Brasil

14/07/2019 | domtotal.com

O sigilo médico

Quando criança, ouvia de meu pai - também médico - que o segredo sacerdotal do confessionário, era tão importante quanto o do médico em seu consultório.

Hoje, envergonha-me a apresentação pessoal de certos médicos, parecendo até que foram atropelados, e por uma carroça cheia terra.
Hoje, envergonha-me a apresentação pessoal de certos médicos, parecendo até que foram atropelados, e por uma carroça cheia terra. (skeeze/Pixabay)

Por Evaldo D´Assumpção*

Acabo de ler que um processo judicial está em curso na justiça do Distrito Federal, permitindo a uma médica, em caráter limitar, divulgar na imprensa imagens de seus pacientes em situações prévias e posteriores a tratamentos por ela realizados. Em outras palavras, a ridícula sequência promocional do “antes e depois”. Confesso a minha perplexidade diante desse absurdo, pois o sigilo profissional é um dos pilares básicos do exercício digno da medicina.

Em tempos passados, ocupei a coordenação das comissões de ética na especialidade que exercia, assim como nas de hospitais onde trabalhei. Uma das infrações que para as quais não tinha qualquer tolerância, era a utilização de fotos de pacientes, antes e depois de uma cirurgia plástica. Por vezes tendo até o cirurgião ao seu lado, numa evidente utilização da situação para uma promoção pessoal. Recordo-me de uma foto que quase me causou uma reação anafilática, na qual além do profissional e de sua cliente, uma legenda em letras garrafais dizia: “o criador e sua criatura”. Coisa de dar engulhos até em uma marmórea estátua de Hipócrates.

Confesso que a simples propaganda médica em meios de comunicação, já me causa um certo desconforto. Não consigo imaginar doenças e seus tratamentos como produtos a serem comercializados e colocados em cartazes pelas ruas, em programas de TV, ou em qualquer outra mídia para leigos, na mesma condição em que se anunciam sapatos, roupas, verduras e outras mercadorias. Já vi até anúncio de médico inserido – recuso-me a acreditar que por solicitação dele – entre anúncios de garotas e garotos de programa, com seus predicados descritos com riqueza de detalhes. Certamente foi uma infeliz coincidência, ou um erro de paginação do jornal. Mas, propagandas com a exposição do(a) paciente, permitindo sua identificação, valha-me Deus! Não foi essa a medicina que aprendi nos anos 50, com professores cuja dignidade, competência e seriedade, nos eram transmitidas sem qualquer palavra explícita. Bastava seu exemplo de vida e compostura na Faculdade, nos hospitais, na vida pública. Hoje, envergonha-me a apresentação pessoal de certos médicos, parecendo até que foram atropelados, e por uma carroça cheia terra.

Mas a questão do sigilo me parece a mais crucial de todas. Quando criança, ouvia de meu pai – também médico – que o segredo sacerdotal do confessionário, era tão importante quanto o do médico em seu consultório. Imaginem um sacerdote saindo do confessionário e contando em rodinhas o que ali escutou, e de quem o havia escutado. Alguém iria procurá-lo? Já se disse que “o que se escuta numa confissão sacramental, deve ser como se nunca tivesse sido dito”. De forma idêntica o médico, em seu consultório, assim como em qualquer local onde exerça suas atividades, deve silenciar-se, de forma absoluta, a respeito de tudo o que escutou de seus clientes. Só assim ele continuará gozando da confiança de quem está cuidando, podendo ouvir dele todas as informações, mesmo as mais constrangedoras, e que poderão ser a chave mestra para abrir a porta onde se esconde o mal afligindo o enfermo. Um diagnóstico correto e uma terapêutica eficaz somente são possíveis se o enfermo tiver confiança absoluta no seu médico.

Em nossa formatura fazemos solenemente o juramento de Hipócrates (Sec. 4º), com os diversos compromissos que ele exigia de seus discípulos, e que eram assumidos diante dos deuses gregos que ele cultuava. E concluía com o mais solene deles: “Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça." Respeitando-se o que foi jurado solenemente, naquela época e ao longo dos séculos e em praticamente todos os países e escolas de medicina, fico me questionando quantos médicos realmente merecem hoje serem honrados e respeitados pela humanidade, tanto quanto pelos seus pares.

Por isso mesmo, quando escuto alguns médicos reclamando que já não possuem o respeito que em épocas passadas era dedicado aos discípulos de Hipócrates, a vontade que tenho é de lhes dizer: “Já experimentaram se olhar no espelho? Já fizeram, uma vez que seja, um exame de consciência para perceber que imagem vocês passam para a sociedade? Se não vocês, a grande quantidade de profissionais diplomados por esse Brasil a fora, muitos deles sem qualquer base filosófica, cultural e ética, que é o lapidar da estrutura bruta formada em faculdades que recebem centenas de alunos, sem sequer ter um hospital de clínicas na cidade onde estão situadas? Já observaram como boa parte dos médicos acolhem os pacientes em seus consultórios, e especialmente em ambulatórios e postos de saúde? Serão eles verdadeiros discípulos de Hipócrates, ou toscos mercadores argentários no tratamento de doenças?”

Também está no juramento hipocrático: “...estimar, tanto quanto a meus pais, àqueles que me ensinaram esta arte;” contudo, observo como muitos médicos mais jovens tratam, sem qualquer deferência ou atitude de especial respeito, àqueles médicos mais idosos, que direta ou indiretamente contribuíram para que eles aprendessem a arte de curar.

Agora, com essa liberação pela justiça da publicação de fotos de pacientes, derruba-se mais um pilar de sustentação da qualidade e seriedade da prática médica. Até onde iremos?

*Médico e Escritor.

EMGE

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