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17/07/2019 | domtotal.com

A história no sorriso de Hannah

Impressionou-o o silêncio, raramente interrompido pelo ranger das rodas de alguma bicicleta ou, de meia em meia hora, pelo som dos sinos das duas imponentes igrejas – a nova e a velha.

Na praça do mercado, a vida parecia parada no tempo.
Na praça do mercado, a vida parecia parada no tempo. (Pablo Pires/Dom Total)

Guardou o mapa e, como tinha algum tempo até o horário do encontro, saiu explorando as ruas de Delft, pequena cidade na Holanda. Mal se recordava da arquitetura típica do século 17, dos canais estreitos e das pequenas pontes, afinal, quase 30 anos haviam se passado desde a última visita. Mais do que a tranquilidade das ruas, impressionou-o o silêncio, raramente interrompido pelo ranger das rodas de alguma bicicleta ou, de meia em meia hora, pelo som dos sinos das duas imponentes igrejas – a nova e a velha.

Na praça do mercado, alguns poucos turistas exploravam as lojas da famosa porcelana azul, outros entravam na grande torre e a vida parecia parada no tempo. Ele se deixou devanear, pensando na história e no contraste entre o velho e o novo convivendo em pacata harmonia enquanto observava um senhor diante de uma carroça antiga. O homem de barba grisalha fazia klompen – os tamancos de madeira holandeses. Esculpia-os com formão, uma tradição centenária que hoje atendia aos turistas, mas que era uma maneira, em outras épocas, de manter os pés secos e aquecidos no chão lamacento e alagado do país.

Seguiu finalmente rumo à casa – o endereço anotado e assinalado no mapa. Lá, reveria amigos depois de décadas e uma súbita ansiedade lhe invadiu o peito. Como seria o encontro? Como seria recordar a amizade há tanto adormecida? Temeu a falta de graça constrangedora, os sorrisos amarelos e a conversa se limitada a lembranças do passado e a piadas sem graça das quais teria que rir junto aos demais. Nenhum de seus temores, porém, se realizaram.

Foi recebido com um sincero sorriso pelo velho amigo e logo seguiram abraços e apresentações das respectivas esposas dos velhos amigos. As mesmas expressões de 30 anos atrás, os mesmos gestos e a mesma curiosidade de querer compartilhar as experiências, de atualizar a vida de cada um: economista, geógrafo e funcionário do governo, professor de física, empresário de moda e, enfim, jornalista.

O anfitrião o puxou para mostrar o imóvel e lhe contou um pouco da história da casa. Construída em 1550, era parte do complexo de um monastério, por isso sua pequena torre no alto, hoje sem o sino que devia marcar os horários sagrados da comunidade medieval de Delft, na província da Holanda do Sul.

À medida em que entrávamos em outros quartos e salas – todos cuidadosamente reformados e adaptados a uma vida moderna – ele soube ainda que a casa havia abrigado um orfanato e parte da brigada do Corpo de Bombeiros. De volta à sala, a parede descascada ganhou outro significado e as marcas dos tijolos expostos eram como testemunhas mudas das muitas histórias constituídas naquele recinto: conspirações, atos heróicos, maldades impronunciáveis contra crianças, encontros amorosos escusos, séculos de conversas, gritos e sussurros.

A entrada da criança correndo pela sala o assustou, fazendo-o regressar de sua viagem pelos séculos passados. Enquanto era apresentado à Hannah, de 6 anos, sentiu-se tão presente e preso ao momento e soube que o sorriso tímido da menina era um novo e alegre capítulo na história daquela casa.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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