Religião

19/07/2019 | domtotal.com

O que agora ele joga fora...?

Exercer atividades que educam na responsabilidade não é o mesmo que trocar a educação por trabalho.

A educação é a trilha mais fecunda para o futuro.
A educação é a trilha mais fecunda para o futuro. (NeONBRAND/ Unsplash)

Por J. Sebastião Gonçalves*

Quando criança, às vezes para fugir da escola, ia levar comida para meu pai na lavoura e demorava em voltar porque assim perderia o primeiro horário ou quem sabe a jornada completa. Meu pai, quando percebia virava fera, e com seu estilo de cigano que encontrou pátria, reclamava para minha mãe com firmeza: "Vê se não deixa este moleque fazer isto, o que posso deixar pra ele é justamente o que agora ele joga fora, estas horas na escola". Começo o artigo com este testemunho para ressaltar a intuição de um sábio que, apesar de não ser letrado, muito sabia da vida. Quem sabe da vida não despreza jamais o valor da educação na vida dos filhos. E, por isso, a intuição de que a educação é a trilha mais fecunda para o futuro, está no coração de mulheres e homens presente, e pelo jeito bem mais que no próprio horizonte do Presidente.

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Muitos desafios estão presentes na tarefa de educar, bem mais que na de instruir. Podemos começar pelo maior de todos, apontado no início do discurso, que é fazer com que a criança ame o espaço escolar. Que ele não se torne áspero, corrosivo, muito menos traumatizante. Quem tem o mínimo de contato com este mundo, bem sabe dos esforços psicopedagógicos para que o espaço educativo se torne sempre mais acolhedor e atrativo. Entre outras dificuldades também recordamos a injusta competição entre o mundo do entretenimento (redes sociais, mídias sociais, aplicativos variados) e a tarefa árdua de ensinar-aprender que nem sempre é divertida. Não esqueçamos também que junto a tudo isto se soma uma cultura de superficialidade e fluidez das informações que se confunde com o processo educativo dando a impressão de uma autonomia entre o ambiente familiar, onde ocorreria a verdadeira educação, e a escola como espaço de pura instrução. Como fruto de uma civilização dicotômica, temos hoje cada vez mais forte a ideia da separação entre a tarefa da escola e a tarefa familiar, ou em muitos casos, a união confusa e infrutífera destes dois ambientes.

Por que estamos expondo todos estes desafios? Simples! O fazemos para elucidar a tese de que temos problemas o suficiente que nos dificultam a tarefa de promover, não somente uma educação integral, mas também de trabalhar para que a percepção de sua centralidade na existência humana continue uma convicção afetiva e efetiva a fazer parte da representação social. Definitivamente, não precisamos de um entrave a mais colocado oficialmente pelo Estado, além daqueles que já estão oficializados, como por exemplo, nosso baixo ordenado. Neste sentido, defender a esta altura o trabalho infantil constitui uma irresponsabilidade, própria daqueles que não colou os pés no pátio de uma escola a não ser para fazer promessas de campanha eleitoral. Diante de um imaginário ainda difícil em relação à tarefa de educar, e da resistência crescente de muitos em aceitar o espaço escolar como ambiente de socialização e desenvolvimento de competências e habilidades fundamentais, a postura outrora citada constitui, sem dúvida, um desserviço à Pátria.

Atenção! Não estamos aqui fazendo uma defesa adocicada da educação das crianças. Neste sentido, partilhamos da convicção de que pequenas tarefas domésticas, como arrumar o quarto, lavar os pratos, limpar o ambiente, constituem autênticas práticas educativas. Não se trata de colocar a criança numa bolha, como fazem muitos. Contudo, parece-nos claro que existe uma distinção basilar entre as práticas corriqueiras de pequenas tarefas domésticas e a defesa da legitmização do trabalho infantil. Aquelas são necessárias, esta um absurdo. Não advogamos a isenção da educação em responsabilidade desde a tenra infância. De fato, na medida do possível, fazer com que a criança cresça em responsabilidade de acordo com sua maturidade psico-afetivo-intelectual é eixo central da prática educativa. Não há problemas em manter a semântica "trabalho" no mundo da criança. Mantemo-la desde que relacionada à tarefa não menos árdua de estudar. Evoco a força dos sábios para que esta intuição não seja apagada pela a irresponsabilidade dos que nos preside: "vê se não deixa este moleque fazer isto, o que posso deixar pra ele é justamente o que agora ele joga fora, estas horas na escola".

*J. Sebastião Gonçalves é padre e professor universitário, possui graduação em Filosofia e Teologia, graduando também em Psicologia. Especialista em psicologia da formação para a vida religiosa. Mestre e Doutor em Teologia sistemática. Focaliza sua pesquisa na relação Filosofia, Teologia, Fenomenologia do corpo, Psicologia, e Educação.

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