Religião

16/07/2019 | domtotal.com

Cristãos diabólicos

Muitas pessoas podem até carregar o nome de cristãos sem sequer medir as consequências que essa nomeação significa para a vida.

Bolsonaro recebe bancada da Frente Parlamentar Evangélica em 11 de Julho, dia seguinte ao da aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados.
Bolsonaro recebe bancada da Frente Parlamentar Evangélica em 11 de Julho, dia seguinte ao da aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados. (Antônio Cruz/Agência Brasil)

Por Tânia da Silva Mayer*

Já faz tempo que o homem Jesus de Nazaré andou por muitos lugares fazendo o bem e convidando todas as pessoas a acolherem o Reino que ele veio inaugurar. No entanto, esse convite não vinha acrescido da promessa de uma vida fácil e concorde ao poder. Antes, alertava para o caminho do amor e do serviço aos outros, a partir da conversão do coração. Jesus ensinou que a novidade do Evangelho exige uma mudança de vida que já não deixa ninguém possuir os velhos hábitos e vícios. Por isso, a decisão de seguir Jesus deve ser livre e consciente, consequência de uma maturidade pessoal que superou a esfera dos interesses primários e dos encantamentos imediatos.

É preciso considerar que a fé em Jesus Cristo chegou até nossos dias por diversos caminhos. Muitos destes são tortuosos e marcados esquizofrenicamente por um testemunho contrário ao Evangelho, porque tecidos à base de dominações, violências e escravidões. A fé cristã, tal como a maioria de nós a recebemos, é fruto da transmissão de uma cultura de massa que já não requer a decisão convicta e individual de se tornar um cristão. Desse modo, muitas pessoas podem até carregar esse nome sem sequer medir as consequências que essa nomeação significa para a vida.

O censo de 2010 marcou a oscilação que aconteceu entre o catolicismo e as igrejas evangélicas, mas indicou que, apesar do crescimento ou diminuição entre esses públicos, a fé cristã ainda é confessada por maior número de brasileiros. Por isso, mesmo em nosso país marcadamente formado sob a matriz do cristianismo, em diversos momentos, à custa da subalternação de outras fés e expressões religiosas, encontramos os fortes ecos de uma sociedade radicalmente rompida com o Evangelho de Jesus.

Caso fosse diferente, os casos de abuso e violência de mulheres e crianças seriam menores e repudiados com veemência pelos que se confessam cristãos. As pessoas LGBTIs seriam tratadas com respeito e dignidade e seus corpos não seriam atingidos por objetos cortantes nas calçadas do país. Fosse cristão, o país não toleraria seu exército alvejar e assassinar com mais de oitenta tiros o músico negro que passeava de carro com sua família. Também não toleraria o silêncio das autoridades sobre o perverso assassinato de uma jovem vereadora do Estado do Rio de Janeiro. Fosse cristão, repudiar-se-ia cada gesto de arma reproduzido diante das câmeras e filmadoras por um homem que, já sabemos, não é cristão, entre outras coisas.

O comportamento é decisivo para verificar com qual espécie de cristianismo uma pessoa pode estar comprometida. Certamente, quem adere às violências, age segundo os próprios interesses e não se importa com os pobres, os trabalhadores e os idosos, agindo de modo a descartá-los ou condicioná-los a uma vida ainda mais precária, insurgiu-se contra o Evangelho e já rejeitou o convite de Jesus para promover a vida plena do Reino no aqui e agora da história. Esse é o caso dos parlamentares evangélicos e católicos que votaram favoravelmente pela Reforma da Previdência Social elaborada pela equipe econômica do governo de Jair Bolsonaro. Como é do conhecimento de todos, o dinheiro que será poupado pela reforma vai fazer do Brasil uma nação de miseráveis, mortos de fome e escravizados.

Do ponto de vista da fé cristã, esse projeto significa tudo o que há de mais diabólico no ser humano e que o faz escolher o caminho da morte em detrimento daquele que promove a vida. Por isso, vê-se que tanto os parlamentares que ostentam o nome de cristãos quanto os demais cidadãos dessas igrejas ditas cristãs assim se denominam não por assentirem ao projeto de Jesus, mas o fazem por conveniência cultural. Estes agem não como fruto de quem ouviu a palavra do Mestre e reorientou a própria vida segundo essa palavra, mas segundo os próprios projetos de poder. Mais que traidores da pátria, esses “terríveis cristãos” são traidores da fé em Jesus Cristo, do Evangelho e do Reino da vida, já não merecem o nome que nem sabem o porquê o carregam.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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