Religião

18/07/2019 | domtotal.com

Agentes da Igreja ajudam a manter línguas indígenas vivas

Missionários ajudando a preservar a língua, mantém também tradições e cultura indígenas.

Oficina planejada por jesuítas para ajudar os leigos a melhorarem sua leitura das Escrituras dominicais em seus próprios idiomas, para que possam liderar melhor as liturgias em suas comunidades
Oficina planejada por jesuítas para ajudar os leigos a melhorarem sua leitura das Escrituras dominicais em seus próprios idiomas, para que possam liderar melhor as liturgias em suas comunidades (CNS/Paul Jeffrey)

Por Barbara J. Fraser*
CNS

Em um prédio circular de laterais abertas ao lado da capela católica numa aldeia ameríndia, em Scarboro, o padre Ron MacDonell explica como a língua, os dentes e as cordas vocais trabalham juntos para produzir os sons das palavras.

Seus ouvintes, cerca de 30 líderes leigos das aldeias indígenas Macuxi e Wapichana, na região sul de Rupununi, na Guiana, colocaram seus dedos na garganta para sentir as vibrações enquanto falam várias palavras.

A sessão fez parte de um seminário de dois dias em abril para ajudar as lideranças a melhorar a leitura das Escrituras dominicais em seus próprios idiomas durante as liturgias que ministram em suas comunidades.

Clare Alexander, 40 anos, uma residente Wapichana da vila de Santo Inácio, estava praticando em voz alta nas duas línguas, porque esta aldeia, que fica ao lado da cidade de Lethem, na fronteira entre a Guiana e o Brasil, inclui pessoas de ambos os grupos indígenas.

Perto daí, Elsa Ignacio, com 64 anos, líder da comunidade católica na aldeia de Meriwau, estava aprendendo Wapichana.

"Eu preciso ensinar as crianças, porque estamos esquecendo", disse ela. "As crianças estão aprendendo apenas inglês na escola".

Os missionários jesuítas na Guiana também estão promovendo um programa piloto de educação bilíngue de dois anos, que esperam expandir, disse o padre jesuíta Varghese Puthusserry, que tem trabalhado entre os Wapichana na região de Rupununi nos últimos 10 anos.

Puthusserry se tornou fluente em wapichana porque, embora as pessoas nas comunidades em que ele trabalhava falassem inglês, a língua oficial da ex-colônia britânica, "senti que não estávamos nos comunicando com eles", disse o jesuíta ao Catholic News Service.

Ao longo dos anos, as pessoas foram desencorajadas a falar sua língua nativa, e os jovens que estavam se preparando para a crisma "não conseguiam se expressar em nenhum idioma", disse ele. "Eles não eram proficientes em inglês e perderam sua própria língua".

Isso levou a um programa de alfabetização, que serviu de base para o programa de educação bilíngue que começou em três aldeias.

Para MacDonell, missionário e linguista da província de Nova Escócia, no Canadá, suas duas vocações são uma combinação natural.

"Os missionários tradicionalmente trabalham em terras estrangeiras, por isso estão envolvidos em aprender outras línguas", disse.

Para a maioria, o aprendizado de idiomas é "um meio para um fim, que é o trabalho pastoral ou de evangelização", acrescentou.

Mas para ele, a linguagem é mais do que apenas uma maneira de se comunicar. Abre uma janela para as culturas indígenas e o permite ajudar os povos indígenas a manter sua identidade.

Os primeiros missionários europeus a se aventurarem na Amazônia nos séculos 16 e 17 aprenderam línguas nativas, desenvolveram dicionários e traduziram a Bíblia.

Agora, no entanto, muitas dessas línguas estão em perigo de desaparecer, e os agentes da Igreja estão incentivando as comunidades a mantê-las vivas.

Línguas indígenas sofreram um declínio "drástico" na bacia amazônica, disse MacDonell. Ele espera que o Sínodo dos Bispos para a Amazônia em outubro, uma reunião de bispos no Vaticano convocada pelo papa Francisco, ajude a chamar a atenção para as ameaças à linguagem e a outros aspectos das culturas indígenas.

"A linguística como um ministério na Igreja ajuda os povos indígenas a revitalizar e aprender sua língua, apreciar e valorizar mais sua linguagem", disse MacDonell.

Mais de 300 línguas existem na bacia amazônica, mas muitas são faladas por apenas um punhado de pessoas. As crianças muitas vezes não aprendem as línguas nativas de suas famílias, porque seus pais preferem aprender a língua dominante do país – o inglês na Guiana, o português no Brasil e o espanhol na maior parte do restante da Amazônia.

Em todo o mundo, os linguistas temem que nove em cada dez idiomas desapareçam até o final deste século. Globalmente, apenas um pequeno grupo de idiomas usados com mais frequência em negócios e finanças, como o inglês e o mandarim, está excluindo outros menos difundidos.

