueles e daquelas que trilham um caminho de humanização. (Gift Habeshaw/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Uma pergunta comum, quando estamos em meio ao sofrimento, é a respeito de onde está Deus. A teologia cristã pós-guerra buscou refletir essa questão, diante do horror do Holocausto, voltando o olhar para a cruz daquele que é o próprio Filho de Deus, Jesus. Buscando compreender onde estava Deus diante do sofrimento do seu próprio Filho, uma palavra sobre Deus mais responsável pôde ser dita pela teologia cristã. O Deus metafísico estava morto, tal como apregoado e profetizado pela filosofia moderna. Que Deus, então? O Deus capaz de sofrer junto do seu povo, solidário, porque, pela encarnação-cruz do seu próprio Filho, assumiu plenamente o que nós somos.

A resposta afirmando essa solidariedade de Deus para conosco em meio ao sofrimento não pode ser rápida nem fácil, no entanto. Isso porque o sofrimento não deve ser relativizado. A fome, por exemplo, não é relativa: ela é absoluta! Pensar e crer em um Deus solidário aos nossos sofrimentos não deve nos fazer ceder num conformismo, tal como muito se incentivou, religiosamente, quando se levava as pessoas a crerem que a solução para tudo estaria no paraíso, e só no paraíso. Não podemos, também, crer que a solução para todos os sofrimentos humanos estão aqui, ao nosso alcance. Há sofrimentos que estão aí, e são próprios de nossa finitude. Entretanto, há sofrimentos provocados, frutos apodrecidos de nossas próprias mãos (des)humanas.

Crer num Deus que se solidariza com nossas dores e que as sofre em nossa companhia é razão de fé para que sejamos encorajados a lutar contra esses sofrimentos que, causados pelo pecado, tornam-nos escravos e imersos numa teia de injustiça. Há sofrimentos injustos ao nosso redor, bem como há em todo o mundo, marcado por um sistema que lucra com a morte. Essa situação deve, eticamente, desinstalar-nos, inquietar-nos. É humanamente desprezível que assistamos, sem compaixão, a essas tragédias cotidianas que se impõem aos empobrecidos e empobrecidas. Não há deus nessa causa, porque se não nos comprometermos com a transformação da realidade, não há possibilidade de que Deus atue nessa causa. Deus nos é solidário, mas essa coisa é nossa!

No Brasil, temos visto a atuação diabólica do deus mercado, que tem nos destruído como nação. Desigualdades, historicamente instaladas, aprofundam-se em prol do lucro de uns poucos. Toda tentativa – quase que inexpressiva, vale dizer! – que se levanta para ir à contramão dessa perversidade tem sido condenada e perseguida. Estarrecedor é que haja aqueles que, pretensamente em nome de Deus, dão razão a esse aprofundar das desigualdades, celebrando a vitória da morte que tem se imposto sobre minorias sociais que, numericamente, são maioria em meio à população. Não é possível servir a dois senhores e, nessa disputa, o deus dinheiro tem levado a melhor, largamente. Uns poucos que tornam, por puro gozo abjeto de poder, uma imensa massa em minoria injustiçada e oprimida. Deus, o Deus de Jesus, sofre solidário a essa imensa massa, mas silencioso, quando aqueles e aquelas que se dizem seus seguidores e filhos se calam e se omitem frente à injustiça. As nossas mãos que se põem a lutar contra a injustiça é que são a voz de Deus!

Não há mágica que nos salve. Não há deus que num estalar de dedos resolva nossa situação. Esse deus, profusamente pregado em muitas igrejas, em nossos tempos, não é real, tem pés de barro. A justiça de Deus passa pelo comprometimento daqueles e daquelas que trilham um caminho de humanização. Deus não está acima de todos, tampouco o Brasil acima de tudo: a injustiça impera, a morte reina e nos ameaça para o lucro desmedido de alguns. Impuseram um deus nessa história: ele não traz vida, ele não ganha nossa causa. O Deus de Jesus, porque é amor, condói-se conosco em nossa aflição: sejamos sua voz!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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