Cultura

16/07/2019 | domtotal.com

Stranger Things 3 e o mercado da nostalgia

Uma vez desvirtuada a ideia de saudade e nostalgia, Stranger things nos desloca do lugar de telespectadores para nos transformar em meros consumidores.

Meninos e meninas que em 85 nem sonhavam ainda em nascer, começam a suspirar por lembranças que não possuem.
Meninos e meninas que em 85 nem sonhavam ainda em nascer, começam a suspirar por lembranças que não possuem. (Divulgação Netflix)

Por Alexis Parrot*

Em 1985, para barrar a preferência da Pepsi no mercado interno norte-americano, a Coca-Cola cometeu um imperdoável erro comercial - e um dos maiores já perpretados na história da indústria mundial. A empresa substituiu sua marca e produto principal (um sucesso indiscutível de quase cem anos à época) por um troço chamado New Coke; menos gasoso e mais açucarado que a receita original, tentando imitar o sabor da rival.

A rejeição ao novo refrigerante foi tão retumbante que a novidade não chegou a completar três meses nas prateleiras dos supermercados. A gororoba foi retirada de circulação e tudo voltou a ser como era, para alívio dos amantes do elixir negro borbulhante versão raiz e para o faturamento da Coca-Cola (que continua até hoje muito bem, obrigado, como é de conhecimento público).      

"O original é um clássico. Mas o remake é mais doce, mais ousado e melhor". A frase de Lucas (Caleb McLaughlin) refere-se à malfadada Coke, mas pode muito bem ser aplicada a esta nova temporada da série sensação Stranger things, disponível no Netflix desde 4 de julho.

O original, no caso, pode ser tanto as etapas anteriores da série, quanto o filme Os Goonies, matriz principal de onde se decalca todo o espírito aventureiro e possíveis lições de moral que a atração possa suscitar. Ou, se formos ousados mesmo (como queria ser a Coke e o que me parece ser a grande pretensão dos irmãos Duffer, os criadores do programa), a própria noção do que foram os anos 80.

Acredito fortemente que o cinema e a ficção da televisão são a concretização do sonho de H. G. Wells, como descrito em seu livro, A máquina do tempo - e, à primeira vista, dessa maravilhosa possibilidade só poderiam advir coisas boas. Mas a tese encontra seus limites, como quando esbarramos em questões como a que me parece ser proposta, dada a escolha de época para os acontecimentos vividos pelos moradores de Hawkins: reviver um tempo seria melhor do que vivê-lo? E isso poderia acarretar efeitos colaterais?

O que começou como pura homenagem, graças à imensa repercussão atingida, virou grande sacada comercial. Os produtores da série entenderam que a nostalgia pode ser um bom negócio e render muito dinheiro. A ressurreição que os goonies do novo milênio fazem da década do new wave traz a reboque um culto por produtos e marcas do passado, fazendo agradável cosquinha na memória de quem viveu aquele tempo.

Porém, meninos e meninas que em 85 nem sonhavam ainda em nascer, começam a suspirar por lembranças que não possuem. Graças à identificação que sentem pelos personagens, são instados a se apropriar de uma estética de época que passam a ver como sua e brinquedos, roupas, cereais e até a música daquele momento passam a ser objeto de desejo.

Uma vez desvirtuada a ideia de saudade e nostalgia, Stranger things nos desloca do lugar de telespectadores para nos transformar em meros consumidores. Não por acaso, o cenário principal desta terceira temporada é um shopping center com lojas da GAP e Burger King; e, cena sim, cena não, alguém está comendo diretamente da caixa punhados de cereais da Kellogg's.  

Ou, o que dizer sobre Onze e Max (já não tão mais Mad) experimentando roupas e mais roupas em uma loja da JCPenney ao som de Madonna cantando Material Girl?

Há também o contraponto, ainda que insuficiente, frente a tanto merchandising descarado. A defesa do american way of life fica a cargo do prefeito corrupto que justifica seus atos dizendo: "Não sou eu, é apenas o bom e velho capitalismo americano". A crítica continua, divertida mas sem maiores repercussões, pela boca do sempre interessante Murray, um jornalista recluso e defensor de teorias de conspiração - portanto, bastante caricato.

Ao oferecer um passeio para um cientista russo, dissidente pela força das circunstâncias, por uma feira típica com direito a parque de diversões e barraquinhas de prêmios no 4 de julho, o personagem se gaba: "Não tem nada mais americano que isso. Comidas gordurosas, decadência e jogos manipulados".

Os russos são entronizados como os grandes vilões da vez, o que faz sentido para uma história ambientada em tempos pré-queda do Muro de Berlim. Pensando bem, dadas as mal contadas escaramuças envolvendo Trump e Putin, talvez também fizesse sentido se tudo se passasse nos dias de hoje.  

A série continua forte naquilo que sempre foi seu destaque: o carisma dos protagonistas e diálogos excepcionais aliados a um bem amarrado roteiro e à vontade de levar os gêneros do terror e suspense a sério. Ainda assim, a fórmula apresenta cansaço neste retorno e a intenção anunciada de dar seguimento às aventuras por apenas mais um ano parece sábia.

Mesmo com um início meio arrastado, vale a pena insistir porque os dois últimos capítulos (assim nominados na tentativa de evocar mais um livro que um seriado) são de se tirar o chapéu - com direito a uma quebra de expectativa que celebra a diversidade e desafia exemplarmente o preconceito com que o conservadorismo abjeto tenta nos acuar hoje em dia. 

A estratégia de dividir a narrativa em três núcleos independentes que se juntam no final deu certo na temporada passada e segue funcionando. Mas é inegável o diferente grau de interesse que geram, se comparadas cada uma das linhas pelas quais a história é contada.

As inspirações e referências ao pop dos anos 80 seguem firmes e vão se acumulando. Primeiro, Os Goonies de ponta a ponta; depois a citação carinhosa aos Caça-fantasmas na segunda fornada de episódios do programa, abrindo caminho para que agora o homenageado fosse o inesquecível De volta para o futuro. (Curiosamente, é a Pepsi que faz merchandising no filme de viagens no tempo, além de ter contratado Michael J. Fox para ser garoto propaganda da marca em um comercial de orçamento milionário veiculado na época.)

Se a linha do tempo continuar sem sobressaltos, é lícito pensar que a próxima temporada se passará no verão de 1986 - e aí aposto todas as fichas nos imortais de Highlander para serem os ícones reverenciados da vez.

O monstro, conforme prometido, é mesmo muito mais legal que o visto no segundo ano da série. Ecoa assumidamente a obra de John Carpenter, mas também David Cronemberg (principalmente - mas não apenas - de Calafrios, seu primeiro longa de 1975), o filme Vampiros de Almas e seu remake, Invasores de Corpos.

Stephen King segue como santo padroeiro da atração (desde a logo da abertura e a música tema evocativa, bem como todo o universo construído em torno do mito da cidade pequena do interior, de alguma forma em perigo pelos segredos e mistérios que guarda). Para quem é fã do autor, vale a pena ficar de olho também em Castle rock, série do serviço de streaming Hulu, ainda sem previsão de estreia no Brasil.

Personagens, lugares e situações de vários livros são usados para costurar a narrativa. A primeira temporada gira em torno de acontecidos na prisão de Shawshank (imortalizada no filme Um sonho de liberdade) e uma das moradoras de Castle Rock diz ser sobrinha de Jack Torrance, o zelador de hotel que enlouqueceu e tentou matar a família, como visto em O iluminado. Uma segunda leva de episódios já está sendo rodada, e movimentará personagens ligados à história de Conta Comigo e Louca Obsessão.   

A malha de citações de Stranger things não fica apenas no passado. Uma cena pós-créditos finais foi também incorporada no último capítulo, à moda das que nos acostumamos a ver nos filmes da Marvel. Completamente desnecessária, tenta nos intrigar com o suspense menos misterioso já visto no catálogo do Netflix. Ganha uma Diet Coke quem NÃO adivinhar sobre quem os russos estão falando.

(STRANGER THINGS - Terceira temporada disponível no Netflix)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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