Religião

19/07/2019 | domtotal.com

Proteger a infância da violência do Estado

A infância deve ser protegida para o desenvolvimento pleno da pessoa, não sacrificada para a satisfação do mercado.

Trabalho infantil ainda é preocupante no Brasil.
Trabalho infantil ainda é preocupante no Brasil. (Valter Campanato/ Agência Brasil)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A proteção da infância é um pacto afetivo-moral de nossa sociedade. Quando crimes e abusos contra crianças vêm à tona, em nosso meio, vemos a onda de indignação que nos ronda e que nos afeta. Essa indignação borbulha em nós. É uma indignação legítima! A infância deve ser protegida, a fim de que a constituição do ser pessoa se realize do modo mais pleno possível. É na infância onde estão e se manifestam todas as potencialidades que, valorizadas ou desvalorizadas, marcarão o futuro do sujeito.

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Mas há um sem número de crianças que têm a vida ameaçada e que não recebem a solidariedade da indignação, porque nascem e morrem no anonimato. A injustiça social no Brasil é sistêmica e lucrativa para uns poucos. Para uma imensa maioria, anônima e desconhecida, ela é a morte. O mínimo que o Estado de Direito pode fazer, nesse contexto, é buscar garantir meios básicos de sobrevivência para essa imensa massa que, inumanamente, vive na danação. Os que desconhecem para além dos limites do próprio umbigo, ainda são capazes de desejar um Estado que seja mínimo! Eis a pura celebração da indiferença que assassina!

Pior que a defesa de uma agenda neoliberal num país fundado na desigualdade é a própria ação do Estado na destruição de direitos básicos que, para muitos, significa sobrevivência. Esta é a face do atual governo: não se trata de um Estado mínimo; trata-se do uso das forças do Estado para produzir morte descaradamente. O lema de campanha presidencial do atual governo, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, talvez tenha muito significado, quando nos revela outras citações bíblicas, do mesmo Evangelho, muito pertinentes ao que temos vivido em nosso país: o ladrão só vem para matar, roubar e destruir (Jo 10,10) e, o diabo é o pai da mentira (Jo 8,44).

Não é logicamente possível que quem dispensou voto ao atual presidente, em nome da moral, continue compactuando com tantas perversidades. Mas, ao contrário do que temos visto, apesar de um número considerável de arrependidos e arrependidas (benditos sejam!), há todo um aparato policialesco e violento, legitimando as desumanidades terrivelmente cristãs de quem ocupa o poder. São tempos da moral sem ética, palavra, esta última, que não compõe o vocabulário dos perversos e maus.

Os que estão sob ameaça são muitos e muitas. Mas a infância está com o futuro comprometido. Sem condições sociais de se aposentarem; destinadas ao adoecimento, por um sem número de venenos na comida; sem perspectivas de uma educação pública e de qualidade... Em nome de quê, afinal? De uma economia a serviço da morte, que sacrifica milhares e milhares de pessoas, com o louvor de pessoas religiosas que bradam o amor de Deus a um círculo bem circunscrito.

É preciso deixar livres as crianças, para que alcancem aquilo a que são chamadas a ser: pessoas realizadas, humanamente capazes de desenvolver suas potencialidades. Se buscamos recusar as violências domésticas e de outros tipos, que as tornam vítimas, por que aceitaríamos, passivos e cúmplices, uma ação do Estado que as condenam à injustiça perene? É em nome da vida, ela integralmente, que devemos pautar nossa ação. Sobretudo as pessoas de fé, que têm um compromisso ético-existencial com a humanização. Essa é a verdade verdadeira que vai nos libertar!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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