Religião

23/07/2019 | domtotal.com

Quem tem medo do diferente?

O fundamentalismo segue um caminho que vai desde o apego cego à doutrina, passando pela invenção de inimigos até a convocação de 'guerras santas' contra estes.

O medo do outro pode estar relacionado com o genuíno desejo de ser, possuir ou ocupar o lugar do outro.
O medo do outro pode estar relacionado com o genuíno desejo de ser, possuir ou ocupar o lugar do outro. (Tim Mielke/ Unplash)

Por Tânia da Silva Mayer*

Os fundamentalismos sempre foram prejudiciais na história da humanidade. Embora possam aparecer sob diferentes prismas, talvez um dos tipos mais expressivos seja o religioso. Manifesta-se a partir do uso literal do texto sagrado de determinada tradição religiosa, considerando-o sem erro e impossível de interpretação. Noutras vezes, passe-se do texto sagrado para a doutrina. Nessa esfera, pretende-se implementá-la como molde para a sociedade, de modo que a sua moral seja a de todos os cidadãos. No fundamentalismo não há espaço para o contraditório, para a interpretação e para o jogo histórico que acontece na relação entre os indivíduos.

Outra característica do fundamentalismo religioso é a criação de um inimigo, que deve ser enfrentado e eliminado. Este pode ser o demônio, a modernidade, a secularização, o corpo, a democracia, uma ideologia, um partido político, uma pessoa, uma exposição artística, uma peça de teatro etc. Note-se que é sempre o outro que está errado, em posição de ataque e que, portanto, deve ser eliminado. Por isso, os que pensam e os que agem de maneira diferente sempre oferecem ameaças aos fundamentalistas, que são ágeis em contra-atacar a fim de conservarem as instituições e o mundo da presença e da atuação de seus inimigos.

Não é novidade que o cristianismo percorra, em determinados momentos da história e pelo posicionamento de alguns religiosos, caminhos próprios do fundamentalismo, que vão do apego cego à doutrina, passando pela invenção de inimigos até a convocação de “guerras santas” contra estes. Quando isso acontece, o acontecimento fundador da fé cristã é posto em cheque. Passa-se a desconsiderá-lo em nome de um projeto de poder temporal que é a vitória sob os inimigos e a implantação de uma sociedade aos moldes da fé em questão.

Mesmo um fiel que tenha apenas ouvido falar de Jesus e se encantado minimamente por seus gestos e palavras será capaz de perceber a incoerência entre o fundamentalismo cristão e o Evangelho do Reino. Precisamente, o Evangelho não é uma doutrina que deve ser incutida nas pessoas a partir de um projeto de poder, mas uma novidade a ser acolhida na liberdade. A Sagrada Escritura da fé cristã ensinará, também, que nenhuma pessoa e povo estão excluídos da alegria que essa boa-notícia traz. Por sua parte, os ensinamentos de Jesus nos conduzem a olhar para o outro, para o diferente, não como um inimigo, mas como um irmão, igualmente destinatário da misericórdia e do perdão divinos.

Os estudos da psicologia ensinam que o medo do outro pode estar relacionado com o genuíno desejo de ser, possuir ou ocupar o lugar do outro. Trata-se de uma admiração tão profunda e irrealizável que tão logo se converte em inveja e, consequentemente, em ódio. Um ódio que quer eliminar o outro e a sua diferença. E os cristãos não estão isentos desses esquemas psicológicos. Mas, por sua parte, a fé em Jesus quer indicar justamente a possibilidade de superar o ódio pela prática do amor.

Logicamente, não se trata de qualquer amor, mas daquele amor que Deus demonstrou pelo Filho e, Nele, pela humanidade inteira, no madeiro da cruz. Trata-se de um amor que é mais forte que a morte, o ódio, a inveja, o ciúme, a injustiça, o medo, porque ele está irremediavelmente relacionado à promoção da mais vida para todas as pessoas. Quem sabe amar não acorre ao fundamentalismo que trata os outros como inimigos a serem eliminados. Quem sabe amar, sabe ouvir e acolher, não levanta a voz para dispersar e afugentar os diferentes. Todo o resto é medo ou má fé.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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