Brasil

21/07/2019 | domtotal.com

O urubu míope

Como gosto de tirar lições de todos os fatos que presencio, fiquei imaginando como a deficiência de visão nos coloca, a todos, em risco, às vezes até da própria vida.

Mesmo não sendo apreciados, têm uma enorme importância na natureza, pois limpam o ambiente em que vivem, eliminando carcaças e ossos, sendo responsáveis pela eliminação de 95% dos animais mortos na natureza.
Mesmo não sendo apreciados, têm uma enorme importância na natureza, pois limpam o ambiente em que vivem, eliminando carcaças e ossos, sendo responsáveis pela eliminação de 95% dos animais mortos na natureza. (Arcaion/Pixabay)

Por Evaldo A. D´Assumpção*

O urubu é uma das aves mais rejeitadas. Sua cor toda negra, apesar de nem todas serem assim, seus hábitos alimentares, as histórias de terror onde ela aparece, e sempre de forma sinistra, transformou-a numa espécie de pária, no mundo animal.  Essa ave de rapina, da ordem Cathartiformes, difere dos abutres do Velho Mundo, que pertencem à ordem Accipitriformes. Na totalidade, existem sete espécies de urubus, sendo que dessas, cinco estão presentes em nosso país: o urubu-rei, o urubu-da-mata, o urubu-de-cabeça-vermelha o urubu-de-cabeça-amarela, e o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), que é o mais conhecido e o mais comum nas cidades. Como animais silvestres, são protegidos pela Lei de Crimes Ambientais, nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1.998 e qualquer ação contra eles é crime, inclusive a destruição ou remoção de seus ninhos. Eles não possuem predadores naturais.

Mesmo não sendo apreciados, têm uma enorme importância na natureza, pois limpam o ambiente em que vivem, eliminando carcaças e ossos, sendo responsáveis pela eliminação de 95% dos animais mortos na natureza. Com isso previnem a propagação de doenças, eliminando bactérias nocivas a muitos animais selvagens e domésticos. Em áreas sem urubus, as carcaças levam três ou quatro vezes mais tempo para se decompor. (http://www.avesderapinabrasil.com/)

Em minhas caminhadas matinais, gosto de observar essas aves no alto dos postes e edifícios, com suas enorme asas abertas, aquecendo-se ao sol, especialmente em tempos chuvosos ou invernais. Mas também na elegância do seu voo, onde mais planam do que batem asas, para poupar energia. Com isso, são ótimos auxiliares para os usuários de asas delta, parapentes, e planadores, pois indicam-lhes as condições das correntes de ar que serão por eles utilizadas em seus voos esportivos.

Mas resolvi falar dos urubus, pela experiência que vivi recentemente. Em minha casa possuo, muito a contragosto, cerca elétrica em todos os muros. Confesso que isso não me agrada, e menos ainda as concertinas de aço, de lâminas pontiagudas e afiadas para impedir o transpasse dos muros. Quando as vejo, recordo-me das fotos que vi em minha infância, dos campos de concentração nas grandes guerras, demonstrando a violência e agressividade dos humanos.  Todavia, com o aumento dos assaltos domiciliares – felizmente quase inexistentes em nossa Praia dos Castelhanos – não se pode facilitar. Coloquei a cerca, menos agressiva, tendo os fios bem finos e pouco visíveis. E foi exatamente isso que gerou o fato que passo a narrar.

Num domingo pela manhã, lia tranquilamente em meu jardim quando escutei um grito: “sai fora, bicho feio!”. Logo em seguida, o barulho de pedra caindo no lote do fundo, e de asas batendo com forte ruído. Seguiu-se a visão de um urubu trombando numa das hastes que sustentam os fios da minha cerca elétrica. A ave não deve ter-se machucado, pelo menos mais seriamente, pois continuou seu voo interrompido de forma brusca por um obstáculo que ela não havia visto, seja pela pressa em escapar da pedra que lhe foi atirada pelo vizinho, ou, quem sabe, porque fosse um urubu míope. Que meus colegas oftalmologistas possam me esclarecer se existem urubus míopes. Mas, existindo ou não, o fato é que a trombada foi violenta e quebrou a haste atingida, que teve de ser trocada. Certamente não houve choque elétrico, pois em pleno voo o urubu não teve contato com estruturas que pudessem formar o polo terra, necessário para ser atingido pela descarga elétrica. Os fios se arrebentaram e ele saiu altivo alçando voo ainda mais alto. Certamente com o coração disparado pelo susto que levou.

Como gosto de tirar lições de todos os fatos que presencio, fiquei imaginando como a deficiência de visão nos coloca, a todos, em risco, às vezes até da própria vida.

E não me refiro somente à falta do sentido da visão – a cegueira – mas, e principalmente à falta de visão ética, política, social e cultural. Dizem que o pior cego é o que não quer ver, e é exatamente isso o que observamos em boa parte da população brasileira. Independentemente do nível social e cultural, deixa-me profundamente triste ver a quantidade de pessoas que nunca se preocupou em conhecer as leis fundamentais que regem nossa convivência social. E os poucos que as conhecem, quase sempre as ignoram. Exemplo maior estamos vivendo com as atitudes extremadas dos saudosistas do regime derrotado pelas urnas, não admitindo que o povo, que democraticamente elegeu um novo Presidente, tem o direito de ver o país governado por ele. Nunca vi tantas acusações, tanta distorção de fatos, tanta opinião totalmente sem base na lógica e no direito, tanta mentira, tantas meias verdades, tudo para ferozmente tentar impedir o governo de atuar conforme suas crenças e objetivos. Curiosamente, nos governos anteriores que eles apoiavam, deles se beneficiavam, ou com eles se locupletavam, atitudes semelhantes e outras claramente piores, foram tomadas com o total beneplácito desses mesmos profissionais da mídia. Assusta-me a cara de pau de muitos jornalistas que usam ostensivamente o critério de dois pesos e duas medidas, abusando dos meios de comunicação à sua disposição, e desrespeitando ostensivamente o povo brasileiro, escondendo ou denegrindo o que está sendo feito pelo atual governo. Ou estão usando e abusando da má fé, ou então são tão míopes quanto o urubu da minha história.

*Médico e Escritor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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