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18/07/2019 | domtotal.com

Tatiana e uma cidade corsa

Sou das antigas e acho que escritores devem escrever antes de se promover. Mas esse é outro afluente bem distante do bom 'Dois Rios' de Tatiana Salem Levy.

A escritora Tatiana Salem Levy.
A escritora Tatiana Salem Levy. (Pedro Loureiro/Divulgação)

Por Ricardo Soares*

Tatiana Salem Levy faz parte de uma geração de escritoras brasileiras na faixa dos 40 anos, um pouco mais, um pouco menos que aparentemente parecem estar mais ciosas das aparências que dos enganos. Boas de marketing pessoal alcançaram a irrisória "faminha" literária através da gentil arte de fazer amigos e influenciar pessoas e começaram a se atribuir importância indevida. Pior, tem em comum o irritante hábito de se levarem a sério o que para mim é insuportável em qualquer escritor.

Feito o reparo ranzinza devo dizer que por tudo isso e mais nunca tive boa vontade com Tatiana ou qualquer outra dessas pseudo-musas literárias de nossa combalida literatura. No entanto e apesar dos reparos no caso de Tatiana e suas festejadas madeixas multiétnicas quem estava perdendo era eu mesmo. Prova disso foi a descoberta tardia do singelo e poético livro da autora chamado "Dois rios" que descobri por acaso na Córsega quando através da tecnologia do Kindle procurava temas afeitos à ilha de Napoleão e dai cheguei ao livro da moça que em parte passa na belíssima cidade de Nonza encarapitada entre o mar e a montanha do norte da ilha. Li o livro junto a exploração de Nonza e posso imaginar o impacto provocado pelo pequeno povoado no imaginário da jovem escritora Tatiana que parece ter passado um tempinho por lá.

Turbinada pois pelas emoções baratas e caras que aquela mistura de aridez e poesia deve ter lhe motivado Tatiana concebeu uma bela história de amor, escrita com talento e vivacidade e que vai bem além da narrativa de um mero triângulo amoroso entre a corsa Marie Ange  e os gêmeos cariocas Antonio e Joana. O romance curto tem uma amarração simples e eficiente, um final mormacento e é, com o perdão do lugar comum, uma ode ao amor infinito enquanto dure ou, como prefere a autora, nossos mortos e amores desfeitos nunca saem da gente.

Embora isso não importe e nem faça a menor diferença para a Tatiana e para os leitores dessa crônica devo dizer que fui injusto em julgar a autora apenas pelas aparências do seu marketing literário. A moça tem força e talento e vou procurar mais dela e menos sobre ela. Sou das antigas e acho que escritores devem escrever antes de se promover. Mas esse é outro afluente bem distante do bom "Dois Rios" de Tatiana Salem Levy.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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