Muitas línguas amazônicas já desapareceram desde a chegada dos primeiros missionários.

No século 16, quando os exploradores e missionários espanhóis chegaram pela primeira vez ao que hoje é a região de Beni, no norte da Bolívia, nas terras baixas da Amazônia, havia cerca de 400 grupos indígenas que falavam 39 idiomas. Na década de 1990, apenas três línguas ainda estavam em uso, e uma delas foi considerada seriamente ameaçada.

Muitas outras línguas ainda faladas na bacia amazônica também estão ameaçadas; MacDonell citou várias razões.

Muitos grupos indígenas são muito pequenos e, em alguns, apenas um punhado de pessoas ainda fala a língua. Algumas pessoas que agora são de meia-idade se lembram de serem punidas por falarem sua língua nativa na escola, então pararam de usá-la.

Na esperança de poupar seus filhos de vergonha e dor semelhantes, e desejosos de ter as vantagens proporcionadas por falar a língua dominante do país, esses pais não ensinavam aos jovens a língua materna do povo. Se as crianças não aprendem uma língua, essa língua está fadada à extinção.

As pessoas podem também deixar de falar sua língua nativa quando migram de suas aldeias para cidades em busca de emprego ou educação, em parte porque enfrentam discriminação e em parte porque a língua nacional dominante é a língua oficial.

Quando uma língua se extingue, mais do que apenas palavras ficam perdidas.

"Você perde outra maneira de ver a realidade", disse MacDonell. "Cada idioma filtra nossa experiência humana de uma maneira diferente. Isso fica perdido – essa riqueza, essa diversidade".

A linguagem abre uma janela para a maneira como as pessoas veem e compreendem o mundo.

Quando o povo Macuxi  vê o céu noturno, eles têm uma palavra para estrelas brilhantes e outra para estrelas mais fracas.

"Nós não faríamos essa distinção", disse MacDonell sobre os missionários norte-americanos. "Uma estrela é uma estrela".

Além desses detalhes, outros aspectos da cultura desaparecem quando uma linguagem cai no esquecimento, especialmente entre as pessoas que passam informações de uma geração para a outra através das histórias.

"Você perde uma rica tradição – a história, seus contos, a tradição oral do povo", disse MacDonell.

Essas histórias geralmente contêm sabedoria sobre como as pessoas se relacionam com o mundo natural, incluindo o conhecimento das plantas, crucial para as práticas tradicionais de cura.

Embora essas coisas possam ser escritas, isso significa que o que antes era tradição oral "se torna um fóssil", disse MacDonell. "Você tem um registro disso, mas não se compara com a escuta ou a audição ao vivo da cultura e toda a sabedoria que a acompanha através das pessoas".

Em vários países, no entanto, grupos indígenas estão tomando medidas para manter suas línguas vivas.

Em Nauta, uma cidade no baixo rio Marañón, no Peru, uma estação de rádio administrada por uma Igreja lançou um programa pós-escola em que pessoas idosas Kokoma que ainda falam sua língua nativa ensinam crianças cujos pais não falam kokama em casa.

Alguns dos jovens envolvidos no programa fizeram videoclipes – cantando e fazendo rap em espanhol e kokama.

Os povos indígenas de outros países têm pressionado seus governos a fornecer professores bilíngues para as escolas. No território indígena do Vale do Javari, no oeste do Brasil, na fronteira com o Peru, as crianças falam seu idioma nativo no ensino fundamental, geralmente aprendendo espanhol apenas quando saem de suas aldeias para continuar seus estudos na cidade mais próxima.

Isso garante que a língua nativa permaneça viva e vibrante, mas, por outro lado, pode dificultar a transição para o ensino médio desses estudantes, dizem os missionários.

Em seus primeiros anos como missionário em Roraima, MacDonell trabalhou com catequistas de quatro aldeias para desenvolver um dicionário da língua macuxi. Anos mais tarde, uma dessas pessoas, uma professora, disse-lhe que estava usando o dicionário para planejar aulas para os alunos.

Agora, o padre canadense realiza oficinas para grupos indígenas em várias partes da Amazônia que buscam manter suas línguas vivas. Ele se sente abençoado, disse, por poder, como missionário, combinar o ministério sacramental com seu amor pela linguagem e seu desejo de trabalhar pela justiça entre os povos indígenas da região amazônica.

"Meu combustível é minha própria paixão", disse ele. "No final da minha vida, quando eu me perguntar: 'A minha vida foi proveitosa? Cumpri as expectativas ou convites de Deus para mim?' Eu gostaria de dizer sim".


Publicado originalmente por CNS.


Tradução: Ramón Lara

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Comentários