Brasil

22/07/2019 | domtotal.com

A morte de um mito e de um canalha

O mito, esta palavra tão mal-empregada hoje em dia, foi João Gilberto a quem presto homenagens, mas não deito ladainha pois outros, melhores do que eu, já o fizeram.

João Gilberto num show em Nova York em 2008.
João Gilberto num show em Nova York em 2008. (J. Vartoogian/Getty Images)

Democrática mesmo é a morte. E sem critérios. Num mesmo dia de começo de julho, um sábado, levou um mito e um canalha da mesma geração. O mito, esta palavra tão mal-empregada hoje em dia, foi João Gilberto a quem presto homenagens, mas não deito ladainha pois outros, melhores do que eu, já o fizeram. A lamentar apenas os seus últimos tempos de privações e interdições familiares depois de uma longa jornada arte adentro onde, ele sim, tatuou o nome do país na pele musical do planeta.

Houve um tempo em que não gostei de João Gilberto. Achava-o chato. Ainda bem que mudei mas não a tempo de perdoar em vida o canalha que morreu no mesmo dia que o João. Era um jornalista, dos piores ou o pior que já conheci,  e não lhe direi o nome para não perturbar na tumba o seu fantasma venal. Nunca lhe perdoei a soberba, a arrogância, a mão leve, a pena vendida, a pose e sequer a voz gutural e o texto piegas que ele considerava esplêndido. Mas, sem maiores ironias, sou grato a esse sujeito porque me fez ter contato desde cedo com o pior da profissão. Foi sempre o meu anti-modelo, de longe o jornalista que mais desprezei na vida a ponto de com dois amigos - um que já partiu também - termos feito a promessa na juventude, à guisa de um texto de Nelson Rodrigues, de urinarmos no túmulo desse elemento. Evidente que não mais faria isso até por consideração àqueles que amavam o canalha. Sim, espantem-se! Por ocasião da morte dele dois ou três gatos pingados lhe teceram loas. Sim, canalhas também são amados.

Sim, a morte é democrática e apaga injustiças pois o mito morto vivia dificuldades financeiras  e o canalha falecido sempre surfou boas ondas financeiras tendo inclusive expirado naquele que é considerado um dos melhores hospitais do Brasil. Do canalha não ficou legado algum, felizmente. Do mito não um mas muitos legados ficaram. Mas aqui imerso  num parque parisiense no momento em que escrevo essas linhas não aprendi ainda a sabedoria  de ao escrever perder menos tempo com os canalhas e muito mais com os mitos e sábios. O consolo, se é que isso conta, é que com a morte do jornalista octogenário  e gatuno  o mundo tira das costas  o peso de mais um pesado canalha. E segue, na medida do possível, com a leveza da música das esferas produzida por João Gilberto. Mitos e canalhas perecem. As vezes no mesmo dia. Mas das  duas categorias uma só será recompensada se paraíso existir. E a essa altura acho que ele existe pois é cada vez mais necessário acreditar que há algo muito além desse país desgovernado por canalhas.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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