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22/07/2019 | domtotal.com

A célula do mal

Neurônios coadjuvados por um emaranhado de fibras protoplasmáticas e uma esquadrilha de inumeráveis células com funções absurdamente precisas.

A cada dia nosso cientista dava um passo a mais rumo às profundezas desse universo inescrutável, onde às vezes se perdia como num labirinto sem saída.
A cada dia nosso cientista dava um passo a mais rumo às profundezas desse universo inescrutável, onde às vezes se perdia como num labirinto sem saída. (mwooten/Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Chamava-se Cândido Aguiar, o Candinho. Conheci-o bem. Desde pequeno dizia ao pai que queria ser cientista. Melhor aluno de Ciências da escola, fazer experiências e pesquisas era o seu lazer. Certa vez ensinou a mãe a fazer sabão usando soda cáustica, óleo de cozinha e água aromatizada com flores.

Aos 17 anos, passou no vestibular de medicina. Decidiu-se pela psiquiatria e começou a estudar o cérebro. E a cada dia se impressionava mais com a complexidade desse órgão formado por cerca de 100 bilhões de neurônios, de acordo com as estimativas científicas. Neurônios coadjuvados por um emaranhado de fibras protoplasmáticas e uma esquadrilha de inumeráveis células com funções absurdamente precisas. Divide-se o cérebro em tálamo, hipotálamo, cerebelo, pallium medial, teto óptico, conexões sinápticas, tudo com funções harmônicas para fazer funcionar essa máquina fantástica, insondável mistério do mundo.

Graduado e pós-graduado com louvor, o agora doutor Candinho perscrutava com especial atenção as células gliais, cuja enorme importância no contexto da regência do corpo humano fora indicada pelo gênio de Albert Einstein. Desconfiava que era ali que se escondiam todos os segredos da vida.

Por que temos fome ou sede ou apetite sexual? Por que sentimos amor ou ódio? Por que nos entristecemos, e nos alegramos, e choramos, e rimos, e nos decepcionamos, e nos assustamos, e aprendemos e lembramos e esquecemos? Por que temos medo ou coragem? Donde vêm o remorso, o arrependimento, a ansiedade? E a bondade, a pena, a maldade? Tudo isso emana do cérebro, ao comando de pequeninas células que a todo sentimento presidem. Que elas fazem tudo isso, sabe-se. Como o fazem, eis a questão.

A cada dia nosso cientista dava um passo a mais rumo às profundezas desse universo inescrutável, onde às vezes se perdia como num labirinto sem saída. Acelerou e aprimorou também seus conhecimentos de informática, acabando por produzir um novo software para a eletroencefalografia digital, criando um EEG-Holter muito mais preciso que o existente, a que denominou EEG-Holter-C em sua própria e justa homenagem: C de Candinho.

Nas suas experiências, vasculhava o cérebro de ratos, coelhos, cães e pequenos símios.

Até que um dia viu luz no fim do túnel: a luz amarelada de uma célula até então desconhecida. Sentiu um calafrio, certo de que era o que há tanto tempo procurava. Localizada no mais fundo recôndito de uma espécie de toca entre neurônios, a célula foi captada pelo capacete do EEG-Holter-C colocado na cabeça de um perigosíssimo pittbul terrier devidamente dopado. Resolvera usar para sua pesquisa definitiva um cão feroz, o mais violento entre todas as raças.

Localizada a célula suspeita, delineou sua latitude e longitude e levou o pittbul para o aparelho de braquiterapia. Foi fácil projetar o raio X no ponto exato da célula.  E extirpá-la.

Enquanto esperava que o cão acordasse, deixou o laboratório, passou dali ao bar que mantinha sempre abastecido em uma sala contígua, pegou um litro de uísque e serviu-se. Depois de tomar uma primeira e generosa dose à cowboy, deixou-se refestelar numa poltrona. Comemorou com mais um gole do Royal Salute a descoberta do mistério que sua mente privilegiada estava certa de ter vencido. Não tinha dúvida de que localizara e destruíra no cérebro do cão a célula que o fazia enfurecer-se e que no cérebro humano tinha a mesma função.

A célula do ódio. A célula do mal.

Fora um trabalho de 35 anos durante os quais tornou-se escravo de si mesmo. Não se casara, não tinha filhos. Só saía da sua reclusão científica para dar aulas, que era essa a sua atividade de sobrevivência. Quando o cão despertou, o dr. Candinho se emocionou como nunca em sua vida. Submeteu o pittbul a todo tipo de provocação e o animal se manteve dócil como um labrador. O antes feroz animal balançava a cauda de satisfação. Não havia dúvida de que no cérebro humano havia célula idêntica, na mesma localização, que comandava a fúria, o ódio, a maldade.

Pensou com justo orgulho na disseminação e nos resultados extraordinários da sua descoberta. Não pensava em dinheiro. Sua recompensa seria ver o mundo livre do ódio. Nada de guerras. Não mais desavenças. Seria o mundo ideal, não mais utópico. O próprio Deus seria poupado das intervenções a que por vezes se vê obrigado no curso da História. Sentou-se novamente na poltrona para mais umas doses do uísque.

No momento em que começou a escolher mentalmente entre seus alunos aquele que pretendia usar para a primeira experiência com humanos, sentiu uma pontada no cérebro. Tudo em volta escureceu. O copo desprendeu-se lhe da mão e caiu sobre o tapete. Estava morto.

Para infelicidade geral das nações, o fantástico doutor Candinho partira para sempre, levando com ele sua descoberta.

Ao lado, o cão lambia o uísque derramado.

EMGE

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