Brasil Política

15/07/2019 | domtotal.com

Ratos roeram os recursos da República

Penso, na minha visão de puro e laico brasileiro, que o pedido de recuperação judicial da Odebrecht é a mais reveladora confissão de culpa.

A Odebrecht e outras empresas construtoras sobreviviam graças ao costume criminoso de pagar pelas concessões, sob pena de não realizar as obras de grande porte, também conhecidas como faraônicas.
A Odebrecht e outras empresas construtoras sobreviviam graças ao costume criminoso de pagar pelas concessões, sob pena de não realizar as obras de grande porte, também conhecidas como faraônicas. (AFP)

Por Afonso Barroso*

Lanço mão de um termo do juridiquês pra dizer que não prospera a tese, levantada pelo esquadrão anti-Moro, de que o juiz da Operação Lava Jato é o responsável pela derrocada da Odebrecht, com a consequente perda de centenas de empregos.

Não, não foi o Moro ou os policiais federais ou os procuradores da Lava Jato que causaram a demissão de engenheiros, técnicos e demais colaboradores colocados pela Odebrecht no olho da rua, segundo se propala. Uso outro termo latino-forense para dizer que labora em mala fide quem assim diz ou pensa. Em verdade, o que levou a empresa a pedir recuperação judicial, nova denominação de concordata, foi a prática delituosa de distribuir propinas milionárias para obter a concessão de obras bilionárias.

A Odebrecht e outras empresas construtoras sobreviviam graças ao costume criminoso de pagar pelas concessões, sob pena de não realizar as obras de grande porte, também conhecidas como faraônicas. As estranhas catedrais de que fala Chico Buarque no samba Vai Passar. Como a Petrobras era a galinha dos ovos de ouro da mamata, os empresários deitavam e rolavam na realização dessas obras, enquanto os corruptos governamentais rolavam e deitavam com o recebimento de recursos que abasteciam generosamente suas contas bancárias no Brasil e lá fora.

Penso, na minha visão de puro e laico brasileiro, que o pedido de recuperação judicial da Odebrecht é a mais reveladora confissão de culpa. Por que não mudar o nome da empresa e aproveitar seus colaboradores, gerentes, engenheiros, administradores, além das máquinas, equipamentos e know how, para tocar em frente os negócios? Se pede recuperação judicial é porque não sabe agir de outra forma que não por meio de corrupção. Será que não há ou havia, no quadro amplo de colaboradores da empresa, pessoas capazes de não deixar que o barco afundasse de vez? E, principalmente, de gerir a empreiteira sem a prática de distribuir propinas?

Quem criou esse estado de coisas foi o Governo. Foi a ganância desenfreada. Foi a facilidade de enriquecimento ilícito, possibilitado pela dinheirama que jorra dos poços da Petrobras. Foi, enfim, o que se denomina corrupção passiva, sem a qual a corrupção ativa não tem como agir. São conhecidos os casos de superfaturamento nas obras e de super-super nos adendos, que se sucediam indefinidamente e multiplicavam os custos previstos, com incessante doação de propinas. Quanto mais demorasse a obra, mais o propinoduto enchia os bolsos dos ativos corruptos passivos.

Portanto, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, não se pode debitar à Lava Jato a possível quebra de grandes empreiteiras. Foi o Governo corrupto que as prostituiu de forma irreversível.

Todos já ouvimos falar na gravidez da montanha que pariu um ratinho. No caso em questão, não foi bem assim. A montanha de dinheiro da Petrobras pariu um punhado de ratos e ratazanas que roeram os recursos da Nação. Os abomináveis ratunos.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas