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19/07/2019 | domtotal.com

O funeral do Rex

O caso teve lugar em Belo Horizonte e envolveu um simpático grupo de freiras, moradoras de uma tradicional comunidade cristã da cidade.

No fundo, junto às mangueiras, o falecido Rex poderia descansar em paz sob sete palmos sagrados e benzidos.
No fundo, junto às mangueiras, o falecido Rex poderia descansar em paz sob sete palmos sagrados e benzidos. (Free-Photos/Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Em meio à chatice da política nacional, contaram-me uma historinha divertida que reproduzo aqui, pra aliviar o clima. O caso teve lugar em Belo Horizonte e envolveu um simpático grupo de freiras, moradoras de uma tradicional comunidade cristã da cidade.

Começou triste: Rex, o cachorro delas, velhinho, morreu. Tinha sido um bom companheiro, fiel, divertido, guardião confiável da pequena residência. Porém, vida que segue: deveriam tomar providências e pensar numa forma de sepultarem o bichinho. Certamente não haveria lugar no terreiro; apenas um jardim e canteiros floridos de dimensão reduzida, áreas impraticáveis. Já a cremação... muito cara.

Uma das irmãs sugeriu a alternativa: na periferia havia um terreno de propriedade da congregação, do tamanho de um sítio. Ali, um caseiro cuidava da horta, do pomar, do galinheiro, garantindo as provisões orgânicas. No fundo, junto às mangueiras, o falecido Rex poderia descansar em paz sob sete palmos sagrados e benzidos.

A ideia foi aprovada após a oração da tarde. Muito bem, mas... Como fazer para levar o bicho tão longe? Qual taxista caridoso se disporia a fazer o último trajeto até a periferia levando um bicho morto? Com essa frota de carros novos, limpinhos e cheirosos, provavelmente o motorista rosnaria, rejeitando a corrida.

A mesma freirinha da primeira proposta – criativa, convenhamos – não pensou duas vezes:

- Queridas irmãs, temos ainda aquela caixa de papelão que embalou a TV antiga, lembram-se? Transportar “uma televisão” num automóvel é simples e aceitável... Que tal se...?

Entreolharam-se. Uma pequena mentira assim não teria importância no Juízo Final – concordaram. Preparam tudo e puseram o Rex dentro da tal caixa – com flores, suponho. E sinalizaram para o primeiro carro que passou na porta.

Era um motorista de aparência confiável, solícito, cuidadoso com as passageiras tão delicadas. Ele mesmo se encarregou de acomodar a caixa. E lá se foram, seguindo o Waze; lugar distante, corrida boa, trabalho tranquilo. E o motorista, atento à carga frágil – supostamente uma TV de não-sei-quantas polegadas – ainda reduzia a velocidade nas lombadas, evitando sacudidas.  

Quase chegando, o carro engasgou e falhou. O cara encostou no meio fio, puxou o freio de mão e saiu para checar o motor. Levantou o capô, mexeu aqui e ali, coçou a careca. 

- As senhoras me desculpem, mas não vai dar pra continuar. Tive este problema hoje mais cedo e o mecânico me alertou: se acontecesse outra vez, não insistir; chamar o reboque...

Pobres irmãs! Mais essa, agora? Porém, o motorista apontou para o quarteirão à frente:

- Olha, logo ali tem um ponto de táxi. As senhoras vão lá, peguem outro carro e passamos a TV para ele. Podem ir tranquilas, fico aqui esperando.

Sem alternativa, as freirinhas caminharam rapidamente pela rua indicada. Onde estava o tal ponto de táxi? Perguntavam isso num bar da esquina quando ouviram o carro anterior arrancando, cantando os pneus e desaparecendo numa curva da avenida. Era um golpe! Carro quebrado nada! O safado do falso taxista tinha preparado a cena e, todo feliz, seguia para sua casa levando uma TV novinha em folha no porta-malas.

Lá no céu, São Francisco, guardião dos animais, cumprimentou São Cristóvão, protetor dos bons motoristas, a quem havia pedido uma ajudinha, e deram boas gargalhadas. Se a justiça terrena não anda lá essas coisas, a divina pode até tardar, engasgar ou derrapar numa rampa - mas nunca falta.

EMGE

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