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18/07/2019 | domtotal.com

Iepha e Iphan recebem ainda neste mês pedido oficial de tombamento de Bento Rodrigues

A intenção é garantir a manutenção de resquícios físicos do distrito, bem como preservá-lo e trazer um alerta para que tragédia como essa não se repita.

Em todo o mundo há patrimônios que servem também para chamar a atenção para episódios dolorosos da história.
Em todo o mundo há patrimônios que servem também para chamar a atenção para episódios dolorosos da história. (Tânia Rêgo/ABr)

Por Daniela Galvão
Repórter Dom Total

O distrito de Bento Rodrigues, no município de Mariana (Região Central de Minas Gerais), totalmente devastado com o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em 2015, pode se transformar em um sítio de memória sensível. Antes da tragédia, a região era um vilarejo com origem no século XVIII, importante centro de mineração e de caráter rural. Após o desastre, que resultou no lançamento de cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos no meio ambiente, Bento Rodrigues passou a ser identificado como o local onde houve a catástrofe que destruiu a Bacia do Rio Doce.

“O local tem um valor histórico muito grande! Desde o relacionado às diversas etapas da mineração e caça a céu aberto, mas também o valor histórico por estar relacionado a esse evento importante e traumático da história. Há valor artístico nas capelas, valor social por meio de memórias, além dos valores paisagístico e espiritual”, ressalta o presidente do Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), professor do Departamento de Análise Crítica e Histórica da Arquitetura da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-presidente do departamento de Minas Gerais do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG), Leonardo Castriota.

De acordo com ele, há no mundo inteiro patrimônios que não são só celebração de beleza e de grandes feitos humanos, mas que servem também para chamar a atenção para episódios dolorosos da história. Entre os exemplos estão a Ilha de Gorée, no Senegal; o campo de Auschwitz, na Alemanha, domo da Catedral de Hiroshima, no Japão; e o cais do Valongo, no Rio de Janeiro. “O cais do Valongo é um bom exemplo. Por este porto chegaram 1 milhão de escravos. Hoje temos resquícios do porto, pequenas ruínas. No entanto, o valor disso está no significado ao qual aquelas pedras remetem. A ideia é que Bento Rodrigues sirva como sitio de consciência. Deveria ser tratado como um museu de território: seria comunitário, com administração da própria comunidade e haveria um memorial que conta a história e os valores identificados no distrito”, explica o presidente do Icomos.

Castriota frisa que o sítio de consciência serve como interpretação do patrimônio, mostrando uma narrativa sobre ele, que remete a um evento trágico, alertando para eventos futuros. “O tombamento visa garantir a manutenção de resquícios físicos, para que não caiam no esquecimento e ruínas se incorporem à natureza, fazendo com que ninguém tenha acesso a essa história. É para preservar esse sítio de memória e trazer um alerta para que tragédia como essa não se repita”.

Pedido de tombamento

O pedido oficial de tombamento de Bento Rodrigues será encaminhado ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha MG) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ainda neste mês pelo Icomos. Bastam alguns ajustes para que o pedido seja enviado, juntamente com um dossiê preparado após três anos de trabalho de pesquisadores da Escola de Arquitetura da UFMG no distrito, acompanhado por 15 especialistas do Icomos Brasil. O documento conta com mais de 400 páginas e traz fotos, depoimentos, dados e análises.

O dossiê, coordenado por Leonardo Castriota, contribuirá para o tombamento de Bento Rodrigues. Após a tragédia no distrito, o Icomos foi procurado pelo MP, ainda em 2015, porque havia a necessidade de proteger aquela área. “Havia o medo de que ocorressem destruições. Era preciso verificar como preservar a localidade, que só tinha ruinas”, conta.

Segundo ele, primeiramente foi feita a declaração de significância, método usado em países anglo-saxônicos, no qual se identificam os atores envolvidos, valores atribuídos ao sítio e medidas a serem tomadas. “Estamos frente a um sítio que passou a significar evento importante na história do Brasil”. Até o momento, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, em Bento Rodrigues, e a Igreja de Santo Antônio, em Paracatu, já foram tombadas de forma individual.

Processo participativo

Desde o início, o dossiê foi elaborado em conjunto com os atingidos. Alguns inclusive demonstraram, inicialmente, receio de que o tombamento pudesse representar perda de propriedade ou mesmo dificuldade para reaver objetos e documentos que podem ser encontrados futuramente. “Se futuramente acharmos coisas que nós perdemos, fica mais complicado para tirar. Vai precisar de autorização", disse José do Nascimento de Jesus, conhecido como Zezinho do Bento, no fim do ano passado.

“Tem essa preocupação em relação à propriedade. Os terrenos são deles e não podem ter acesso a eles, porque estão sob o controle da mineradora. Tinham medo da intervenção estatal. Entretanto, o tombamento garante a propriedade. Na proposta, a forma de gestão é compartilhada com eles, que são os principais atores. A comunidade que vai contar a história”, explica o presidente do Icomos.

Conforme Castriota, as intervenções em Bento Rodrigues devem ser discutidas posteriormente, mas é certo que terão tipos diferentes. Entre elas está a consolidação das ruínas, para impedir que elas desapareçam. E algumas casas não afetadas também podem ser usadas. As capelas possivelmente serão restauradas, assim como serão feitas reconstruções pontuais. “O tombamento cria um regime de corresponsabilidade e há interesse público, que pode alocar recursos para manutenção e construção de memorial no distrito. O Estado se torna um ator nesse processo”.


Redação Dom Total

EMGE

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